O director executivo da Fundação Kissama para a área Ambiental e Administração,  Vladimir Russo, faz uma incursão real e actual da economia verde e azul em Angola. No centro da conversa estão o reforço à fiscalização para evitar que muitas empresas contaminem a água, a captura de espécies marinhas em extinção e o abate de animais e de florestas que levam o Estado a perder milhões de dólares.

Afinal o que é economia verde?
Os princípios da economia verde assentam na economia que a entrada são sustentáveis e têm  retorno, além dos negócios que são ambientais e seguros, cujas saídas também apresentam menos resultados negativos para o ambiente. Por exemplo, ao invés de deitar o vidro deve ser reciclado, até o vidro normalmente é deitado fora. E através de um processo de transformação são feitas novas garrafas. Porém, há um processo de reciclagem dos resíduos que normalmente é considerado como lixo e passam a ser matéria-prima.

E no sector da agricultura?
Outro exemplo é o desenvolvimento da agricultura não intensiva com produtos orgânicos onde não há o uso de pesticidas, pois há um processo de irrigação de gota a gota e uma poupança considerável de água e os produtos quando saem transformam-se em não agro-tóxicos e não vão fazer mal à saúde daquelas pessoas que não lavam os alimentos com cuidado.

Fala-se muito de economia verde em Angola. Já há esta prática entre nós?
Não! Em Angola ainda temos algumas ideias. Há empresas que tentam se aproximar de alguns dos princípios, particularmente no que diz respeito à gestão de recursos. Esta gestão de recursos é mais liderada pela componente de viabilidade económica de sustentabilidade. Não conheço nenhuma empresa angolana efectivamente a fazer este negócio. Alguns vão tentando caminhar por aí. O sector dos petróleos é um deles e tem cuidado alguma parte da cadeia de produção numa perspectiva de sustentabilidade ambiental e depois há pequenas empresas que vão tentando adoptar práticas que sejam ambientalmente sãs particularmente àquelas que estão no processo de certificação da ISO, uma norma internacional de padronização internacional que define um conjunto de normas que as empresas deveriam seguir, se querem ser certificadas para garantir o negócio. Imaginemos que uma empresa produz parafusos  todos têm de ser iguais. Para uma empresa que produz batata, o processo produtivo seja o mesmo, uma vez que produz leite ou uma empresa que fornece serviços de qualquer ordem tenha a qualidade do produto, mas também
a qualidade da gestão ambiental.

Quais os passos que o Executivo deve dar para que a economia verde seja um facto em Angola?
Há muita coisa a ser feita a nível do Executivo. Um dos aspectos importantes é transformar a matriz energética que neste momento tem uma forte dependência e sobre a biomassa e os combustíveis fósseis e transformá-la numa matriz energética limpa. E para ser matriz limpa terá de ser sustentável pela hidroenergia, energia hídrica pelas eólicas e pelos painéis solares. E isso, é um processo que pode ser dado para transformar esse sector. Outro aspecto importante tem a ver com a gestão de resíduos, mas neste momento tentamos de uma forma geral que os resíduos que vão para o contentor de casa e depois para o aterro em alguns casos lixeiras.

Somente estes factores é que concorrem para desenvolver a economia ?
É preciso que o país tenha um programa estratégico de gestão de resíduos sólidos urbanos que prevê faseadamente a instalação de aterros sanitários a nível de capitais de províncias e depois municipais. Portanto, se isso, for executado, se haver uma gestão efectiva dos bens com recurso à reciclagem, a produção de energia através da matéria orgânica e utilização, poderemos estar  a dar caminho para a economia verde. E isso faz-se a longo prazo e não no lucro imediato. E para o privado, é necessário investimento em termos de recursos financeiros, equipamentos e formação do pessoal isto a curto prazo. A longo prazo, as perdas que terão as empresas serão muito reduzidas, comparando com o sistema actual que muitas delas utiliza.

Como especialista conhece algumas empresas que estão a dar passos seguros nesta actividade?
Lembro que há dois anos uma empresa fez uma espécie de concurso sobre a sustentabilidade ambiental e um questionário a várias empresas e em algumas delas foram premiadas, sobretudo para o sector petrolífero, serviços, sector das telecomunicações com base nos critérios definidos de sustentabilidade ambiental. Porém, já se está a dar algum passo.

Não temos economia verde?
A economia verde deve ser um princípio a ser implementado transversalmente no país e não temos.

Fala-se que daqui a 20 anos Angola pode atingir essa meta. Quer comentar?
A economia verde e a circular e o desenvolvimento sustentável estão assentes a um conjunto de princípios, muitos destes não são mensuráveis e muitos objectivos. Portanto, não vamos alcançar 100 por cento, porque  há uma série de aspectos que não dependem de uma determinada empresa ou Governo. Contudo, estamos na direcção certa.

O sector florestal está incluso na economia verde e a ser devastado  em grande escala?
Sim. É um sector crítico neste momento no qual há muitas reclamações, na medida em que há corte abusivo ilegal de florestas. É preciso aplicar-se as políticas que estão a ser preconizadas nesse momento face à situação actual. Deve haver cuidado no licenciamento dos processos e aproveitamento do produto da madeira e da serradura, criando programas do quadro do repovoamento florestal quer para a indústria do papel no futuro, quer para a lenha, carvão e o sector madeireiro do ponto de vista de sustentabilidade económica. É necessário  que sejam gizados mais  planos, e aquilo que está no papel seja implementado na prática. É muito dinheiro que devia ajudar a combater a pobreza em Angola. Aliás, os que vivem nas áreas rurais são pobres.

