José Sardinha, sócio da empresa 2MS criada em 2011, disse em entrevista ao Jornal de Economia & Finanças que o Angola ERP (uma solução moderna de informática), poderá ajudar as empresas sistematizar e monitorar o Imposto sobre de Valor Acrescentado (IVA), que vai vigorar a partir de 2019 no país. Afirmou que já fazem com outros impostos, assegurando ser um sistema universal utilizado em mais de 50 países. A empresa funciona como gabinete de contabilidade, consultoria em ERP e fiscalidade e emprega 10 técnicos angolanos.

Como foi capaz de desenvolver uma solução informática de gestão para Angola?
A nossa solução é baseada em software de código aberto, sendo a nossa empresa uma consultora e prestadora de serviços de implementação de software e contabilidade. Temos disponibilizado soluções de menor custo e também que procurem responder ao desafio da mobilidade e integração que a tecnologia actual impõe.
Estivemos durante muito tempo à procura de uma solução de código aberto, e pensamos que a plataforma actual, é perfeitamente adaptável ao contexto angolano, pela sua simplicidade, baixo custo e fácil customização.

Que inovações traz o novo software para as empresas?
O primeiro ponto é o facto de ser disponibilizado em cloud, pois não é instalado em rede local, bastando ao cliente ter uma ligação à internet, que não precisa de ser muito rápida. E, hoje, temos internet em todo o país, pelo que o nosso sistema funciona em qualquer plataforma, Windows, Mac, Linux, Android, basta ter um browser de internet.
Outro aspecto tem a ver com o custo. Nós não vendemos o software mas este é disponibilizado gratuitamente e qualquer um pode fazer download do mesmo. O que nós vendemos é o aluguer de acesso aos nossos servidores. O cliente não precisa de pagar licenças, nem ter custos com hardware como servidores ou computadores novos ou com software de suporte ou ainda infra-estutura de rede.
Por fim, tem a ver com a segurança e transparência. Nós garantimos 99.9 por cento de disponibilidade de serviços aos nossos clientes, ao mesmo tempo garantimos a segurança dos dados em servidor seguro, e a confidencialidade tambem é garantida, pois não existem acessos não autorizados aos dados do cliente, visto que cada um tem o seu próprio website no nosso servidor e o acesso à informação é controlado pelo cliente.

Para a criação do referido instrumento informático contou com ajuda de técnicos estrangeiros?
O software é desenvolvido por uma empresa indiana e tem colaboração voluntária de pessoas de todo o mundo dado o facto de ser Open Source (Código Aberto).
A implementação do Angola ERP não contou com técnico estrangeiro nenhum, pois todo o projecto foi desenvolvido e implementado por angolanos, cujos servidores estão alojados em Angola, o domínio e todos os serviços disponibilizados são angolanos. Os implementadores e toda a metodologia de implementação tambem são 100 por cento de angolanos.
Nós não temos nenhum custo em divisas.

