Fabricar e consertar sapatos é uma arte que segundo escritos vem de muitos anos atrás. Diz-se que por volta do ano 280 na França, dois irmãos que eram pregadores do cristianismo durante o dia, faziam sapatos para sobreviver durante a noite. O imperador da época orientou a que os irmãos Crispim e Crispiano fossem perseguidos e degolados pelo facto de terem convertido muitas pessoas ao cristianismo. Na actualidade, a profissão de sapateiro ficou limitada aos consertos, muito por força das grandes indústrias de produção em massa. A reportagem do JE saiu à rua para in-loco constatar o estado actual da velha profissão. A centralidade do Sequele foi a nossa primeira paragem, onde encontramos Sebastião Kissanga com cerca de 33 anos dedicados a profissão de sapateiro. Mestre Kissanga como é conhecido, sempre com um sorriso nos lábios recebe clientes de várias idades que não dispensam o seu serviço pela qualidade com que restaura sapatos, sandálias, chinelas, ténis, entre outros.
Já lá vai o tempo em que mestre Kissanga era procurado por muito boa gente que queria encomendar sapatos, feitos à medida do pé. Hoje o trabalho resume-se aos remendos. Mas a desvalorização da profissão não amedronta mestre kissanga, que afirma ser sapateiro é ser um artista que deve merecer um olhar mais digno.
No seu espaço na centralidade do sequele, estão expostas algumas sandálias saídas das suas mãos. Sapateiro desde 1981, mestre Kissanga mantém-se fiel à profissão que abraçou quando jovem. “Sou feliz por ter aprendido esta arte. Nunca abandonei a profissão, tenho casa e sustento a minha família”, diz com orgulho.
Foi na província da Lunda Norte, município do Chitato, sua terra natal, que ganhou o gosto e a determinação para a arte de fazer e arranjar sapatos. As saudades dos tempos áureos da profissão, muitas vezes entristecem o rosto do velho sapateiro. No município do Chitato tinha uma sapataria com máquinas de moldar, lixar e coser. “Fazíamos sapatos, sandálias e outras coisas mais. Hoje, o meu trabalho é somente alargar e remendar sapatos por falta de máquinas que perdi na vinda para Luanda e por não ter alguém para consertá-las”. Desabafa com nostalgia.
A dificuldade na aquisição da matéria-prima é o verdadeiro calcanhar de Aquilles para os artesãos segundo mestre Kissanga, facto que tem provocado a desistência galopante de profissionais da arte milenar, que clama por herdeiros. “Como é que os miúdos vão aprender a nossa profissão? Eles vêem o nosso sofrimento para conseguir material. Tudo vem do estrangeiro. Os armazéns que nos vendiam matéria-prima, agora só vendem cerveja”, lamenta o mestre Kissanga, como é carinhosamente chamado.

Novo impulso

A crise económica veio trazer novo ar à profissão milenar, que viu o número de clientes aumentar em função da redução no volume de importações e consequentemente a quebra na venda a grosso nos armazéns. “ Agora como os sapatos estão a custar mais caro devido a dificuldade de importar começou uma nova fase para nós. Mais clientes procuram restaurar ou mesmo remendar os seus sapatos. “Hoje posso sair da praça com uma facturação de 20 mil kwanzas nos dias bons numa procura de 20 ou 30 clientes.
Os preços estão ao alcance de todos os bolsos, sendo que a aplicação de um taco nos sapatos custa mil kwanzas, enquanto que a sola
fica a dois mil e 500 kwanzas.
Manuel Vieira gerente da sapataria Canguenza, sita na Avenida de Portugal, começou a carreira com 17 anos em Benguela, quando aprendeu a profissão que se tornou a sua principal paixão e serve de meio de subsistência à sua família.
Mestre Mani como é carinhosamente chamado conta que teve de adaptar-se à realidade do mercado para que a sapataria pudesse sobreviver. “Com a venda a grosso nos armazéns, as pessoas deixaram de restaurar os sapatos e nós desenvolvemos a área de fabrico a mão, de sandálias de todo tipo e para todas as idades, além de bolsas, restauro de cadeiras a base de napa ou cabedal”, salienta. Os preços variam
de três a sete mil kwanzas.
Na sapataria Cangueza trabalham dez sapateiros que fazem autênticos milagres em sapatos usados e em novos. O principal objectivo é ver o cliente satisfeito. Para tal, é importante saber como o couro se comporta, os pontos que é preciso dar nas solas, aplicar saltos e restaurar sapatos velhos em novos além de sandálias de todo tipo.
Com habilidade e mestria, consegue reduzir ou aumentar um sapato até três números. Para isso, disse mestre Mani, não se usa mágica, mas sim arte de mãos. Ele desmonta os sapatos, descose a sola, trata o couro e depois monta tudo manualmente.
Os concertos mais comuns resume-se à reparação de saltos partidos ou gastos, colocação de capas novas nos saltos altos, ajuste dos canos das botas altas danificadas, limpeza do mofo e humidade nos sapatos e bolsas de couro, alargar ou apertar sapatos e lustre no couro
velho e com desgaste de uso.
Segundo mestre Mani, calçados para arranjar há sempre, por mais moderna que seja hoje a indústria dos sapatos. Há sempre um cliente que nutri sentimento profundo por um sapato ou sandália e traz para fazer algum ajuste como aplicar meia- sola, um taco para trocar,
uma pintura entre outros.
Apesar de reconhecer que em termos de rendimento a profissão já foi melhor, não reclama do que ganha nem das horas que trabalha. “Eu tenho me contentado com o que ganho e damos o nosso melhor para que os nossos filhos tenham tudo o que precisam. Não tenho do que reclamar. Ser sapateiro e artesão é bem melhor do que ser delinquente”, afirma.

Engenho e arte

A Igreja celebra os santos Crispim e Crispiniano como padroeiros dos sapateiros no dia 25 de Outubro. Diz a lenda que por volta do ano 280, os irmãos que pertenciam à classe rica daquela época, se converteram ao cristianismo. Foram perseguidos pelos governantes e tiveram que sair de Roma para a Gália e lá se estabeleceram. Fizeram voto de pobreza, distribuiram as suas riquezas e passaram a trabalhar como sapateiros. Essa profissão, uma das mais antigas da humanidade, era muito discriminada, por estar sempre associada ao trabalho dos curtidores e carniceiros. Mas o cristianismo mudou a visão e ela foi resgatada graças ao surgimento dos dois santos sapateiros, chamados de mártires franceses. Dizem que foram capturados , amarrados numa pedra e jogados ao rio, mas que tinham conseguido sobreviver. Quando descobriram foram presos novamente e em seguida decapitados.