Redacção, com agências

Sócrates, o filósofo grego, condenado por subverter a ordem social, corromper a juventude e provocar mudanças religiosas, foi condenado a suicidar-se com uma taça de cicuta, em 339 AC, como narra a história.

Segundo os registros da época, o filósofo teria admitido que poderia ter evitado a sua condenação se tivesse desistido de uma vida justa.

José Sócrates, o primeiro ministro socialista português, estará diante de sua taça de cicuta política, caso seja forçado a desistir do caminho justo, mas difícil, da implementação de uma reforma fiscal que visa a reduzir drasticamente o déficite recorde das contas públicas do país.

Sócrates, o político português, não vê, contudo, nenhuma semelhança entre os problemas do seu país e as dificuldades que estão a ser enfrentadas pela Grécia. Para ele, a comparação entre os dois países é “injusta, sem sentido e estaria a mandar uma mensagem errônea aos mercados internacionais”.

Apoio a Portugal

A mensagem do primeiro ministro português não parece ser, felizmente, um mero exercício de retórica a considerar-se que, na semana passada, Portugal recebeu o apoio das agências internacionais de ratings de crédito e do Banco Mundial. “A situação da Grécia é muito pior que a de Portugal” avalia Anthony Thomas, analista de risco soberano da agência Moody’s, citado pelo FT.

O governo socialista de José Sócrates estaria num momento crucial da transição que empreendeu para construir o Portugal moderno, sem depender da indústria tradicional de baixo custo, para subir na cadeia de valores até alcançar o patamar das indústrias com base no conhecimento, avalia o diário britânico.

Crescimento

Em cinco anos de governo, Portugal tornou-se, segundo o primeiro-ministro José Sócrates, líder europeu em energia renovável, governação electrónica, ensino tecnológico e redes de fibras-ópticas.

O número de funcionários públicos foi cortado, segundo fontes oficiais, de 750 mil para 675 mil empregados e a idade necessária para aposentação foi aumentada. Outro dado importante é que Portugal está a levar para a universidade cerca de 35% dos seus jovens. O país oferece um computador a cada criança matriculada na sua rede escolar e promove o ensino do idioma inglês a partir dos seis anos de idade para toda a população. E está a investir mais de 1,5% do PIB em pesquisa científica, uma cifra superior à de sua vizinha Espanha.

“Estamos a promover as mudanças estruturais necessárias para promover a produtividade e a competitividade” diz o primeiro-ministro.

Esta euforia, entretanto, não está a ser corroborada pelo empresariado, nomeadamente pelas pequenas e médias empresas (PME), que têm sido a base da economia portuguesa e as principais geradoras de empregos. “As empresas portuguesas são credoras do estado e pagam taxas elevadas que muitas vezes as conduzem à falência”, resume o presidente da Associação Nacional das PME, Augusto Morais.

As fraquezas da economia portuguesa acabaram por tornar-se mais visíveis – e ameaçadoras – à luz da crise grega, que expôs os problemas das economias de Portugal, Irlanda e Espanha e provocou a alta dos juros dos títulos destes países, a comparar-se com os papéis da Alemanha, por exemplo.

Início da crise

Os problemas começaram a ficar mais complicados a partir de Outubro do ano passado, quando a Moody’s, agência de ratings de créditos, colocou Portugal com rating Aa2 e previsão negativa. O rating da Grécia foi reduzido para A2 em Janeiro de 2010. A agência justificou ao dizer que a economia portuguesa enfrentava a ameaça de um declínio “lento, porém inexorável”.

Para debelar a crise, o governo socialista impôs o congelamento de salários do sector público como parte de um plano para cortar o deficite público do recorde de 9,3% do PIB, em 2009, para 8,3% em 2010, com vistas a reduzi-lo para 3% do PIB, em 2013. Esta tarefa está a ser considerada tanto ambiciosa, quanto dolorosa e, também, arriscada do ponto de vista político.

Cenário desfavorávelZ

O sinais existentes no cenário económico actual não são nada animadores. “O crescimento económico parece estar a indicar para uma recuperação modesta e frágil, em 2010. As perspectivas são um pouco melhores para o longo prazo”, sentencia relatório do FMI de Dezembro de 2009, para Portugal.

Analistas económicos têm avaliado o lento crescimento e a baixa productividade como os factores mais vulneráveis da economia portuguesa. Um dos dados frequentemente mencionados para exemplificar o atraso é a década de crescimento abaixo da média da União Européia, o que trouxe graves danos para a competitividade de uma economia bastante modesta e que não pode mais valer-se de desvalorizações da moeda para incrementar suas exportações.

Vários cenários

Esta situação de fragilidade tem exposto de forma preocupante, nas últimas semanas, as debilidades económicas de Portugal na ribalta internacional, a coincidir com o momento em que os mercados desabaram e o país passou a ser catalogado na mesma categoria que a Grécia e a minar a confiança no euro.

Na semana passada, os mercados voltaram a despencar depois que Joaquin Almunia, comissário para assuntos económicos e monetários da Europa, listou Portugal, Grécia e Espanha como países que mostraram “permanente perda de competitividade” desde que ingressaram na União Européia.