Como encara a concorrência neste mercado, já que temos no país o Primavera, Sistec e a NCR a liderarem?
É bom que existam vários operadores neste mercado, não vemos o nosso produto como concorrente destas marcas, na medida em que são empresas estabelecidas e com poder financeiro e de marketing com que nós só podemos sonhar. Reconhecemos tambem que existe grande qualidade nos produtos que eles oferecem.
Acreditamos que existe muito mercado para desenvolver em Angola e a informatização ainda está no início. O nosso interesse nesta fase é estabelecer uma oferta diferente a da já existente e aumentar o leque de escolhas aos clientes. Sabemos que ainda é cedo para pensar em quotas de mercado.
O novo ciclo económico é propício para um melhor ambiente de negócios?
Angola nunca foi fácil e não é fácil, mas é um país onde uma iniciativa bem sucedida pode fazer uma grande diferença em termos de impacto social. Penso que o actual momento é ideal para o surgimento de ideias inovadoras e a capacidade dos angolanos em sobreviver e prosperar entre a adversidade é eterna.
Tem havido políticas incentivadoras para o surgimento de empresas como a vossa?
A nível privado existem algumas startups a fazerem coisas interessantes, penso que a nível institucional, o nosso Governo e decisores ainda não idealizaram o quanto perdem com o uso de tecnologia proprietária e também não existe entendimento do efeito em termos de balança de pagamentos que tem o uso de software proprietário no estrangeiro.
Penso que o problema da minha empresa é igual a de todas as outras, demasiadas licenças e muito caras, licenças que não são equivalentes a certificacões, a infra-estrutura básica é muito cara, e ainda assiste-se o débil e baixa confiabilidade.
O nível de informalidade da sociedade angolana, ao mesmo tempo que demonstra uma grande capacidade de adaptação dos cidadãos, também comprova a inabilidade das nossas instituições em facilitar a vida dos cidadãos.
A introdução do IVA em 2019 é sinal positivo para sua empresa?
Por nos basearmos num sistema que tem utilizadores em mais de 50 países, o nosso sistema “ERP” está pronto para a sistematização e implementação do IVA. Temos já todos os outros impostos angolanos sistematizados, e estamos a aguardar pela informação oficial para começarmos com a adaptação ao nosso sistema.
Nessa base, mantém algum contacto com a (AGT) ou outras empresas do Estado para uma parceria contratual?
Já tivemos alguns encontros de carácter informal, com funcionários da AGT, para apresentar a nossa solução, e a resposta foi positiva e encorajadora. Penso que estamos bem posicionados para no futuro sermos um software certificado e recomendado pelas autoridades angolanas.
Há quem pense que o sistema pode inutilizar os impostos agravando mais a fuga ao fisco?
O nosso sistema pode ajudar as empresas a terem melhor organização e pagarem correctamente os seus impostos. No entanto, as empresas que utilizam a nossa plataforma são aconselhadas por nós a pagar os seus tributos ao Estado angolano.
Não é o sistema informático que previne a fuga ao fisco. A consciência individual, a percepção do bem comum e a fiscalização efectiva são mais eficazes que qualquer sistema informático.
Penso que o portal do contribuinte é uma ideia fantástica e deveria ser de uso obrigatório.
Há já uma cultura de organização contabilística que é fundamental para a eficácia e eficiência das empresas?
Estamos a dar alguns passos positivos neste aspecto, pois a obrigação do grupo B em apresentar contabilidade organizada, foi uma medida boa para forçar as empresas a terem contabilidade organizada. Penso que deveríamos rever o Plano de Contas de Angola, modernizá-lo, uma vez que já data à 17 anos (2001) e o paradigma mundial alterou completamente.
Uma medida interessante seria termos planos de contas simplificados para as empresas do grupo B, à semelhança de Moçambique.
Já conseguiu captar novos clientes para esta nova solução?
Temos crescido a um ritmo satisfatório, mas tímido . Este projecto é financiado com fundos próprios e não conta com capital alheio nenhum, então não tem como crescer muito rápido.
E também parte da nossa estratégia é desenvolver o produto de forma orgânica. Acreditamos que ele deve amadurecer ao seu próprio ritmo e que a medida que for amadurecendo vai crescer na direcção certa.
Não queremos progredir mais rápido que a nossa capacidade de resposta, mas para isso queremos também ter bases sólidas, isso se consegue com trabalho e metodologia, não com crescimento descontrolado.
Como as empresas angolanas encaram o software, já que muitas acreditam mais em produtos vindos do estrangeiro?
Com um misto de desconfiança e de espanto, muitos não acreditam na nossa capacidade ou na fiabilidade do produto, é normal e vai levar o seu tempo. Custa a muita gente crer que por Kz 30.000 mensais se consegue ter acesso a um software de Contabilidade, Tesouraria, Logística, Recursos Humanos, Produção e Projectos, quando um software deste tipo costuma significar investimento na ordem das dezenas de milhares só em software e equipamento.
Os utilizadores mais experimentados já começam a ver as vantagens de estarem no exterior do país ou numa área remota e poderem emitir facturas ou verificar os relatórios de caixa a partir do seu próprio telemóvel.