Por que razão o senhor ministro da Economia portuguesa escolheu Angola como o primeiro mercado a visitar, logo após a sua investidura ao cargo?  
Porque Angola e o espaço da lusofonia são uma prioridade do ponto de vista da economia portuguesa. E este foi o sinal que achei que devia dar, devia ter ido a muitos sítios, há muitos outros lugares interessantes para ir do ponto de vista económico, mas a escolha foi Angola e foi uma escolha óbvia. Eu sempre disse que a língua portuguesa era um factor de competitividade para as próprias empresas portuguesas e aquelas outras que estão no espaço da lusofonia. Isto é, a língua une, facilita as comunicações, potencia a aproximação dos vários povos e é um elemento fundamental de construção de  afectos entre povos que têm uma tradição e uma história. E, neste sentido, isto tem tido uma tradução muito óbvia no crescimento da relação comercial e da reciprocidade de investimentos que se tem verificado entre Portugal e Angola.

Esta relação comercial e a reciprocidade de investimentos podem ser consideradas como estando no seu ponto máximo de realizações?  
Nota-se que há uma grande abertura. Verifica-se a entrada de investidores angolanos importantes em sectores cruciais da economia portuguesa, daí que entendi  dar este sinal, e mais do que um sinal, espero que se traduza na capacidade de operacionalizarmos esta relação do ponto de vista comercial e dos investimentos de uma forma ainda mais densa e rápida do que aconteceu até aqui.

A julgar o que o senhor ministro diz, doravante, estas relações vão tomar novo rumo e serão cada vez mais fortificadas?  
Da parte do ministro português  da Economia há claramente assumida essa prioridade: fortalecer as relações comerciais entre os dois países, entre estas duas nações amigas e ser um elemento que facilite e agilize investimentos portugueses em Angola e também, como tem sido o caso, investimentos de grandes empresários angolanos em Portugal.

Nesta conformidade, como caracteriza as relações comerciais entre os dois países, numa perspectiva de reciprocidade de investimentos?  
Do ponto de vista comercial e independentemente de áreas de progresso, nós estamos num pico. As exportações portuguesas para Angola totalizaram quase três mil milhões de euros só em produtos, a que se somam mais 120 milhões de euros em serviços. De ressaltar que Angola é o quarto destino mais importante das exportações portuguesas e, este ano, no primeiro semestre, observou-se uma taxa de crescimento de cerca de 8 por cento desta actividade exportadora para Angola.

Quer dizer que nesta relação económica atribui a Portugal o maior volume de exportação?  
Não. Angola também está a crescer muito em termos de exportação para Portugal. Por exemplo, as exportações angolanas para Portugal no ano passado cresceram 93 por cento e este ano cresceram ao ritmo de 87, ao ponto de no primeiro semestre de 2013, a nível de produtos e bens, Angola ter tido um superávite com Portugal de cerca de 180 milhões de euros. Quer dizer que a balança de serviço é mais favorável em Portugal. Portanto, há uma interacção crescente das duas economias que se traduz nesta relação comercial que cresce de forma muito substancial e que também se reflecte a nível dos próprios investimentos. Como é sabido, são hoje emblemáticos os investimentos de grandes empresários angolanos à economia portuguesa em sectores que são cruciais, como são os casos do sector financeiro, energia, construção, imobiliário e das telecomunicações, aliás, foi esta semana aprovado um processo de concertação importante nas telecomunicações portuguesas.

Pode-se considerar como um sinal da vitalidade nas relações entre os dois países, tendo em atenção a tradição de investimentos entre ambos?  
Sim, na medida em que estes investimentos, pequenos, médios e grandes empresas portuguesas, em Angola, são muito fortes e nós pretendemos dar continuidade e o ministro da Economia portuguesa deve ser um agente facilitador. Portanto, Portugal, como acima referi, é uma economia aberta. Temos hoje investimentos de relevo, não só de parceiros europeus, que têm o mesmo espaço comunitário, mas também de muitos outros países, como os Estados Unidos da América, China, Rússia, Brasil e Angola. Estamos muito satisfeitos por Portugal se estar a posicionar como um país com esta capacidade de atrair investimentos e esta é uma das nossas missões neste segundo ciclo que se abriu da governação de um governo PSD e CDS-PP nesta legislatura.

A estratégia do seu ministério, ou seja, a principal função, está sobretudo virada à atracção de investimentos estrangeiros para a economia portuguesa. Que apelo faz, no caso, aos empresários angolanos?  
Neste sentido, aquilo que posso dizer aos empresários angolanos é que têm no Ministério da Economia um interlocutor amigo e privilegiado para os orientar e ajudar relativamente aos investimentos que queiram fazer em Portugal. Esta é a minha primeira visita em Angola enquanto governante, já que estive várias vezes aqui como um homem ligado ao universo empresarial. A única coisa que posso dizer é que as reuniões que tenho mantido com os responsáveis do Governo angolano têm sido muito positivas e consecutivas.

