A escola de gestão da Universidade Católica que Nuno Sousa Pereira dirige há alguns anos subiu sete lugares no ranking do “Financial Times” que distingue as 75 melhores escolas de gestão da Europa e ocupa, agora, a 25ª posição, a melhor de sempre conseguida por uma instituição portuguesa. O responsável pela Porto Business School esteve recentemente em Angola para promover a sua internacionalização e reforçar as parcerias. O economista fala em instalação local ao mesmo tempo que assegura que, apesar da concorrência no país, a escola tem fortes elementos diferenciadores na sua forma de actuação.

Como está a decorrer expansão da escola de negócios do Porto (ENP) nos países africanos de expressão portuguesa?
A nossa internacionalização está no bom caminho. Em Angola, por exemplo, procuramos fazer tudo quanto fazemos em Portugal, que a contribuição para a melhoria da qualidade da gestão, pelo que hoje funcionamos como uma plataforma entre o mundo académico e o empresarial, ou se quisermos ser mais lato, entre todas as organizações públicas e privadas. Com efeito, a escola é detida pela maior universidade portuguesa, a do Porto, e mantemos assim o rigor científico que advém desta relação; por outro lado, a escola é igualmente detida por mais de 30 organizações, empresas, fundações, autarquias (câmara municipal do Porto). Assim, queremos que haja uma ponte com Angola ao nível da realidade complementar, unindo a teoria mais avançada que existe no domínio da gestão e o saber fazer que as empresas podem trazer a uma escola como a nossa.    

O que é que se  estabeleceu em Angola, na prática?  
Neste momento, já temos acordos com universidades e outras entidades. Por exemplo, iniciámos um curso que foi acordado com o Governo Provincial de Benguela para líderes do sector público e privado, que vai fornecer competências técnicas e comportamentais nas áreas de administração, gestão de pessoas, liderança e finanças. A formação iniciou em Novembro, terá a duração de seis meses, sendo que para a conclusão terão uma semana no Porto para visita às empresas e organizações portuguesas. Além disso, temos uma forte parceria com o Banco Angolano de Negócios e Comércio (BANC), que nos permite dar formação aos seus quadros. Estamos a falar de uma relação que já tem  mais de um ano e que se tem vindo a aprofundar. Contudo, nos próximos tempos teremos outros associados angolanos nos domínios financeiros e da construção, com os quais procuraremos estabelecer parcerias de intensa colaboração.

A escola tem já há algum tempo associados angolanos…  
Sim. É o caso do Banc. Permita-me que esclareça que no fundo os associados são os proprietários da Escola de Negócios do Porto.

Soube-se que a Escola Nacional de Administração (ENAD) pretendia estabelecer parceria com a escola. Não passam de intenções?  
Há um protocolo assinado que nós gostaríamos imenso que produzisse resultados muito rapidamente. Contudo, sabemos que a Enad passa por um período de mudanças e esperamos que, tão logo as ultrapasse, possamos efectivar as intenções, pois vemos com muito bons olhos sermos parceiros da Enad no processo de formação de dirigentes da administração pública.

E quais são as vantagens de ser associado de uma escola de negócios como a do Porto?  
A primeira vantagem é ser o próprio associado um elemento de contribuição para a própria escola, ajudar no estabelecimento da sua estratégia através dos órgãos nos quais está representado enquanto accionista. Segundo, há na escola um conjunto de iniciativas de reflexão sobre a evolução do mundo, a economia mundial e lusófona, muitas vezes com convidados de reconhecida competência, em que todos associados podem participar. Como disse anteriormente sobre a relação entre a academia e o mundo empresarial, uma das principais vantagens é o associado ter a oportunidade de participar desta ligação, direccionando assim a sua gestão de acordo com a evolução do mundo e ganhar vantagens competitivas num mundo cada vez mais dinâmico.

Os cursos para Angola acompanham as especificidades do mercado local?  
Sem dúvidas. Garanto-lhe que é um elemento diferenciador no modo como a escola gosta de estar nos diferentes mercados e com as diferentes entidades dos quais é parceira. Cada solução de formação deve reflectir a realidade em que o parceiro se insere. Seja em termos sectorial, seja em termos de país. O que estamos a fazer em Benguela é exemplo disso. Ou ainda com o Banc. Entretanto, é importante não esquecer que Angola começa a ter cada vez mais um papel muito importante no mundo, e assim, qualquer formação não deve reflectir apenas a realidade local, mas igualmente a evolução da economia mundial.

