Esta semana, a China completou 70 anos do triunfo dos comunistas. O país está radicalmente diferente: é uma potência mundial de primeira grandeza e aspira chegar ao topo da economia global. O seu “milagre económico”, único na história, foi iniciado pelo ex-líder comunista, Deng Xiaoping e continuado pelo actual presidente Xi Jinping, tendo implementado uma série de reformas económicas, centradas na agricultura, num ambiente liberal para o sector privado, na modernização da indústria e na abertura da China para o comércio exterior. A propósito, o Jornal de Economia & Finanças conversou com a investigadora Raquel Vaz Pinto sobre o posicionamento chinês no mundo.

O sonho chinês contribuiu para o renascimento da Nação chinesa e deu esperanças a países parceiros?
A resposta a esta pergunta depende dos países e em particular das suas elites.
O “sonho chinês” do Presidente Xi Jinping, sem dúvida, tem contribuído para o reforço interno da sua autoridade. No entanto, a nível externo é notória a dificuldade de fazer com que os projectos chineses beneficiem os seus parceiros de forma sustentável. A título de exemplo, podemos destacar o Sri Lanka no continente asiático ou a desindustrialização do Brasil.

Já é muito consistente a política externa chinesa?
A política externa chinesa encontra-se a um nível cada vez mais sofisticado no que toca à compreensão das várias regiões e das suas especificidades e mesmo em relação aos vários países que compõem uma determinada região. Por exemplo, na Europa há a capacidade de compreender as expectativas diferentes de países como a Alemanha ou a República Checa.
Em paralelo, também é de realçar a crescente habilitação dos diplomatas e políticos chineses com estudos em universidades dos EUA de excelência. Todas estas componentes enriquecem os recursos de um país e em particular a qualidade da sua diplomacia. Não tem sido um caminho linear, mas sem dúvida que 40 anos depois de Deng Xiaoping ter aberto a economia da China ao mundo, há uma política externa mais sustentada.

Nessa fase, acredita que o reforço da cooperação com a Ásia, Europa e África será mais notória e mais consentânea?
Tendo em conta a alguns acontecimentos recentes, penso que não como um todo. A África tem sido o continente mais favorável ao investimento chinês. Há talvez maior aposta chinesa neste continente e cada vez maior resistência vinda da Europa e da Ásia.
A Europa e, sobretudo, a União Europeia (UE) depois de uma onda de grandes compras chinesas no sector tecnológico acabaram por “acordar” em relação a dois pontos muito relevantes na relação com a China: a reciprocidade de acesso a mercados (empresas europeus poderem aceder a sectores da economia chinesa tal como as empresas chinesas têm acesso aos sectores europeus) e também a questão dos subsídios estatais (directos ou indirectos) que desvirtuam as regras de concorrência. Do lado chinês, foram intensificados os esforços “regionais” como a Iniciativa 16+1 (Estados da Europa central e oriental) e as relações bilaterais. Todos estes esforços diplomáticos e comerciais têm levado a algumas críticas da UE face à China: a ideia que a China tenta “minar” a multilateral UE através da aposta em relações bilaterais e em particular com alguns Estados-membros como a Hungria.

Como encara a relação entre a China e África?
É uma relação crucial para ambos e que se irá fortalecer. É do ponto de vista internacional o continente onde a China faz a diferença. Em paralelo, há talvez uma maior necessidade de reconhecer que o continente africano, tal como todos os outros, é heterogéneo e cada país tem o seu próprio contexto. Esse parece-me ser o principal desafio. Há também uma dimensão importante que está relacionada com a aposta na sociedade civil e na iniciativa privada nos vários países africanos que permita reduzir a assimetria que, neste momento, caracteriza a relação entre a China e África.

Há uma maior necessidade de se fortalecer as infra-estruturas no continente africano...
É inteiramente verdade. Não só as infra-estruturas como também maior conectividade das suas populações e empresas. Em paralelo, há também margem de manobra por parte dos países africanos em relação a outros investidores. A estratégia diz-nos como regra que “nunca é bom pôr os ovos todos no mesmo cesto”.

