Uma viagem que se vê tudo, menos o destino. O autocarro numa marcha que se parece mais parado do que em movimento. Diz o motorista, “pelo tipo de carro, já está a andar muito bem”. Um verdadeiro “camaleão de ferro”, transportando gente que paga para ser respeitada e confortada. A associar (pela negativa), está a estrada. Ainda em “recuperação”. Quando termina? Avançam-se muitas datas. Mas hoje se acredita que o “conforto” está a chegar. Por força do dia do Herói Nacional, acabamos por ter um “feriadão”. Cada um aproveitou da forma mais significativa possível. Para alguns, melhor foi sair da cidade onde vive e visitar familiares e por várias razões. Uma destas, foi o FestiSumbe. Outra, as praias da Restinga, Lobito. Com o preço elevado dos aviões mesmo na carreira doméstica, as operadoras de transportes rodoviários tiveram casa cheia. Foi uma procura dos serviços só comparada ao verificado na quadra festiva. Se as passagens de avião estão acima dos 30 mil, por exemplo, para quem sai de Luanda a Benguela, Huambo, Namibe e Lubango, por terra pode pagar menos de 16 mil. E num momento de crise financeira, em que o dinheiro foge cada vez mais das mãos das pessoas, a questão contenção vem ao de cima. Quem procura pela Macon, ou mesmo por outro seviço do género para o Lubango, leva quase 24 horas para chegar ao destino. Obviamente, cansado. Não só pelo estado das estradas nacionais (em reabilitação) mas, nalguns casos, porque estas viaturas de mais de 40 lugares (algumas), não oferecem conforto para viagens de “longo curso”. É notório ver pessoas que quase se arrependem da opção, mas repetem-na , se for o caso, pois as limitações de ordem financeira acabam por ser as condicionantes. Como disse um dos passageiros, extenuado, a cada localidade transporta, de Luanda, passando por Catengue, Quilengues e Cacula, isto a caminho do Lubango, é como conseguir chegar ao topo da Muralha da China. Por causa do estado da estrada, observam-se carros em marcha lenta, gente sonolenta, mulheres ávidas em chegar ao destino para a obrigação higiénica matinal adiada devido ao longo percurso. A cada paragem do autocarro, uma conversa com os motoristas e “fiscais” nos postos de paragem obrigatória. “Nós temos colocado a preocupação à direcção mas nada fazem. Ainda acabamos por ser mal vistos”, desabafou o motorista, refugiando-se no anónimato por razões óbvias. Lá está: que tipo de fiscalização fazem? Quase passam indiferentes aos passageiros dos bancos detrás, algumas com crianças e “acomodados” em assentos que também reclamam por “acomodação”, a precisar de manutenção. O sol abrasava cada vez mais. Mais tarde, veio a noite e o dia outra vez. As viagens são longas. O comércio é feito na estrada nº 100 e 105 por crianças de idade escolar. Muitas descalças. A queimarem os pés. A correr a cada veículo que parasse. O dinheiro da sobrevivência supera qualquer dificuldade quando a necessidade fala mais alto. Só não sobrevive a necessidade de pegar no caderno e seguir a procura do futuro. Cantou Teta Lando: “Angolano segue em frente/teu caminho é só um”. Por enquanto, neste “feriadão”, as soluções estiveram mais nas estradas, onde se percebe que há que correr rapidamente para não comprometer o desenvolvimento. Há muitos produtos à beira da estrada mas poucos compradores. A tal questão da circulação de bens entre o campo e a cidade. Precisa-se de estradas boas para facilitar o escoamento e justificar o esforço do campo. Noves fora estas e outras vicissitudes ao longo das nossas estradas, vale a pena a aventura pelas “nacionais”. Paisagisticamente, estamos bem servidos. Dá para parar e tirar fotos dos telemóveis. Fazer amizade e sentir o quanto todos amam a nossa terra. Cada um diz o que sente enquanto o destino não aparece pela frente. Como também aparece a venda nos “mercados de ocasião”, localizados a cada paragem. Pode-se beber quissângua, comer churrasco de galinha abatida, mandioca cozida e até tomar um copo de leite azedo. É o momento de trazermos o campo para a cidade. Lá há produção. Se suficiente para alimentar as cidades, não sabemos, mas que há isto há. Pelo menos têm sido estas as conclusões da parte de quem tem a estrada como recurso em momentos como este do “feriadão”, e não só. Como escreveu o Poeta Maior, “juntos vamos cavar a terra e fazê-la produzir Esta é a hora de juntos marchamos corajosamente para o mundo de todos os homens”. Mais um “feriadão” que fez descansar o país que caminha imparável para a diversificação económica e servir também o turismo.