Miguel Silva, conhecido por Lito Silva, sempre teve os seus estudos ligados às ciências económicas, tendo feito o curso médio de Administração e Gestão. Por motivos militares fez uma paragem “sabática” no capítulo académico e, posteriormente, viria a concluir os estudos superiores em Gestão de Empresas pela Universidade Lusíada de Angola. Foi cartonista do Jornal de Angola. É escritor, artista (Artes plásticas), professor universitário (Gestão), consultor de empresas (na área de gestão) e designer e publicitário.
Aos 25 anos assumiu a Administração da Agência de comunicação angolana Imagem ViP, uma das primeiras agências de comunicação publicitária de Angola.

“Não podemos esperar que haja mudança, se continuarmos a trilhar os mesmos caminhos, Presidente da República”. Na sua opinião, e num enquadramento económico virado ao crescimento, estes avanços começaram a ser dados? Como?
Eu penso que mais do que disparar frases pomposas e de impacto altamente populista, o importante será consolidá-las com actos consistentes o que significa que fazer exonerações cirúrgicas é um primeiro passo, mas não adianta fazer a substituição do gestor se a política de gestão se mantiver. Por outro lado, julgo que é mesmo muito difícil encetar o caminho da mudança se antes não se fizer um diagnóstico realístico do que é que correu mal no passado. E com todo o conhecimento que tenho sobre economia e gestão, julgo que é tempo de uma vez por todas deixarmo-nos do “jargão” imoral que a nossa economia entrou em rota de colapso “devido à baixa do preço do petróleo no mercado internacional, uma vez que isso não é nem de longe verdade.

O PR, no seu discurso de ano novo, diz que é notória a nova imagem do país perante os homens de negócios. Acha que este ano (2018), o ambiente de negócios possa trazer grandes investimentos à economia?
A única coisa que é notória é a intenção de mudança. O nosso país ainda ostenta a imagem de um dos mais corruptos do mundo e também é um dos ambientes empresariais mais hostís ao investimento. Ao longo de décadas foi essa a mensagem que transmitimos aos quatro quadrantes do globo. Por isso, será mera ingenuidade pretendermos que essa imagem caia face a uma declaração de intenção. O Ambiente de negócios será atractivo quando a realidade for inequivocamente diferente. E não nos enganemos, há efectivamente a manifesta intenção de alguns países participarem no processo de redimensionamento do nosso mercado. Porém, caso não nos organizemos antes a nível interno, mais uma vez essa realização de negócios terá apenas benefícios para o investidor estrangeiro e o negociante angolano. Por outras palavras ao criar uma linha de crédito, um dado país estimula a sua economia criando um fluxo de actuação para as suas empresas, uma vez que daí resultam, por sua vez, fluxos de pagamentos. Por seu lado, o país beneficiário da linha de crédito, beneficia do desenvolvimento gerado no seu meio ambiente, tende a cumprir os seus objectivos no capítulo do pleno emprego, o que aumenta o nível do bem-estar social.
Contudo e para isso, deve criar algumas medidas restritivas, caso contrário, o operador da linha de crédito move-se com a sua própria força de trabalho, resolvendo um problema de desemprego no seu país, criando esse problema no país beneficiário da linha de crédito, isso sem mencionar a sangria de valor – se o emprego for gerado na economia beneficiária da linha de crédito, esta é estimulada pela capacidade de compra da população empregada. Se for gerado na economia exportadora ela exporta também o seu desemprego, passando-o para a economia beneficiária da linha de crédito. No final, essa tende a entrar em estagnação pela perda de poder de compra da população desempregada. Esse fenómeno é o mais comum aqui no nosso cenário económico, onde até pedreiro, ou babá de bebé é importada. Há quem pense que isso é um problema de moralização da sociedade, mas é um assunto de gestão do meio ambiente operacional das empresas, ou seja é um assunto de administração do estado.