A concretizar o desejo de o presidente Xi Jinping sobre a Iniciativa da Faixa ou Cinturão lançada em 2013, o seu programa económico vincará ainda mais?
Este mega-projecto visa relançar a China enquanto protagonista da sociedade internacional excluindo de forma explicita os EUA e com uma Rússia a meia-haste. No que toca à cooperação entre a China e o seu continente, vejo muitas dificuldades de concretização. Há várias dimensões problemáticas. Desde logo, a insegurança e os conflitos latentes ou em curso em alguns territórios por onde passa a Nova Rota da Seda. E há também resistência de outros países como a Índia que se sente “cercada” pelas iniciativas chinesas. A relação entre a China e a Índia é muito complexa e de uma enorme rivalidade. Basta pensarmos por exemplo na amizade da China com o Paquistão e a questão territorial de Cachemira. É esta rivalidade entre os dois países mais populosos do mundo a grande razão que explica a relação de maior proximidade entre a Índia e o Japão.
No fundo, o sucesso desta iniciativa que tem um cariz estratégico também depende de como os “outros” se irão posicionar. Não só os EUA, a Índia, mas também a Rússia, a Alemanha, a Turquia, entre outros.

Novos Actores podem dominar mercado do médio oriente

Promover a construção da Faixa e Rota é apenas a necessidade da China se expandir ou de aprofundar a sua abertura ao exterior?
Diria que são as duas. Em certas áreas como por exemplo a Ásia Central prevalece claramente a primeira. A prevalência da segunda depende da força do parceiro ou do sector envolvido. Quanto mais forte melhor será a capacidade de entrar na economia chinesa.

Os produtos chineses estarão mais liberais devido à provável abertura da rota comercial?
Vai depender sempre dos sectores ou dos produtos em questão. Diria que não se esses não forem de relevância estratégica, ou seja, se forem considerados importantes para a reafirmação da República Popular da China nas relações internacionais. Em outros sectores talvez haja maior abertura, mas mesmo assim vejo com dificuldade essa associação.

Os Estados Unidos de América vêem com serenidade essa abertura do comércio da China ao mundo?
Penso que já não. Essa fase já passou. Hoje, os EUA olham para a China como competidores, rivais e mesmo como uma “potência revisionista”. A ideia de que a abertura da economia tornaria o próprio regime “mais aberto” tem vindo a ser desafiada ano após ano pela liderança chinesa.

Havia já uma estratégia inteligente fruto da participação dos chineses em projectos emblemáticos, como o Caminho de Ferro na Tânzania e a ligação da Zâmbia ao porto de Dar-es-Salam?
Sem dúvida. E esses precedentes foram importantes para o reavivar da relação da China com o continente africano. Acresce que com a necessidade de matérias-primas de vária índole para o crescimento da economia chinesa esses laços foram reforçados e alargados. Aos olhos da China, o continente africano é muito importante e, por isso mesmo, há sempre a preocupação de manter essas boas relações. Não há comparação por exemplo com os EUA que não têm conseguido desenvolver uma relação normalizada com o continente.  

A Europa é o mercado mais fácil de a China aceder do que aos Estados Unidos?
Tem sido. Mas essa situação alterou-se e pela mão da França e da Alemanha a avaliação de risco estratégico em relação a investidores estrangeiros passou a ser assumida pela Comissão Europeia. Deste modo, embora ainda sem a articulação institucionalizada do Comité dos EUA, a UE dá passos para que haja maior controlo.

A China perdurará por longos anos como o principal parceiro comercial da Árabia Saudita e do Irão?
Penso que a médio e longo prazo não é possível, mas também temos que ter em conta a política externa dos EUA.
A China tem conseguido comprar o petróleo saudita e devido às sanções ao Irão ser o seu principal parceiro comercial, mas se o compromisso dos EUA no Médio Oriente continuar a ser cada vez menor então esse espaço terá que ser ocupado por outra potência capaz de manter a ordem regional. E fazer isso implica tomar decisões e fazer escolhas. Não é possível continuar a agradar gregos e troianos no Médio Oriente.

