Natálio António Vicente é doutorado em Administração de Empresas e pós-graduado em Gestão Estratégica em Marketing e Licenciado em Gestão e Marketing.
Actualmente, exerce o cargo de Chefe de Departamento de Supervisão e Políticas do Comércio Externo no Ministério do Comércio.
O entrevistado lançou recentemente um livro técnico sobre “O Comércio Externo - Como factor do Desenvolvimento Socioeconómico de Angola”.

De que forma o comércio externo contribui para o desenvolvimento socioeconómico de Angola?
O comércio externo contribui para o desenvolvimento económico através dos seus efeitos na acumulação de capital humano.
É preciso compreender que o comércio externo, por si só, não contribui eficazmente para o desenvolvimento socioeconómico do país. Devemos ter em atenção o seguinte:
Para que o crescimento das exportações gere retornos crescentes, é preciso termos produtos manufacturados e agrícolas, com custo de produção reduzidos para competir no mercado interno e internacional. Para isso, é imprescindível as reformas das políticas do comércio externo e dos sectores da Agricultura e Indústria. O crescimento baseado no fluxo de importações acarreta consequências nefastas para o país a longo prazo.
As importações trazem a dependência do mercado interno aos produtos exportados, ficando vulnerável a qualidade dos produtos consumidos, aumenta a dívida pública e com os sectores de agricultura e indústria inoperantes, as possibilidades de combate ao desemprego ficam dizimadas.
O comércio externo pode contribuir no desenvolvimento socioeconómico com equilíbrio entre as importações e exportações, ou seja, o país deve especializar-se em produzir uma gama de produtos para consumo interno e exportação, passando apenas a importar produtos que não apresentem vantagens competitivas para exportação.

Até quando ponto o volume de importação e exportação tem sido favorável para Angola?
O único registo em que o volume de exportação foi favorável Angola, aconteceu na época colonial, concretamente até antes da Independência. Após esse período, o volume das exportações baixou drasticamente e enquanto as importações registaram uma subida. Pese embora haja reformas no sector comércio externo, há pouco financiamento para o sector da Agricultura e Indústria, por outro lado assistimos uma fome insaciável por parte dos operadores económicos em importarem produtos a todo custo.
Analisando o comércio externo versus importação, exportação, balança comercial e volume de negócio referente ao ano de 2018, o saldo da balança comercial do ano apresentou um superávite de Usd 25. 694.482. 913 (Vinte e cinco mil milhões, seiscentos e noventa e quatro milhões, quatrocentos e oitenta e dois mil, novecentos e treze), comparado com o período homólogo de 2017 notou-se uma variação na ordem de -6 735%%.
No ano em estudo, foi registado um volume de negócios no valor de Usd 44.291.983 791 (Quarenta e quatro mil milhões, duzentos e noventa e um milhões, novecentos e oitenta e três mil, setecentos e noventa e um). Em comparação com os dados registados no ano passado, verifica-se uma baixa na ordem de -75%.

Não acha que Angola vai levar muito tempo para termos uma balança comercial mais equilibrada?
Depende dos angolanos, não apenas da vontade política. O Executivo cria medidas, os sectores devem implementá-las na sua integra, e os operadores económicos e o povo devem colaborar. Temos um caminho longo a percorrer, mas seria possível cortar a meta se todos nós fôssemos solidários com  
as políticas e ao país.
O equílibro da balança comercial e de pagamentos depende simplesmente no que importamos e exportamos. Precisamos de aumentar as exportações e importamos menos. Para isso, temos que investir na produção nacional em grande escala. A agricultura e indústria do país é a única saída para equilíbrio da balança comercial e de pagamentos.

Há tendência de o comércio externo ajudar a revitalizar o nosso Produto Interno Bruto? Pode avançar qual pode ser a sua percentagem no PIB?
As políticas do comércio externo têm como objectivo ajudar a maximizar o PIB do país. A tendência de ajudar o produtor nacional, fazendo uso de restrições a importação, visa potencializar os operadores económicos investindo mais nos sectores onde actuam de forma a contribuírem no aumento do PIB.
Previsões: PIB angolano cresce, no máximo, 1,8% em 2020. Por falta de produção não petrolífera, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) será suportado pelo desempenho positivo do sector petrolífero com 1,5 por cento e com a contribuição do não petrolífero com 1,9%, mas se o sector não petrolífero melhorar o seu desempenho, pode-se registar um crescimento
acima do estimado.

Que caminhos ou sugestões o seu livro aborda para a melhoria dos indicadores actuais sobre importação e exportação?
O livro apenas aborda os indicadores ou caminhos para exportação, pois a importação é o nosso “calcanhar de aquiles”. A pesquisa aponta caminhos bem claros, o capítulo 6 deste livro fala dos produtos verdes e suas vantagens para exportação. O capítulo 7 aborda a questão do comércio fronteiriço, que é uma janela de oportunidades para melhorar os indicadores de exportações. Infelizmente, por falta de estruturas, o comércio fronteiriço é uma ferramenta para fuga ao fisco e comércio negro.
Em relação às importações, como havia dito, os indicadores não são animadores, precisamos de melhorar e penso que o Executivo está a trabalhar para isso.

Será que os países estrangeiros estão mais interessados em vir buscar o petróleo angolano do que outra qualquer mercadoria?
Obviamente, é o único sector que se encontra bem estruturado. Precisamos de atrair o investidor estrangeiro para outros sectores, mas é necessário criar condições que permitam essa atracção. O sector de energia e águas e estradas devem melhorar e colocar os seus serviços disponíveis aos operadores económicos com preços competitivos. Há casos em que os agricultores e fabricantes preferem trabalhar com geradores em detrimento da energia. Isso impede os produtos nacionais competirem a nível nacional como internacionalmente e, consequentemente, esses factores não atraem investidores.

Que proveito Angola tem tirado das relações económico-comerciais com os países?
Os proveitos são quase inexistentes pese embora tenhamos isenções a nível internacional, pois precisamos de produzir bens com qualidade competitiva, de forma a tirar proveito dos acordos comerciais existentes.
No âmbito do Acordo Quadro sobre o Comércio e Investimento (TIFA) e a Lei de Crescimento e Oportunidades para a África (AGOA), Angola tem perdido soberanas oportunidades de exportar para EUA com isenções.
É para dizer que Angola não exporta por falta de oportunidades, mas sim por falta de produtos competitivos.