Fala-se da necessidade da mudança de opinião sobre as boas intenções do Executivo, o lançamento e existência de um satélite angolano, reforça esta tendência opinativa ou mesmo assim é crítico em relação a acções levadas a cabo e rotuladas como sendo um “ganho nacional”?
Qual ganho nacional? Você realmente acredita que haja qualquer ganho nacional com o lançamento desse satélite? Eu tenho muita dificuldade em classificar fenómenos que me são apresentados já com rótulos de adjectivos, na medida em que acredito que tenho discernimento para decidir por mim.
E esse projecto, mesmo sendo apresentado com todos os louvores, a única coisa que a mensagem nos transmite é a falta de sustentabilidade e de pertinência. E vou dedicar um pouco de tempo a fundamentar o que digo, para não me equiparar aos “cérebros iluminados” mentores da ideia; falemos antes de um satélite na sua essência:
Um satélite é um corpo que gravita na órbita de um corpo astral maior (pode ser natural ou artificial) e sofre o efeito contante de duas forças; a força centrípeta que no seu caso é a gravitacional que o puxa para baixo e a força centrífuga que é a da propulsão aquando do lançamento. No equilíbrio de ambas forças ele assume uma posição geoestacionária, voando fixo em relação a uma certa região da terra, mas no espaço move-se em torno da terra à mesma velocidade desta – enfim esse é o grosso modo da explicação, sem muitos mais detalhes. O importante dessa explicação é que a cada volta que o satélite dá, a sua órbita geoestacionária se degrada.
E segundo os cálculos efectuados, o AngoSat 1, após 15 anos, terá a sua órbita tão degradada que fará a reentrada na terra, se destruindo no processo. O positivo é que durante esses 15 anos, funcionará (também a grosso modo) como uma antena de alta fidelidade, podendo essas potencialidades serem usadas e/ou “vendidas”.

Mas há como alargar o prazo de 15 anos?
O negativo é que não há como alargar o prazo de uso dos tais 15 anos. Quando compramos um carro e nos dão garantia de 4 anos, podemos ainda andar com ele muito mais tempo desde que a manutenção esteja em dia, para o caso dos satélites, esquece; ele tem mesmo que cair e é melhor que esse processo seja controladamente e de acordo com os cálculos para termos a certeza que isso acontecerá em área desabitada (normalmente é no mar). Nesses casos, impõe-se o lançamento de um novo satélite, para defesa dos investimentos estruturais feitos inicialmente bem como os que ocorrerão ao longo dos anos do serviço e vida do satélite.
Até agora têm nos falado dos custos de produção do satélite e da despesa que o país tem suportado até à presente data em telecomunicações. Mas, se avaliarmos bem, esses dados em si são insuficientes para nós termos uma ideia do ganho marginal real desse investimento. O satélite para funcionar, terá uma despesa operacional e esse valor tem que estar aqui para se somar ao valor do investimento, mesmo porque ao tornar-se um custo fixo esse valor é extremamente importante. Por fim, para que então eu possa ter uma primeira ideia do ganho marginal, preciso que me seja apresentada a receita previsional.
E como estamos a falar de um investimento público, por fim falta apresentarem-nos o custo de oportunidade que é tão-somente a justificativa (com sustentação algébrica se possível), explicando por que razão essa despesa se sobrepôs em termos de urgência a outras, igualmente importantes para o país, no ramo da saúde, da educação, da indústria, etc.
Depois de me apresentarem isso, teremos obtido de certeza um ganho nacional e potencialmente poderemos ganhar outro. Sendo que o ganho nacional seria a demostração (finalmente) de respeito à inteligência dos cidadãos. O ganho potencial, seria, caso pudessem explicar coerentemente a pertinência do investimento, a demostração real do ganho marginal do lançamento de tal artefacto ao espaço. Isso passa seguramente por explicar detalhadamente como é que cada um dos cidadãos desse país vai beneficiar desse investimento (explicando como vai funcionar o sistema, quem o vai operar, como, etc.). Caso contrário, apenas nos restará concluir que para o espaço, com o satélite, foram lançados milhões de dólares com grandes pedaços da nossa dignidade enquanto cidadãos.

Colocou-se, há 3 meses, um programa de governação que se presume esteja a gerar resultados. Em que campo, de natureza de desenvolvimento económico, vê resultados? Indique-os e que sugestão mais avançaria?
Eu prefiro analisar a situação actual do país como um problema de gestão. É claro que a situação é de fórum político, mas as ferramentas de superação serão seguramente de gestão e nesse âmbito, três meses são insuficientes para se balancear o que quer que seja. Portanto tudo o que temos visto até ao momento são acções de enquadramento de membros da equipa tidos como elegíveis para o processo de mudança. O que quer dizer que o melhor que temos a fazer neste momento é mantermo-nos expectantes e dar a maior força, porque na realidade, todos os angolanos o que querem mesmo, dadas as circunstâncias, é que seja lá qual for a equipa, o seu desempenho seja de êxito.