Embora o governo de José Sócrates esteja mergulhado até o pescoço em medidas para sair da crise, observadores do cenário económico europeu não estão tão confiantes num final feliz. Mais além da crise económica actual, os socialistas estão a enfrentar intensa pressão política, à medida que buscam reduzir os gastos do sector público.

O governo perdeu a maioria nas eleições de Setembro passado e agora tenta dialogar com a oposição para manter a governabilidade.

Nesta conjunctura, muitos observadores tendem a crer que um cocktail de cicuta política possa estar a ser preparado para Sócrates, o político português.

Angola não deverá sofrer consequências da crise nos PIGs

ISMAEL BOTELHO

O crescente endividamento de alguns países da Europa provocou uma crise de confiança no mercado financeiro na semana passada. Temendo um calote dos chamados PIGS, composto por Portugal, Irlanda, que substituiu a Itália, Grécia e Espanha, os investidores estrangeiros fugiram da zona euro e estão a refugiar-se no dólar e em títulos do Tesouro americano.

Esse movimento gerou incertezas no cenário mundial, criando constrangimentos em alguns países que ainda não se recuperaram completamente da crise.

Sendo Angola um dos principais parceiros económicos de Portugal em África, as probabilidades do país sofrer as consequências dos problemas económicos, enfrentados especificamente por Portugal, dada a sua ligação com a economia angolana, são consideradas elevadas.

O investimento directo de Portugal em Angola triplicou no período 2008/2009, tendo passado de 210 milhões de euros para 634 milhões de euros e pode sofrer uma redução, segundo previsões dos níveis de importação neste momento.

Para o economista e docente universitário Justino Pinto de Andrade, na entrevista exclusiva que concedeu ao JE, para abordar esta situação, quando as economias dos Estados estão interligadas, a possibilidade de contaminação é sempre possível, quer pelo canal económico, como pelo canal financeiro, salientando, desta feita, que o grau de contaminação dependerá da capacidade de resistência intrínseca das respectivas economias.

O economista afirmou ainda que a interligação das economias provoca abalo nos dois lados, considerando este factor como natural das economias modernas, mas referiu que no caso de Angola, não existirem motivos para dramas, pelo contrário, deve se encarar a situação com ponderação e criar condições para reagir com rapidez e eficácia na resolução de possíveis efeitos.

“ Não creio que Angola esteja muito exposta à situação menos boa que Portugal vive neste momento. Não há que dramatizar a situação. Por exemplo, a banca é um sector que possui uma grande capacidade de recuperação e os Estados cuidam sempre de a proteger, pelas suas repercussões no resto da economia e da sociedade. Pelo que creio mesmo que, se as encomendas de Angola, sobretudo, de bens de consumo portugueses prosseguirem, ajudaremos a manter em actividade as empresas que são nossas parceiras”, garantiu.

De acordo com o economista, essa capacidade de resistência é uma função da própria fortaleza das economias.

“ Por exemplo, Portugal aumentou, nos últimos três anos, as suas exportações e duplicou as aplicações financeiras para Angola. Isso permitiu àquele país europeu ter um forte envolvimento da sua banca no mercado angolano, fenómeno que vai aumentando o percurso em sentido inverso das duas realidades. Actualmente, há igualmente uma maior presença de capital português no mercado imobiliário interno, em alguns domínios dos transportes, na exploração mineira e no ramo comercial. Isto tudo tem reflexos”, considerou.

Justino Pinto de Andrade ponderou que se a economia portuguesa colapsar, ou estiver perto disso, a economia angolana pode sentir os reflexos, sendo que se acontecer o inverso, os portugueses também vão sentir os abalos, ainda que com maior ou menor intensidade.

“É mais fácil negociar, quando as partes se conhecem, em especial, quando falam a mesma língua e as culturas estão muito próximas. Se Portugal tivesse maior disponibilidade tecnológica, estou certo que as relações ainda seriam mais apertadas”, frisou.

Contexto da Lusofonia

A África Lusófona constitui um importante parceiro para Portugal, aumentando cada vez mais o interesse das empresas portuguesas por este mercado. Os PALOP representaram 4,4% das exportações portuguesas em 2006, o que corresponde a níveis significativos nas importações desses países, nomeadamente Angola, que é o 8º cliente de Portugal no mundo. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) representou 5,1% das exportações portuguesas, sendo a diferença em relação aos PALOP devida sobretudo ao Brasil.

Redução nos investimentos

Justino Pinto de Andrade disse que quando uma economia está em crise é natural que se reduza a sua capacidade de investimento, salientando que as possibilidades de recuperação pode derivar de duas opções: ou por via de um aumento do consumo interno, ou através do aumento das suas exportações. No caso, os portugueses podem aumentar as exportações de bens e de serviços para Angola, e se nada se alterar, até poderá ser benéfico para as duas economias.

De acordo com o especialista, numa perspectiva do investimento, a situação pode também ser vista numa dupla vertente, com realce para a situação de se não houver suficiente capacidade de absorção interna e de rentabilização dos investimentos, então eles emigram, neste caso, vão em busca de uma maior absorção e, sobretudo, de uma maior rentabilização.

Para o economista, competirá aos gestores de ambos os países analisar a conjuntura e tomar as decisões mais ajustadas para não se cair em desgraças.

Leia mais sobre o assunto, na edição impressa do Jornal de Economia & Finanças, desta semana, já nas bancas