Um dos grandes trunfos para alavancar a economia é apostar-se na diversificação. Na óptica do economista e professor da Universidade Católica de Angola, Salim Valimamade, alcançar as metas e os objectivos será uma tarefa bastante desafiante nos dias de hoje, tendo em conta o clima de incertezas que é muito elevado nos mercados internacionais, o que cria sempre diversos condicionalismos para os mercados nacionais. Contudo, sublinhou, que, apesar do contexto actual, Angola tem bases para acreditar fortemente que a médio prazo haja resultados bastante positivos no plano económico e financeiro.

As perspectivas económicas do país ficaram reflectidas no recente discurso sobre o Estado da Nação, proferido pelo Presidente José Eduardo dos Santos. Se tivesse de apresentar Angola, de que maneira o faria?
Na minha perspectiva, a economia angolana conseguiu alcancar com sucesso muitos objectivos importantes nos últimos 41 anos de independência,
sobretudo nos 14 anos de paz, essencialmente, devido à estabilidade política e ao esforço que o Executivo tem feito ao longo destes anos, para criar as condições de crescimento e desenvolvimento económico. Devo relembrar que o país antes do alcance da paz em 2002, encontrava-se numa situação de inúmeras dificuldades, desde a questão da falta de infra-estruturas básicas (rede, estradas, energia, água); o acesso ao crédito internacional; a falta de recursos humanos qualificados, a hiperinflação e o desequilíbrio das outras variáveis macroeconómicas, entre outros problemas. Nesse sentido, temos que reconhecer o devido mérito da economia angolana ter conseguido alcançar muitos resultados positivos e minimizar muitas situações de carência que o país vivia, num período curto de 14 anos, no qual muitos outros países levaram mais do que 50 anos a resolver os mesmos problemas.

Há ainda expectactivas maiores sobre o curso da economia?
Naturalmente, que o país ainda tem muitos desafios pela frente e, actualmente, o menor crescimento económico que o país atravessa (devido, essencialmente, à sua dependência num factor exógeno - o preço internacional do petróleo), faz com que o país tenha de passar por uma fase de reajustamentos da sua economia. Deve-se salientar que este reajustamento económico tem sido transversal para todos os países considerados emergentes, como por exemplo da China. Sobre a perspectiva futura da economia angolana, podemos dizer que o plano do Executivo é bastante claro na sua prioridade em promover os outros sectores da economia, com um maior pendor para a industrialização e de auto-suficiência alimentar, ou seja, sectores que possam gerar competitividade, emprego e acrescentar valor para a economia angolana, continuando a reforçar os seus investimentos nas infra-estruturas e nos melhores mecanismos regulatórios para promover o mercado angolano, onde oferece diversas oportunidades de crescimento e desenvolvimento.

Que caminhos devem encontrar os empreendedores angolanos para que estes também liderem certa franja do mercado empresarial e dos negócios?
Neste cenário, penso que o sector privado, em particular, os empreendedores nacionais podem ter um papel bastante relevante para o relançamento dos sectores produtivos da economia. Apesar das dificuldades que os empresários e as famílias enfrentam nos dias de hoje, devido a este ciclo económico menos favorável, especialmente, no que concerne às questões da dificuldade do acesso aos financiamentos, a maior restrição de divisas, encarecimento de bens alimentares, é a minha convicção de que a economia angolana tem bases para voltar a ser mais pujante, devido às oportunidades de crescimento que tem em vários sectores de actividades como a agricultura, indústria, pescas, entre outros. Para aumentar a competitividade dos empresários nacionais, a política deve passar, essencialmente, por ter pessoas altamente qualificadas e ter acesso às tecnologias para que possam adicionar valor aos produtos e serviços das empresas. Estes factores, tais como, a qualificação dos recursos humanos e o acesso às tecnologias/ “know-how” e aos novos modelos de gestão, no curto e médio prazos, podem ser obtidos através de parcerias empresariais provenientes do exterior, de forma, a obter-se resultados mais rápidos e mais eficientes no aumento da competitividade das suas empresas.

Há desafios também que passam por uma gestão mais parcimoniosa das despesas públicas e o investimento em infra-estruturas?
Penso que as autoridades governamentais têm dado passos bastante importantes no sentido de melhorar a gestão das finanças públicas. Contudo, ainda existe uma margem significativa para fortalecer a gestão das despesas públicas (nomedamente nos investimentos públicos), tendo
em consideração as regras orçamentais sólidas, desde no que diz respeito à avaliação da viabilidade, da orçamentação e financiamento ao do plano de execução dos projectos. Num cenário de menores receitas fiscais, as parcerias público-privadas e a atracção do investimento directo estrangeiro podem servir de exemplo de algumas vias que o Executivo pode recorrer para alavancar alguns projectos públicos que tem como prioridade,
de forma, a não impactar negativamente as contas públicas e atingir as suas metas.

Que outras medidas sente necessárias para a diversificação económica?
Certamente que alcançar as metas e os objectivos será uma tarefa bastante desafiante nos dias hoje, uma vez que o clima de incertezas é muito elevado nos mercados internacionais, que criam diversos condicionalismos para os mercados nacionais. O Executivo angolano definiu a sua visão estratégica para o país, que tem como pilar a aceleração na diversificação económica. Pela evolução dos resultados e, apesar do contexto actual, penso há bases para acreditar fortemente que a médio prazo haverá resultados bastante positivos no plano económico e financeiro.

Até que ponto a cooperação económica e de reciprocidade vai fortalecer a economia nacional?
Angola tem tido cada vez um papel mais importante a nível da geopolítica internacional, especialmente, no seu continente. A sua participação em várias organizações regionais e internacionais tem vindo a ser consideradas como muito importantes para a estabilidade e promoção económica do continente africano, em especial, na SADC. Este factor deverá ser aproveitado para potenciar as cooperações e parcerias económicas e empresariais com vários países e, dessa forma, trazer maior valor acrescentado para a economia angolana.