As dez razões promissoras para se investir nas terras da Chela, Huíla, com referência para os sectores Agro-pecuário, Indústria, Minas e Turismo estiveram em evidência na II Edição do Fórum Empresarial de Investimentos e Negócios (Invest-Huíla), que a cidade do Lubango acolheu. Em entrevista ao JE, o presidente da Associação Agropecuária, Industrial e Comercial da Huíla (AAPCIL), Paulo Gaspar, apesar das inúmeras potencialidades que a região dispõe, “não há economia que aguente perante a desvalorização constante do dinheiro por dinheiro”.

Quais foram os ganhos para a província da II Edição do Fórum Empresarial de Investimentos e Negócios (Invest-Huíla)?
Destacamos a promoção da imagem da nossa menina dos olhos, a província da Huíla, no país e além fronteiras. Trouxemos a público as dez razões promissoras para se investir nas terras da Chela, com referência aos sectores Agro-pecuários, Indústria, Minas e Turismo, este último que será o nosso cavalo de batalha no futuro. Passamos a ideia da verdadeira Huíla, assim como a nova Lei do Investimento do país, instrumento importante para os empresários estrangeiros.

Quais foram os acertos feitos?
Nos dois dias do “Invest-Huíla”, foi confirmada a linha de crédito da Polónia, estimada em 100 milhões de euros, para acções de impacto sócio-económico. Os empresários namibianos estão já a pesquisar o nosso mercado para definir onde actuar e a representação da ICP está a gizar um encontro entre empresários portugueses e huilanos, em Fevereiro
ou Março do próximo ano.

Foram fiéis no retrato da província aos visitantes?
Nas conversas “be tu be” que tivemos, descrevemos o quadro real da nossa economia, taxa de inflação versus câmbio, a condição do repatriamento de capitais dos dividendos em caso de parcerias ou investimentos por conta própria no país e, agradou-nos saber que alguns já tinham conhecimento do nosso actual quadro económico. Foi salutar saber que, apesar da crise profunda, ainda há quem está interessado em estender os seus negócios no nosso país.

O empresariado local sai mais forte com o “Invest-Huíla”?
Os contactos permanentes que já temos tido motivaram a AAPCIL e o governo provincial a fazer um levantamento das terras aráveis para projectos empresariais. Estamos tranquilos porque as autoridades da Huíla têm já o trabalho de casa bem feito. Devemos ter em atenção que a agro-pecuária deve ser a grande aposta pela sua capacidade de empregabilidade de pessoas de vários níveis, depois da construção civil. Temos também na mira a exploração do ouro, ferro, granito e diamantes que a concretizar-se dará um novo fôlego à nossa economia.

O interesse dos estrangeiros pode catapultar os perímetros irrigados?
Consideramos ser um auxílio bem vindo porque precisamos de criar as condições necessárias para conter a água dos rios e das chuvas com a reestruturação das antigas paragens de retenção e construção de novas para evitar o
elevado desperdício da água.

Considera o actual momento delicado?
Sim, não compreendemos como é que o Banco Nacional continua a ir atrás do mercado paralelo, o que nos parece ser o verdadeiro mercado. A nossa economia já está asfixiada demais, levando a descapitalização total dos empresários. Achamos ser o momento de pararmos de modo a tomarmos medidas eficazes para inverter a situação. Não há economia que aguente face a desvalorização constante do dinheiro por dinheiro. Urge trabalharmos nos factores produtivos para a conquista da valorização. Logo, o Invest Huíla aponta para este caminho.

Fale-nos sobre os seguros agrícolas
Neste momento, nenhuma seguradora do país actua de facto no sector agro-pecuário. Temos de começar a criar já condições para assegurar as acções dos produtores agro-pecuários, onde o Estado deve estar evolvido, sobretudo nas eventuais grandes calamidades.

Os acessos do campo para as cidades ainda inspiram cuidados?
É uma preocupação antiga. Aproveito por isso a encorajar o Caminho-de-Ferro de Moçâmedes, projectar linhas que passem pelos centros de produção de referência. As estradas secundárias e terciárias devem ser requalificadas para a facilitar o escoamento. Com agrado chegou-nos o plano de reabilitação do Instituto Agrário do Tchivinguiro com financiamento do governo francês. A histórica escola sempre formou técnicos agrários e pecuários que auxiliaram os produtores tradicionais e industriais, sendo que neste momento é crucial a existência de mais quadros para evitar empirismo na lavoura ou criação de animais.

Faz falta um laboratório específico?
A insistência de um laboratório para apoio aos produtores até ao momento inquieta a todos por não permite as análises de solos de modo a determinar com exactidão a qualidade real da fertilidade dos solos, orientar no tipo de fertilizantes a utilizar e métodos de cultivo. Estamos a mandar para o exterior as colectas de solos em laboratórios de
fora para os devidos estudos.

O diálogo com o Executivo é salutar?
Estamos já a conversar mais e precisamos de fazê-lo cada vez mais e discutir melhor as acções.

Também é apologista da saída do Estado na economia?
É uma verdade que quando a mão excessiva do Estado na economia retrai o investimento privado. Mas também o Estado tem que direccionar exactamente o quê, aonde e como quer fazer e há muitos programas de investimento de monta que tem mesmo de ter apoio do Estado para começar e depois de estarem consolidados, deixa-se que os empresários o façam. Neste momento, não estou a ver um empresário angolano com capacidade de criar uma rede logística. É falso pensar que só os empresários conseguem fazer.

Qual é a provável saída da crise?
Urge que o Estado apareça, não para oferecer dinheiro, mas para criar mecanismos de facilitação junto da banca de forma que o empresariado angolano tenha possibilidade de ir buscar dinheiro a juros baixos. Não pode ser com o tipo de exigência que está a fazer agora. Corremos o risco de quando a situação se recuperar, só termos empresários estrangeiros e não nacionais porque estes estarão muito mais descapitalizados.

Qual é o actual “feed back” entre empresários locais e estrangeiros após o fórum?
Os contactos continuam. Há uma empresa namibiana que ficou após o “Invest-Huíla”ter melhores contactos para actuar no sector do turismo. Estão a conhecer melhores para depois apresentarem uma proposta concreta. Eles querem montar uma rota turística a partir da África do Sul, Namíbia, Zâmbia e Angola. Uma outra empresa que fabrica rações na Namíbia prevê começar a produzir em Angola.

Qual é vantagem do rand como moeda de pagamento na SADC?
De imediato não vejo nenhuma nesta fase por tratar-se também de uma divisa, que exige do Banco Nacional capacidade de liquidez da moeda para fazer face as despesas. Quando a nosso kwanza ganhar estabilidade, aí sim, e também deverá entrar como moeda de pagamentos.

Para quando o próximo “Invest-Huíla”?
Estamos a criar condições para o próximo evento aconteça em 2021 porque, apesar de tudo, há outros ganhos, entre os quais a ocupação de vários hotéis e uso de vários serviços auxiliares. Estamos empenhados a atrair a cada actividade e a catapultar para melhores parcerias, considerando que daqui há três anos, a situação económica do país melhore.