O conflito comercial que opõe as duas maiores economias mundiais é um processo prejudica as exportações em quase todo o mundo, que já verifica uma dinâmica negativa como efeito da contracção económica internacional despoletada nos finais de 2014. Actualmente, a maioria dos ramos fulcrais da economia chinesa está com uma capacidade ociosa, isto é, uma situação de superprodução. Por isso, até agora, o governo chinês se nega a romper a paridade cambial fixa.
Já os EUA acha ser uma questão importante da sua política externa, que a pressão sobre a China deve provocar o rompimento do sistema de paridade fixa entre o dólar e o yuan, ferreamente controlado pelo governo chinês, e passe a um sistema de cotação flutuante do yuan, sujeito à flutuação do mercado.
Estas e outras questões nos levaram a ouvir Frederico Baptista, especialista em Relações Internacionais sobre as possíveis consequências para a Europa, África e Angola em particular.

O que é exactamente uma Guerra Comercial e se ela é um recurso legítimo dos Estados Unidos da América ou outro país que se sinta ameaçado?
Uma guerra comercial não é nada senão um conjunto de medidas de política comercial que um Estado adopta para aumentar as suas exportações e diminuir as importações, acções essas que podem por em cheque os interesses de um ou um grupo de países, caso as medidas proteccionistas sejam a esses direccionadas.

E, nesta perspectiva, o que aconselha a Organização Mundial do Comércio para esses casos?
Segundo a OMC, os seus Estados membros devem nas suas relações comerciais absterem-se destas medidas proteccionistas para não prejudicar o crescimento económico mundial, pois se um Estado aumenta as tarifas aduaneiras dos produtos oriundos dos seus paceiros comerciais, estes, no quadro do princípio da reciprocidade, tomam medidas análogas perigando a economia mundial, considerando que cada Estado hoje está integrado num bloco, e medidas como essas, se não forem ponderadas, podem levar ao reforço destas medidas proteccionistas.
Todavia, no quadro dos princípios da OMC, a base estável para o comércio são as tarifas, ou seja, as medidas aduaneiras podem ser usadas como forma de protecção do mercado interno, principalmente para os Estados em vias de desenvolvimento. Considerando a necessidade de protegerem o seu mercado nascente, perante a concorrência de produtos mais competitivos, este torna-se, um mecanismo legal, mas neste caso em particular, os dois Estados usam estas medidas como forma de anular ganhos económicos de um outro Estado, configurando uma verdadeira guerra.

Quem acha que ganha esta guerra que tem efeitos multiplicadores para quase todas as economias?
Em princípio, os dois Estados podem perder, já que a China tem nos EUA um dos seus maiores importadores e os EUA também perdem por não poder ter acesso ao mercado chinês como maior competitividade em razão da alteração das tarifas de alguns dos seus produtos.
Sabemos que Donald Trump impôs uma taxa de 25 por cento dos quase 600 mil miliões de dólares que a China vende aos EUA, o que foi uma medida dura para um parceiro como China, que não tem culpa neste desequilíbrio da balança comercial.

Acha que a Europa está refém dos Estados Unidos da América nesta guerra?
A Europa está sim refém das duas economias, mas a Áfica não fica de parte embora estejam mais dependentes da economia norte-americana. A UE poderá se sentir prejudicada caso as taxas sobre os produtos ainda não definidas, se multipliquem, e desta forma, vai prejudicar ainda mais o crescimento económico europeu. A Alemanha, a maior economia europeia, já vem ressentindo a baixa das exportações para os EUA. Os países africanos continuam sem um crescimento efectivo.
O perigo global se ampliaria caso Donald Trump siga com a ameaça, feita no último dia 22 de Junho, de impor tarifas aduaneiras de 20 por cento a veículos importados pelos da União Europeia. Foi uma resposta a algumas tarifas adicionais aplicadas recentemente pelos europeus que, por sua vez, já eram uma resposta às novas tarifas americanas de 25 por cento sobre o aço e de 10 por cento sobre o alumínio.O bloco europeu é bastante aberto e dependente do comércio internacional, apesar de no caso dos veículos seus países terem hoje tarifas de importação maiores (10%) do que do lado americano (2,5%).

Estados Unidos
preparam mais
sanções

A Reserva Federal provavelmente venha a elevar os juros outra vez, o que resultará numa redução do investimento e do crescimento mundial, com mais desemprego também para os Estados Unidos.
Os EUA podem ter razão e algumas questões como o facto de a China roubar tecnologia, ou seja, empresas chinesas controladas pelo Governo compram sistematicamente fatias de empresas norte-americanas para terem acesso aos métodos de produção e depois os reproduzem localmente. Por esta razão, o Departamento de Comércio também acusa o governo chinês de dificultar a entrada das empresas americanas no país, impondo regras mais rígidas, o que pode levar ao surgimento de mais sanções num futuro próximo.

Angola é mais
uma economia
emergente que
pode sofrer

O ponto negativo destas tensões para Angola reside no facto de serem duas economias em que Angola está fortemente ligada, podem desacelerar não só o crescimento global, mas também fazer com que entre menos capital destes países no mercado angolano.
Por outro lado, o que poderia prejudicar os mercados emergentes, tanto em termos de exportações, quanto em relação ao crescimento do investimento estrangeiro, liga Angola a essa placa internacional de negócios e os mercados.
O facto de a China manter o primeiro lugar entre os destinos das exportações angolanas e na origem das importações, quer em de 2016, quer em 2017, e Portugal ter também aumentado as compras que faz a Angola em 17,1 por cento e sendo esta uma economia da União Europera, em termos homólogos, é um agravante para a realidade económica angolana.
A China aumentou em mais de 12 por cento as compras a Angola, em termos homólogos, atingindo uma quota de 49,6 por cento do total das vendas angolanas ao exterior e os Estados Unidos da América passaram a ser o terceiro fornecedor de Angola, com uma quota de 9,4 por cento, seguidos do Brasil, com 5% do total das compras angolanas ao exterior, é um factor de grande risco futuro.