“Todos os Obstáculos são superáveis”, disse o PR. A questão ligada ao repatriamento de capitais é viável? A acontecer, remove-se um obstáculo?
Eu penso que a questão ligada ao repatriamento de capitais é um aspecto um pouco mais complexo do que parece à primeira vista. Ou seja, perante o princípio de que toda a gente é inocente até prova em contrário, os ditos capitais no estrangeiro, antes de serem reivindicados eles teriam que ser alvo de contestação judicial e prova de ilicitude na sua acumulação, depois o país teria que provar que fora a entidade “roubada” e só aí poderia iniciar o processo de recuperação de valores. Por isso, o melhor será pormos na nossa mente que essa é mais uma batalha de longa duração e onde nem sequer a vitória é garantida, dada a filosofia de “paninhos quentes” que foi adoptada em relação aos prevaricadores do passado. O que eu estou a querer dizer é que a gestão danosa, tal como a corrupção são crimes perfeitamente tipificados na nossa legislação. Mas, se por um lado, a corrupção é difícil de ser provada, a gestão danosa é das coisas mais fáceis de se apurar uma vez que a principal ferramenta são os preceitos de auditoria. Podemos ver que, convenientemente, o discurso do governo vai direitinho para o caminho mais difícil, sem sequer mencionar o fácil…

Este dinheiro repatriado dá, efectivamente, uma lufada de ar fresco à economia?
É possível que valores que eventualmente sejam recuperados dêem algum contributo à economia, mas essa questão antecipa-se de tal forma aos aspectos fundamentais da questão que não há como respondê-la sem entrarmos em especulações.

A forma como os bancos actuam perante os seus clientes, que até encontram dificuldade no acesso do que é seu, é um obstáculo? Transponível ou não”?
Em minha opinião, o sector bancário é outro dos indicadores de quão desestruturada é a nossa economia. Você não acha um pouco estranho que uma economia “doente” como a nossa seja tão atractiva de forma que os bancos surgem como lanchonetes? Não acha que gigantes continentais do sector bancário como o Standard Bank, em Angola sejam banquinhos? Mas o que é mais enigmático, como é que sendo tão atractiva para o investimento bancário, a nossa economia não atraia os verdadeiros tubarões mundiais do sector? Vou ser ainda mais incisivo nas interrogações, como é que negligenciando o risco do crédito ao sector empresarial e mesmo ao retalho, os bancos em Angola tenham neste mercado bons indicadores? Ainda não viste o cerne da questão, não é? Okay aí vai mais uma questão; como é que no pico da crise, na sua generalidade, os bancos incrementaram as suas margens de lucros? Num cenário em que todo mundo, até o estado, está desesperado por solvabilidade ou tão somente liquidez, os bancos, tal qual entidades supraeconómicas, transpiram vitalidade. Será milagre? Eu julgo que é tão somente porque estão instalados na gestão das contas do estado e por cá a batalha entre bancos não se dá na disputa da quota do mercado, mas sim na disputa da participação do negócio com o estado. Por isso, as posições accionistas dos bancos surgem impregnadas de PEP ’s e por isso os grandes tubarões da banca mantêm uma prudente distância deste mercado com jogadores-árbitros. Voltando ao cerne da questão, a forma dos bancos actuarem efectivamente é transponível, mas resulta de mais uma intenção de quem governa de passar do discurso para as acções concretas.

Que postura deve ter o sistema bancário para melhor servir o mercado?
Tal como o mencionei na resposta, os desequilíbrios do sector bancário são apenas uma manifestação dos diversos desequilíbrios macroeconómicos que o nosso país possui e importa frisar que o sector bancário é um dos que apresenta menores distorções, embora ainda assim não estando imune aos desajustes.

A crise terá criado desajustes sob o ponto de vista de realizações em prol da sociedade, também terá criado algumas vantagens, sobretudo no despertar das consciências. Está ligado à gestão, passamos a gerir melhor as nossas poupanças?
Lá está de novo a tal análise que a todos engana e não nos leva a lado nenhum. Não foi a crise que criou os desajustes, os desajustes é que criaram a crise. Nós decidimos abraçar a economia de mercado. Por qualquer razão se optou pelo modelo Keynesiano de supervisão da economia, ou seja, economia livre com o Estado a intervir pontualmente para realizar ajustes e correcções sempre que tal se afigurasse necessário. Em seguida, permitimos a neutralização dos mecanismos de controlo, ou seja; foram esvaziados os mecanismos de controlo da sociedade sobre o desempenho da gestão do Estado, tudo isso agravado pelo facto de que se tornou tabu falar sobre o assunto.