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 ajudou a expansão dos seus negócios?
Sem dúvida que sim. Foi um factor importante de credibilidade, mas devido em especial aos subsídios directos e indirectos as queixas de “dumping” são muito frequentes.


E há uma reticência enorme em aplicar à China o estatuto de economia de mercado. Aliás, na própria OMC a China retirou o caso vs os EUA e a UE pouco tempo antes do painel de peritos se pronunciar justamente porque sabia que a decisão não lhe ia lhe ser favorável. No fundo, a caracterização da economia da China é a de capitalismo de Estado ou na expressão de Richard McGregor “Leninismo de Mercado”. A liderança estatal vai continuar e, por isso, o diferendo parece-me até agora insanável.

Até que ponto as empresas chinesas vão dominar ou conquistar novos mercados?
A resposta a esta pergunta não é fácil, pois depende de muitas variáveis. Há pelo menos alguns sectores nos quais a China tem vindo a apostar: a tecnologia 5G, a inteligência artificial, os painéis solares/energias limpas e os carros eléctricos.
Estes são claramente quatro mercados que a China quer liderar ou pelo menos ter uma palavra muito forte a dizer.

A crise financeira de 2008 abalou as grandes economias, mas nos pareceu que a China resistiu a hecatombe...
A crise financeira abalou claramente as economias mais desenvolvidas e mostrou bem as suas fragilidades financeiras.
A China também sofreu, pois, sendo a “fábrica do mundo” passou a ter menos exportações para essas economias, tais como os EUA e a UE.

No entanto, as lições retiradas foram importantes.
É isso que explica a tentativa de Xi Jinping de transformar a economia chinesa, com produtos de maior qualidade e com um mercado interno mais consistente e fiável, mas este caminho é muito difícil e não me parece que possa ser entendido “apenas” como um dado adquirido.

FERFIL

Raquel Vaz Pinto é investigadora e professora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI-NOVA).
Foi presidente da Associação Portuguesa de Ciência Política de 2012 a 2016.
É natural de Luanda, nascida em 1973.
Fez o doutoramento em Ciência Política. O seu sonho é que haja a igualdade formal e de facto entre homens e mulheres no mundo; Maior e melhor discussão das questões internacionais na sociedade portuguesa e que o  Benfica seja vencedor da Liga dos Campeões.  

Os seus artigos têm sido publicados no Brazilian Journal of International Politics e The American Interest online, entre outros.
É autora de «A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen, a China e os Direitos Humanos» (Tinta-da-china, 2010), «Os portugueses e o mundo» (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014) e editou em 2016 pela Tinta-da-china «Administração Hillary» (com Bernardo Pires de Lima) e «Para lá do relvado, o que podemos aprender com o futebol».


Os seus interesses de investigação são política externa e estratégia chinesa; grande estratégia EUA e a Ásia-Pacífico; religião em relações internacionais; os portugueses e o mundo e o futebol e as relações internacionais. Actualmente, lecciona a disciplina de Estudos Asiáticos na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Na sequência do desenvolvimento da Área das Ciências Humanas e Sociais, então já existente na Universidade NOVA de Lisboa, criou-se a NOVA FCSH.


Os protagonistas foram um grupo de docentes e investigadores, figuras de referência no panorama cultural e científico nacional, com provas dadas nas respetivas áreas do conhecimento. A NOVA FCSH visa apoiar estudantes e investigadores das ciências sociais e humanidades na criação de empresas privadas, cooperativas e sociais de base científica, assim como promover a transferência de conhecimento entre as unidades de investigação e agentes económicos externos.

Trata-se do primeiro projecto integrado em Portugal dedicado às Ciências Sociais e Humanidades, distinguindo-se por capacitar os estudantes e investigadores participantes para a gestão de projectos empresariais nos sectores privado, cooperativo e social.