Há muito prejuízo com o derrube de árvores ?
Há. Angola é um país em franco desenvolvimento, e o saque dos recursos naturais pode trazer muitos problemas. A tendência de exploração dos recursos florestais é desordenada. As pessoas e as empresas tentaram fazer o uso abusivo dos recursos sem pagar taxas e cuidar do ambiente. Digamos que é um problema que a Europa teve no passado e teve que estancar. Fizeram isto nas suas colónias em África para se desenvolver rápido, hoje de forma lenta há países a cooperarem com Angola e no fim dão cabo da riqueza fora do contrato assinado, e deixam ainda mais pobres estes países.

Conhece algum país africano que conseguiu bons resultados com a implantação da economia verde?
Não há nenhum país africano que no seu todo conseguiu atingir a economia verde embora haja sectores que estão a trabalhar para isso, mas de uma forma geral, não existe. Há muito conluio com os que exploram e os habitantes de um determinado país.

A poluição marinha, a pesca industrial por parte de navios de outros países sem autorização é outro atentado à economia azul...
Este é um problema gravíssimo. Além do saque dos recursos estão a  ser delapidadas todas as espécies marinhas, que depois se reflecte à ausência do peixe à nossa mesa. O pior é que muitas espécies com o tempo não existirão. Há m verdadeiro saque das larvas(peixe em crescimento) e espécies reprodutivas. Carregam tudo. Por exemplo, agora o marisco está raro e caro por todas estas acções que já acontecem faz tempo. É preciso travar isto com urgência.

Há também uma contaminação ambiental no mar em grande escala, isto é um grave problema?
Este mal somente acontece porque a fiscalização é muito fraca. E muitas empresas viradas à produção de farinha de peixe são as mesmas que atiram a farinha, e os fiscais ficam a olhar a farinha ser atirada ao  mar e a exterminar o peixe como aconteceu recentemente no Namibe. Há muitos casos destes. É preciso punir os infractores com multas altas para que mudem de atitude. O sector petrolífero reduziu em termos de poluição marinha.

Já agora comente um pouco sobre o negócio de animais selvagens no âmbito da conservação das espécies...
Certamente muitas espécies estão a extinguir-se, pois o elefante por causa do marfim tornou-se no negócio apetecível para muitos, o leopardo por causa da pele é outro problema sério. Tem de haver medidas enérgicas para terminar com esta prática, pois Angola perde milhares de dólares com este acto, não bastam chamadas de atenção.

Então há necessidade de se estabelecer prazos para aplicação de medidas ou as datas são uma utopia?
As autoridades devem estabelecer prazos, senão não teremos como cumprir, basta recordar que todas as grandes cimeiras estabelecem datas, mas em alguns casos os intervenientes não cumprem. As datas servem como “barómetro” para que as pessoas envolvidas façam um esforço em cumprir.

Implica que com os oceanos, mares e rios constituem fontes de riquezas do mundo?
Geram biliões de dólares em bens e serviços, além de criarem  empregos . Há estimativas de que  em 2020 as actividades marítimas possam atingir um avultado valor financeiro.
E as  estimativas da Agência Internacional de Energia apontam para um potencial energético renovável, oriundo dos oceanos de 400 por cento relativamente à actual demanda global de energia. Estas perspetivas indicam que o potencial azul africano está fora. A “Economia azul” do continente africano é composta por marés e oceanos, de águas subterrâneas, de rios e de vastos lagos dos quais os Grandes Lagos representam cerca de 27 por cento de água fresca à superfície, a maior percentagem a nível mundial.
Dos 54 Estados africanos, 38 são costeiros e mais de 90 por cento das importações e exportações são efetuadas por via marítima. Juntando-se às actividades portuárias um dos acessos mais estratégicos para o comércio internacional em África. As zonas marítimas sob a jurisdição do continente totalizam cerca de 13 milhões de quilómetros quadrados, área subaquática equivalente a dois terços da superfície terrestre africana. Se explorado e bem gerido, vai alavancar as fortunas do continente.

Neste momento qual é o proveito que Angola tira na economia  aquática?
Vão mas para a  pesca, aquacultura, turismo, transportes, portos, energia e exploração mineira costeira. Associam-se aos recursos bióticos que permitem uma expansão nos sectores da pesca,  aquacultura e a maricultura, e um investimento na indústria farmacêutica, química e cosmética.

Fale um pouco do nosso continente em relação ao aproveitamento da “economia azul”?
A África ao invés de ser o fornecedor habitual de matéria-prima bruta está em posição de partir para uma industrialização assente em recursos e de se tornar o centro do comércio mundial dos produtos de muito valor. Vários países africanos já estão a conceber estratégias que destaquem a economia azul nos planos nacionais de desenvolvimento, mas neste momento a economia azul em África é fraca.

O amigo do ambiente
Vladimir Kilaunji Russo, nasceu a 15 de Junho de 1974. É natural de Luanda.
Licenciou-se em educação ambiental, tem o mestrado em educação ambiental pela Universidade Roers na África do Sul. Trabalha nesta área desde 1990 e faz parte do grupo de jovens que em 1991 criou a Associação Juventude Ecológica de Luanda, da qual é membro fundador.
Actualmente, exerce o cargo de director Executivo da Fundação Kissama para a área de educação ambiental.
É casado e tem dois filhos, tendo a República vizinha da Namíbia o local preferido para passar as férias.
Nos tempos livres, gosta de ler e escrever. Estar ao lado da família é o que mais lhe agrada. Pratica ciclismo com os filhos nos tempos livres. Tem o basquetebol como modalidade favorita.
Sabe cozinhar, mas a preferência recai para o bife, arroz de marisco panados. Não consome álcool e não é a favor da poligamia.
A marca de carro preferida é a Toyota e a cor que gosta é a preta.