Como avalia o crescente interesse dos líderes e gestores pelos master of business administration (MBA)?  
Sim. O papel do líder é cada vez mais difícil. Por um lado, o mundo está a mudar e a tornar-se mais complexo. E o gestor tem que estar preparado para lidar com este desafio. Por outro lado, o conjunto de competência que é hoje indispensável a um gestor é cada vez mais multidisciplinar e transversal. Não basta ser muito bom numa coisa. Reconhecemos que é necessário possuir conhecimentos aprofundados na área de especialidade mas é necessário ter uma visão transversal para que possa ter diferentes soluções e perspectivas para os problemas. Por isso, um líder, por muito bom que seja, tem que estar preparado para actualizar os seus conhecimentos e dotar-se constantemente de instrumentos que lhe permitam ser mais eficiente, produtivo e consequente no modo como lidera a sua equipa. Neste sentido, a formação é crucial ao longo da vida. Sendo assim, um master of business administration (MBA) é sempre um instrumento útil neste processo de reavaliação e renovação dos conhecimentos que um gestor possui.

Como é que a escola projecta estabelecer-se em Angola. Poderá ficar-se pelos acordos com parceiros e associados em detrimento de uma unidade local?    
Estabelecer-se localmente é um projecto de médio prazo. Por enquanto consideramos que há um conjunto de instituições no país com as quais podemos estabelecer acordos de colaboração que nos permitem desempenhar as nossas funções mas ao mesmo tempo beneficiar dos conhecimentos e da rede que as mesmas possuem. Vemos com bons olhos o estabelecimento de acordos com universidades e várias instituições angolanas.

Há já em Angola meia dúzia de escolas de negócio, portanto, a concorrência pode aumentar. 

Estamos a estudar vários projectos para nos estabelecermos no país, não só em Luanda como nas restantes províncias. Mas como disse, é a médio prazo, pelo que por agora reforçamos as parcerias para que quando a escola se fixar em Angola venha a reflectir a própria acção da sociedade angolana. E queremos ainda que a nossa instalação no país seja feita em parceria com as entidades e empresas angolanas.

E como encara esta concorrência?  
Obviamente que há excelentes escolas de negócio em Angola. Mas nós somos uma escola diferente. Vivemos muitos daquilo que é a experiência empresarial, pelo que muitos dos nossos professores são gestores de sucesso. Portanto, não nos limitamos a dar formação teórica. Quando damos uma formação, asseguramos que os participantes saiam com um conjunto de competências com aplicação imediata no seu dia-a-dia. Esta filosofia leva a que muitas empresas queiram ser nossos parceiros e associados.

Desde que assumiu a liderança da escola, como avalia a sua projecção quer em Portugal quer no mundo?
A escola está hoje num processo de crescimento acelerado que resulta de uma dinâmica de internacionalização. Estamos actualmente nos principais “rankings” internacionais que no fundo reconhecem a ENP como uma escola de qualidade. Assim, estamos neste momento a alavancar esta notoriedade, aumentar a presença no mundo, em particular nos países africanos de expressão portuguesa e na América Latina. Temos mais de 50 antigos alunos que hoje defendem o posicionamento da escola
no mundo, servindo como “embaixadores”.

Há já muitos gestores com alguma fluência em inglês. Pensa-se em MBA completamente nesta língua?  
Sim. É importante que se saiba que a língua portuguesa tem hoje um posicionamento crescente devido a própria ascensão económica de países como Angola, Brasil e Moçambique. Com efeito, não podemos negar que o inglês é a língua da economia. Por isso nós temos tido MBA em inglês, nos quais participam alunos que vêm de diferentes cantos do mundo. Aliás, isto nos permite ainda ter um grupo de renomados professores que só dão formação em inglês. Assim, para Angola poderá não ser diferente. Angola abre-se cada vez mais ao mundo e neste caso os gestores angolanos têm de estar preparados para este processo de internacionalização, no qual inclui o inglês.

Nos poucos dias que está em Angola, como encara a dinâmica do país?  
Não é a primeira vez que venho a Angola, pois já cá estive várias vezes. Mas assisto sempre com alguma admiração a dinâmica por que passa o país. E é uma dinâmica que não se limita a Luanda, contrariamente ao que se pensa, pois estende-se as demais províncias. E há aqui um enorme potencial que passará muito pela capitalização das competências que os empresários e as empresas começam a desenvolver. É óbvio que a economia angolana ainda é dependente essencialmente dos recursos naturais que tem, mas hoje começa a ver um tecido empresarial que já abrange muitos outros sectores de actividade, pelo que penso que dentro de alguns anos a economia angolana possa vir a ser mais equilibrada e ter mais capacidade para reagir às oscilações por que passam as matérias-primas. Este é um processo que eu acho que os angolanos podem ver com algum optimismo.

Em Portugal, a escola acaba por ter muitos professores ligados à Universidade do Porto. E como será em Angola?  
Mesmo em Portugal, além dos professores da Universidade do Porto, integramos igualmente gestores profissionais e renomados professores de outras universidades. Assim, em Angola não será diferente, pois haverá professores de outros países que cá virão. Teremos igualmente professores e gestores angolanos que estejam imbuídos desta capacidade de combinar conhecimento científico com o empresarial. Gostamos sempre de ter professores que sabem verdadeiramente do que se passa no interior das empresas e, portanto, alguns gestores e professores angolanos não só poderão trabalhar connosco em Angola como também transmitir conhecimentos aos nossos alunos em Portugal.