“Temos condições de alimentar todo o planeta”

A Câmara Agrícola Lusófona (CAL) acaba de promover uma conferência sobre as oportunidades agro-alimentares na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Há preocupação premente de se elevar a exportação de produtos diversos?
As oportunidades agro-alimentares na CPLP são inúmeras, porque existem ainda quotas de mercado para os países aproveitarem. Há uma baixa da quota nos inter-mercados, com excepção do Brasil, Angola e Moçambique, que mantêm óptimas relações, pois os restantes a quota é inexistente ou é muito residual. Por exemplo, a quota de mercado de Portugal nestes países, tirando Cabo Verde, onde Portugal tem uma quota do total das importações à volta dos 60 por cento - Angola encontra-se entre 26 e 30 por cento -, nos demais é inferior a 5 por cento, o que quer dizer que neste mercado há um potencial enorme com todos os cuidados que os empresários devem ter, mas é de alguma forma reflexo também do nosso trabalho e do levantamento que fizemos nestes países onde existem um conjunto de oportunidades, não só a nível do comércio, mas também a nível do Investimento Directo Estrangeiro (IDE), neste caso do investimento directo português nestes países.

Há muitas sinergias a serem empregues?

O segmento agro-alimentar, além de carecer de mais dinâmica do sector empresarial, não só português, precisa de uma maior audácia no sentido de se aproveitarem as oportunidades.Há países da Europa concorrentes de Portugal e que não têm relações históricas com os países da CPLP a registarem quotas de mercado assinaláveis, no caso da França, Holanda e Bélgica.

Que trabalho está a ser desencadeado para que as quotas de exportação nos países da comunidade lusófona aumentem?

Temos um programa forte direccionado para os países da CPLP, no qual designamos de “internacionalização do agro-negócio”, que visa fazer missões empresariais focadas essencialmente ao agro-alimentar. No mês de Julho, iniciaremos um conjunto de missões até finais deste ano, e prolongar-se-á até ao próximo ano. As missões são uma ferramenta que temos dado aos empresários no sentido deles conhecerem a realidade de cada país da lusofonia. Por outro lado, as nossas missões são focadas fundamentalmente naquilo que é o sector agro-alimentar e também naquilo que é o contacto com as empresas. A nossa missão empresarial privilegia sempre o contacto directo com os empresários locais de cada país e a nível político, onde temos tido reuniões ao mais alto nível, que é algo importante, pois não podemos esquecer que muitos desses países têm um conjunto de oportunidades. Lançam concursos internacionais ou concursos públicos internos. É preciso não esquecer que o Estado é o principal comprador. A nível da legislação, existe uma parceria com um dos maiores escritórios de advogados de Portugal e eles têm representações no estrangeiro. Nas visitas a que denominamos de “Local Office” levamos empresários e eles acabam por se informar sobre a realidade jurídica e as condições para se realizarem negócios. A logística é outra componente na qual também nos direccionamos, pois envolvemos os portos, despachantes, operadores logísticos, exportadores e importadores, além da banca, que é uma área importante para viabilizar as transacções financeiras e incentivos às iniciativas empresariais. Nós regularmente, fizemos um conjunto de seminários de “Agronegócio contact”, que juntamos os empresários locais. Tem sido sempre uma soberba oportunidade para eles se interagirem entre si e estabelecerem alguma relação de negócios.

Como é que tem sido a receptividade dos empresários, sobretudo angolanos?

Tem sido boa. Nós organizamos uma missão a Luanda em 2015. No ano passado, realizamos no Huambo. Este ano (entre Outubro e Novembro), vamos ter uma missão a Angola independentemente da situação vigente. Devemos continuar a apostar no mercado angolano, por ser atractivo e ter um potencial agrícola muito forte a seguir ao Brasil. Angola sempre será um parceiro priviligiado nos sectores agrícola e agro-alimentar o qual a CPLP deve ter em atenção e cuidado. Eu diria que é um país a ter-se sempre em conta, quer pela sua relação, quer pelo seu potencial. Precisamos de aproveitar os recursos disponíveis na comunidade. Hoje, temos 50 por cento das reservas mundiais de hidrocarbonetos descobertas nos últimos 10/15 anos, além de ser a única comunidade do mundo ligada ao mar e o número de habitantes ser também já expressivo. Possuimos 280 milhões de habitantes e temos tudo para dar certo enquanto comunidade.

Como avalia as exportações portuguesas e angolanas?

Angola importa de Portugal mercadorias no valor de 3,2 mil milhões de euros só de produtos agro-alimentares e Portugal importa bens que representam pouco mais de 500 milhões de euros, estando a quota inferior a 25 por cento. Portanto, há um potencial para crescer. É certo que apanhamos países como África do Sul, Holanda, Brasil, França, EUA, pois estes são mais os nossos concorrentes. Tem de haver maior audácia e os empresários portugueses devem estar mais atentos a estes mercados. O grande problema que existe geralmente é que nos sentamos um pouco na zona de conforto. Por exemplo, o Brasil tem dificuldades em explorar um outro mercado africano que não seja da comunidade devido à língua.

