ISAQUE LOURENÇO

Jornal de Economia & Finanças (JE) = Quais os macro programas do Estado angolano para o sector das ciências e tecnologias?

Maria Cândida Teixeira (MCT) = Como se sabe, o desenvolvimento de qualquer país passa pela ciência e tecnologia. Foi por este meio que a Alemanha, a título de exemplo, se tornou numa grande potência mundial. O governo angolano criou o Ministério da Ciência e Tecnologia nesta perspectiva de desenvolvimento e tem este sector como principal base de apoio ao combate à fome, a pobreza e as doenças endémicas. Tal é a prioridade, porque só alimentando as pessoas pode-se combater as doenças e estas, por sua vez, são erradicadas por meio dos produtos, medicamentos e tecnologias obtidos com a investigação científica. Poderíamos aqui dizer que a prioridade é o desenvolvimento humano para facilitar o desenvolvimento científico e tecnológico.

JE = Existem horizontes temporais para estes programas?

MCT = O governo tem um programa até 2025, que se insere nos objectivos de desenvolvimento do milénio. É nesta conformidade que o Executivo traçou já em 2005 as suas estratégias, através de uma perspectiva internacional, embora se possa aqui afirmar que em ciências e tecnologias não se podem medir os resultados no imediato. Nós estamos a começar o desafio e outros terão de dar continuidade.

JE = Como avalia a mobilização das capacidades internas e externas para estes desafios?

MCT = Recebemos o Ministério da Ciência e Tecnologia (MINCIT), numa altura em que o mundo se debate com uma crise económica e financeira. Este quadro se agrava pelo facto de que, durante o período de conflito interno não terem sido feitos investimentos neste sector. Isto nos coloca grandes desafios, sobretudo, o de que necessitamos de grandes investimentos para avançarmos ante o cenário tecnológico internacional, com destaque para a formação de quadros. De qualquer das formas e tendo em conta estes constrangimentos, o MINCIT criou um programa que visa congregar à sua volta os investigadores e inventores de diversas áreas, para que num curto espaço de tempo haja resultados visíveis, os quais deixaremos como legado às gerações vindouras.

JE = E qual é o primeiro passo já dado nesta perspectiva?

MCT = Neste momento, estamos a trabalhar na criação da política nacional da ciência e tecnologia, que é um marco fundamental para que a ciência se possa desenvolver. Temos várias instituições de investigação científica, universidades públicas e privadas, mas nos faltam as vias e as direcções. Em suma, não sabemos o que temos, o que queremos, nem para onde queremos ir, sendo isto o que estamos a fazer com o cadastramento dos cientistas, investigadores e universidades, para nos permitir saber quantos somos e com quem podemos contar.

JE = Fala-se da existência de um portal. Como funciona e para que serve?

MCT = Temos sim criados dois portais. Um portal do conhecimento, onde os cientistas podem publicar as suas obras, e um outro portal para o cadastramento dos investigadores, permitindo assim ao país conhecer as suas capacidades humanas para o desenvolvimento científico e tecnológico.

JE = Quais as alternativas de fontes de financiamentos para este programa?

MCT = Existe no Orçamento Geral do Estado verba alocada para este sector e em áreas de investigação de outros Ministérios. Temos também assinados protocolos com parceiros e instituições internacionais, tais como o Japão, onde estivemos recentemente, que tem disponível um fundo de apoio para os países em desenvolvimento e com prioridade para os africanos. Contamos também com o Brasil, Portugal e outros parceiros, com os quais pensamos perseguir a excelência no domínio científico e tecnológico.

JE = É possível avançar o total dos investimentos de que se necessita?

MCT = É incomensurável! No país falta-nos de tudo. Estamos a uma distância muito grande, em termos de conhecimento, dos países desenvolvidos e isto nos impede medir quanto precisamos. Precisamos de investir no homem, em infra-estruturas e equipamentos para fomentar a investigação. Este esforço gigantesco vai precisar da mobilização de muitos recursos do Estado e parceiros.

JE = No actual quadro de desenvolvimento do país, que posições devem ser assumidas pelo MINCIT?

MCT = O MINCIT aposta na criação de uma política orientada para o desenvolvimento. Sabe-se que o Executivo traçou um programa de diversificação económica para alavancar outros sectores da produção de riqueza nacional. Nossa contribuição será de, com base nos estudos científicos efectuados, apontar os sectores prioritários para o rápido desenvolvimento que se pretende.

JE = Na visão do MINCIT, quais as reais necessidades científicas e tecnológicas do país?

MCT = São várias, dentre as quais cito o aumento da capacidade científica e de investigação tecnológica do homem e a aposta na formação de quadros em áreas técnicas, enquanto prioridade no desenvolvimento, sem desprimor as áreas sociais.

JE = Como é que o país se deve proteger da fuga de cérebros?

MCT = Através da criação de infra-estruturas que permitem a estes cérebros permanecerem no país, dispondo-os de condições que facilitem a investigação científica e tecnológica, além de apoiarmos as invenções e inovações destes. Digo mesmo que o nosso plano nacional prevê e aponta para estes objectivos.

JE = A palavra de ordem é mesmo investir no homem?

MCT = Absolutamente! A ciência e tecnologia são uma questão de independência e de soberania, além de ser um factor de inclusão social e até mesmo no progresso científico. Nossa meta é no final do nosso ciclo governativo garantir que todos sem excepção se beneficiem e estejam enquadrados nestes programas de desenvolvimento.