Refere que têm sido consecutivas. Isto traduz a existência de interesses mútuos entre as duas partes?  
Creio que sim, pois é importante que exista um clima facilitador dos investimentos portugueses em Angola e a recíproca é válida.

É correcto dizer que a economia portuguesa se encontra num estágio de estagnação?  
Agradeço a sua pergunta. Quero informar que estamos claramente num momento de viragem. Toda a Europa, de uma forma mais específica Portugal, atravessou, ao longo dos últimos anos, momentos difíceis de reestruturação e até de reposicionamento naquilo que é o seu papel dentro da economia mundial, mas os últimos dados que temos da economia europeia, do segundo trimestre deste ano, e fundamentalmente da economia portuguesa, são positivos. Portugal foi o país que mais cresceu em toda a Europa e eu espero que esta trajectória se consolide e continue nos próximos trimestres. Pela primeira vez, o desemprego em Portugal caiu de forma significativa. Assiste-se à recuperação de sectores tradicionais como é o caso da agricultura. Portugal está a ter o melhor ano turístico de sempre e claramente queremos marcar esta segunda fase do ciclo legislativo, que estamos a viver, por um processo de recuperação da economia que passa por ajudar a economia portuguesa a crescer ainda mais.

A questão do desemprego domina em Portugal o discurso político, qual é a estratégia para sair desta situação e garantir mais empregos?  
A estratégia assenta em três eixos: dar continuidade ao excelente trabalho que tem sido feito pelas empresas exportadoras portuguesas com a colaboração excepcional do Instituto de Apoio aos Investimentos e as Exportações Portuguesas, o segundo tem a ver com a recuperação do investimento, na qual joga um papel importante a atracção do investimento estrangeiro e o terceiro ponto tem a ver com a estabilização e a recuperação do consumo privado. A economia vive muito da confiança e este tem sido o meu discurso enquanto agente político.Temos agora que provar que se conseguem materializar estas três linhas de desenvolvimento e que a economia portuguesa entra numa trajectória de crescimento mais assumida a partir de 2014.

As relações económicas têm sido impulsionadas com a criação de câmaras de comércio e indústria entre os Estados. Hoje, os empresários portugueses vêem Angola como um mercado de enormes oportunidades?  
Esta pergunta tem uma resposta indiscutível, sim. Se não fosse assim, nós não teríamos assistido a esta evolução exponencial da actividade comercial entre os dois países e é este o enorme interesse das empresas portuguesas em investirem em Angola. Aquilo que deve ser o elemento de meditação e de ponderação é ainda o tempo que tarda entre o anúncio ou a aprovação dos investimentos e depois a sua concretização. E é na agilização deste processo que eu acho que o Ministério da Economia deve agora estar focado. Temos centenas de empresas portuguesas a operarem em Angola, tanto do ponto de vista de produção e comercialização de bens, quanto de ofertas e serviços.
Até que ponto os bancos portugueses filiados em Angola ajudaram a superar o défice financeiro das entidades bancárias que representam?  
Os bancos portugueses que estão em Angola, penso, têm sido muito importantes na activação do sector financeiro angolano vivendo em regime de concorrência com outros bancos angolanos como em regime de parceria de capital e a sua actuação em Angola norteia-se a objectivos que têm a ver com rentabilidade mas, fundamentalmente, financiar o desenvolvimento da economia angolana. Importa dizer que os investimentos angolanos no sector financeiro português são bem-vindos e quem investe em Portugal tem sempre um impacto positivo na actividade económica.

O plano de resgate a Portugal, o terceiro país da Zona Euro que recorreu a uma ajuda externa, depois da Grécia e Irlanda, foi um verdadeiro esforço nacional?
Foi sim um esforço nacional, mas do qual vamos sair em termos de problemas de assistência, em Julho de 2014. Tem sido, de facto, um trabalho extraordinário que o povo português tem feito, submetido a esforços e a grandes sacrifícios. Entretanto, começa agora a produzir resultados económicos e o objectivo, tal como estava previsto, é regressar aos mercados no próximo ano. Neste momento, o défice orçamental reduziu drasticamente sob o ponto de vista estrutural e estamos em linha com as metas acordadas com o programa de assistência financeira. Nós vivemos em recessão nos últimos anos, mas o objectivo é inverter este ciclo. Já durante este ano, os sinais são bons e esperamos que o próximo seja
de estabilização.

Qual é o ponto de situação do programa de privatizações à luz das recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Europeia (EU)?  
Importante dizer que está a decorrer normalmente e já está anunciada a próxima privatização que é a direcção dos CTT. Os processos de venda de algumas empresas estão concluídos e outras lá se verão a sua evolução, pois são processos que são tutelados pelo Ministério das Finanças.