E entre os outros países da comunidade lusófona?

O único país que está acima dos 60 por cento é São Tomé e Príncipe. Cabo Verde tem 40, e o resto dos países há uma taxa inferior a 40 por cento, isso quer dizer que há um potencial enorme para crescer. Em 2016, a Guiné Equatorial importou de Portugal mercadorias no valor de 397 milhões de euros de produtos agro-alimentares, enquanto Portugal não exportou nem sequer um milhão de euros. Isso quer dizer que o mercado equato-guineense não está a ser aproveitado pelos empresários portugueses, quando também não se regista bons indicadores entre Angola e Guiné Equatorial ou Moçambique e Guiné e vice-versa. A relação inter-países dentro da comunidade é muito reduzida, tirando algumas excepções no caso de Portugal com Brasil, Moçambique e Angola, e outras Angola e Brasil. Estes desequilíbros no comércio devem constituir sempre preocupação nossa.

Como avalia o potencial das fileiras agro-alimentares portuguesas no contexto da CPLP?

São enormes. Se olharmos para o potencial do Brasil, que é o maior produtor de alimentos no mundo (com 67 milhões de hectares de terras aráveis), e se olharmos também para os 40 por cento para o sector agro-alimentar para as terras que estão na África Subsahariana (36 por cento das terras aráveis por produzir), o potencial agro-alimentar na CPLP é esmagador. Nós podemos ter uma comunidade para alimentar o mundo. Os brasileiros dizem que o seu carro chefe é o agro-negócio e o carro chefe dentro da economia lusófona não tenho nenhuma dúvida de que poderia ser o agro-negócio. Existe potencial que nos faz crer nisso. Por exemplo, Moçambique tem 37 milhões de hectares de terra arável e Angola 60 milhões para produzir. Isso mostra que há um enorme potencial. Angola já pode produzir as quantidades idênticas que o Brasil faz hoje. Enquanto um país está a produzir cereais, um outro pode fazer produtos tropicais, mangas, arroz, banana, soja, etc. O Brasil, por si só, é um país dominante com tecnologias e “know-how”, na qual os outros devem aproveitar. É preciso à busca constante de “how-how”, dinheiro, dimensão e capacidade para fazer a diferença.

Como avalia o investimento de empresários portugueses no sector agro-alimentar em Angola?

É valioso e de forma positiva. O ano passado realizamos o agribusiness na CPLP e tivemos líderes empresariais a apresentarem projectos fantásticos de agro-alimentares em Angola, no caso específico do Agrolíder, LR Israrelita, além de Angola, têm um conjunto de projectos na América do Sul, África e Ásia). Temos empresários em Moçambique a produzir banana, cereais, arroz, oleaginosas, criação de gado e têm ainda projectos vocacionados ao sector da indústria. Precisamos de mais empresários porque há um potencial enorme no espaço da CPLP.

Os desafios são grandes?

Uma das acções que estamos a fazer é aconselhar os homens de negócio lusófonos, iniciando-se com os portugueses, a alinharem-se com os empresários de outras dimensões, como franceses, alemães e brasileiros. Precisamos de financiamento
para alavancar os projectos.

Qual é o alcance do ciclo de conferência que estão a promover?

É um conjunto de acções que estamos a promover em Santarém, e que se estenderá até meados de Julho. O objectivo é dar a conhecer o potencial agro-alimentar lusófono e as oportunidades de negócio com as empresas portuguesas. É preciso chamar mais pessoas para a discussão sobre essas matérias.é importante que os empresários participem, e é importante que as empresas portuguesas estejam na liderança desse processo. Temos que fazê-lo com toda convicção para marcarmos a diferença neste mercado, pois as oportunidades elas existem. Nós hoje somos a maior plataforma do agronegócio a nível da CPLP. E temos uma rede de parceiros com todos os países da lusofonia que são nossos co-fundadores.
As missões têm tido sucesso porque temos os nossos parceiros locais. Todos empresários que fazem parte das missões empresariais têm ficado satisfeitos porque conseguem obter informações plausíveis sobre os negócios que desenvolvem, chegando mesmo alguns a criarem parcerias.
Temos um secretariado técnico do mecanismo do sector privado dentro do conselho de segurança alimentar e nutricional da CPLP e isso ajuda-nos a viabilizar as nossas propostas. Por exemplo, propomos a criação de um acordo comercial para produtos de qualidade diferenciada para a CPLP.

Tem havido impacto nas acções que realizam regularmente?