Daí resultou o colapso, no seu entender?
Desse processo decorreram vários factos e ocorrências que levaram ao actual colapso iminente da nossa economia e não tenham dúvidas se não se adoptassem as medidas que foram adoptadas – que em minha opinião já foram todas elas de contigência, o estágio seguinte seria a bancarrota total – quando se tenta atribuir a crise actual ao preço do petróleo está-se a tentar criar uma cortina sobre um facto bem real que é: a gestão da nossa economia sempre foi ruinosa. A diferença deveu-se ao facto de que antes se fazia a gestão de superavits provenientes da venda de um produto altamente valorizado no mercado internacional. Quando esse produto sofreu uma depreciação significativa no mercado internacional, os déficits subsequentes puseram a descoberto toda a ineficiência de gestão, dando a impressão que o país foi tomado a saque na véspera da descoberta da nossa ruina, quando na realidade tal nada mais era do que o resultado de décadas de má gestão. Os propalados “gatunos” e “corruptos” na realidade são actores oportunistas e beneficiários do facto de o “cofre” estar escancarado e sem controlo.

Parece exagerada a sua visão?
Parece exagero, mas raciocina comigo.No nosso cenário da gestão do país, temos o ministério da economia, das finanças, do planeamento e supletivamente a presidência. Um teste de sensibilidade, demostra-nos a variação nos restantes indicadores económicos, dada uma variação no preço de um produto ou matéria prima. Ora no nosso caso, sendo que o OGE é elaborado com o pressuposto do preço do petróleo numa determinada cotação, quando os nossos experts vêm a terreiro e despudoradamente afirmam que a crise económica se deve ao valor do petróleo no mercado internacional, estão a pretender que acreditemos que o produto ao se desvalorizar (e isso foi gradualmente), quando o valor se aproximou do limiar do indicador que certamente foi determinado como de alarme, ninguém fez nada? Ou estão a dizer que tal exercício não foi feito? Ou foi feito, mas quem foi avisado preferiu não fazer nada? Ou quando deram conta já era tarde? Não importa qual será a resposta, o que fica às claras é que gente paga principescamente pelos contribuintes angolanos, aparentemente não fez o trabalho para o qual era paga.

No seu ver, há ainda muita impunidade? Quais podem ser as saídas?
A meu ver, só há impunidade. Ou vão querer fazer-me crer que a meia dúzia de infelizes que foram indiciados são os grandes maus gestores que afundaram a economia do país? De qualquer modo, a solução do problema não está em punir quem quer que seja, mas sim em diagnosticar onde está o problema. Na minha opinião, está na falta de controlo do desempenho do governo. Julgo que constitucionalmente, dever-se-ia devolver ao parlamento o papel de fiscalizar o desempenho do Executivo. Os tribunais e o Ministério Público deveriam recuperar a sua independência e a presidência da República deveria ter poderes mais restritivos. Em suma, deveríamos eliminar definitivamente a situação em que um único indivíduo tenha o potencial de tornar-se mais forte do que toda a nação.

Bate-se muito na questão ligada ao combate à impunidade, o poder judicial está realisticamente preparado para responsabilizar e actuar em conformidade para quem infringe ou infringiu?
A ferramenta primeira do exercício do poder, a garantia dos deveres e dos direitos em qualquer país é ou deve ser a constituição, portanto esse diploma não deve ser manipulado levianamente para assentar como uma camisa a qualquer interesse particular. Respondendo a sua pergunta, os nossos poderes sempre estiveram preparados para assumirem as suas funções mas, na realidade, também sempre foram inibidos por poderes “supraconstitucionais”, ou seja, as chamadas “ordens superiores”…

Que visão tem sobre o OGE de 2018? Acha-o mais adequado à realidade ou ainda susceptível de promover a desigualdade e assimetrias regionais?
De um modo realístico, essas assimetrias ainda vão se verificar durante algum tempo, uma vez que toda a mudança radical, em termos de gestão ou é fruto de um golpe de génio, ou resultam em catástrofes superiores aos problemas que se pretende corrigir. Nisso tudo, há apenas uma coisa que me deixa algo intrigado, num momento em que estamos a procurar dinheiro até debaixo das pedras, esse OGE, considera os valores do Fundo Soberano? Será que as contas desse fundo já foram apresentadas? Enfim, vamos continuar a falar da nossa economia sem fornecermos detalhes sobre esse fundo?

Diversificar a economia. Começamos bem ou andamos na direcção errada…
Já estamos é atrasados. Nós devíamos ter aproveitado os tempos áureos do petróleo, para com os seus superavits consolidar investimentos produtivos no sector não petrolífero.