Não há dúvidas de que já têm tido o seu impacto desejado. Nós somos reconhecidos por onde passamos pelo mérito das nossas missões e pelos acordos que temos firmados com a banca, instituições financeiras, universidades e protocolos multilaterais. Assinamos recentemente um protocolo com a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG). Logo, queremos continuar a defender as PME (Pequenas e Médias Empresas).

Em Angola, foi criado um pólo de desenvolvimento agro-industrial instalado em Capanda (Malanje, Norte), com o propósito de intensificar o agro-negócio. Tem tido contactos com os responsáveis máximos deste projecto?

Tenho conhecimento, só ainda não tive a oportunidade de visitar o projecto. Estive há três meses com o ministro da Agricultura de Angola e falamos disso. Porém, antes da missão empresarial iremos realizar uma visita técnica de prospecção em Angola com um conjunto de empresários e manter igualmente encontros com a Delloite, por forma a concretizar a missão empresarial no último trimestre deste ano. Temos que olhar para Angola como um parceiro importante e não podemos descurar disso.

O lema do Governo angolano é intensificar a agricultura, pois há um programa intenso de diversificação económica. Será que o êxito será alcançado caso se aposte forte no agro-negócio?

Claro. Tenho indicação das autoridades angolanas de que existe uma forte aposta no sector agro-alimentar, industrial e pecuário. E o convite que recebi foi ao mais alto nível para visitar Angola depois das eleições de 23 de Agosto, a fim de preparar os empresários, e serão realizadas também consultas em algumas províncias, apesar de ainda não estarem bem definidas.

Quais as informações que tem recebido da AIA, o seu principal parceiro, sobre o desenvolvimento de diversos programas empresariais em Angola?

Tenho conhecimento que a dívida pública está a ser saldada. Os empresários já estão a receber as prestações do Estado. É muito positivo para o crescimento empresarial, tendo em conta a realidade actual, mas o potencial de Angola está lá, pois é o país que tem a maior rede hidrográfica do continente africano, a seguir ao Congo. Tem de haver vontade política.

Há uma crença maior de as relações comerciais e económicas entre Portugal e Angola virem a melhorar?

No ano passado, houve uma queda acentuada, por falta de liquidez para pagar os parceiros externos, mas isso é sazonal, pois Portugal também vive uma fase difícil. Angola tem um enorme potencial e acredito que no curto espaço de tempo vai poder contornar esta fase menos boa da sua economia. Não se pode olhar para Angola e dizer que já não presta, mas é uma fase ultrapassável e também é um país irmão, no qual devemos ajudar a recuperar os seus níveis de crescimento do passado.

PERFIL

Nome: Jorge Correia Santos
Função: Presidente da CAL e do Conselho de Administração da empresa GlobalFood SA (trading, cereais e oligenosas)
Idade: 51 anos
Formação: É licenciado em Relações Internacionais. Tem pós-graduação em comércio agro-alimentar e outra em marketing agrícola
Inclinação na agricultura:
Desde os 11 anos, quando os meus pais mandavam-me a lavra
Como vê o futuro da CPLP: Vejo um futuro brilhante, quer para os políticos, quer para os empresários com capacidade, visão e verticalidade. A CPLP pode ser uma plataforma de negócios e uma comunidade a dar cartas no panorama internacional. Tem nove países para dar cartas. Vai ser uma comunidade coesa e forte e uma maior produtora de bens alimentares no mundo, caso sejamos inteligentes e honestos connosco mesmo. A qualidade, a dimensão e a posição geo-estratégica da comunidade fazem dela condições únicas para ser grande e para dar cartas. Não tenho dúvidas. Os números falam por si: 50 por cento do gás está na CPLP. Nos últimos 10 anos, temos tido a maior reserva de hidrocarbonetos idêntica ou superior a da Arábia Saudita. No sector agro-alimentar o potencial é enorme
Sente-se realizado: Nunca me sinto realizado, pois estou sempre à busca de novas oportunidades e à procura de coisas novas. Além disso, não me sinto ainda realizado enquanto presidente da CAL, porque há desafios enormes que temos que trilhar. A organização é ainda um embrião, apesar de ter sido já criada há 18 anos. Eu costumo dizer que a CAL nasceu dois anos depois da CPLP e antes de Timor tornar-se um país.
Se fosse rico, o que faria: Investiria no sector agro-alimentar e voltaria a Moçambique, que é a minha segunda pátria, já com novos desafios e projectos. Vivi lá 10 anos
Hobby: Correr aos fins-de- semana e fazer praia, ginásio e viajar
Clube: Sport Lisboa e Benfica
Férias: Viajar por África
Melhor País: Portugal (onde nasci), Moçambique (segunda pátria) e Brasil (país de paixão)
Se fosse convidado a fazer parte de um Governo: Não é minha motivação e convicção
CAL o que lhe diz: Paixão, desafio, sofrimento, resiliência e dinamismo
Tempo para CPLP crescer: 20 anos, devido à realidade dos Palop
Crença: Acredito nos homens.