À margem da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, que decorreu em Nairobi-Quénia de 12 a 14 de Novembro 2019, o Jornal de Economia & Finanças, que cobriu o evento, entrevistou o embaixador de Angola acreditado no Quénia e nos Escritórios das Nações Unidas em Nairobi. Dentre vários outros assuntos, abordou sobre as áreas identificadas que proporcionam a criação de empregos, no caso da agricultura e do turismo. Disse que o Quénia criou fortes capacidades em termos de infra-estruturas e investiu bastante no capital humano nesses dois sectores. Essas áreas interessam Angola nesta fase de diversificação da economia.

Até que ponto a diplomacia económica tem ajudado na captação de mais investimento estrangeiro para Angola?
A política externa do país está definida no âmbito da estratégia do Governo, com o foco na diplomacia económica, com objectivo de mobilizar os investidores e captar recursos financeiros e experiências, necessários para fomentar a diversificação
da nossa economia.
Precisamos de investidores e recursos para o país, particularmente, no momento que atravessamos. O apelo ao investimento tem sido feito através das conferências que promovemos para o sector privado, dos encontros e das visitas que temos realizado a nível empresarial.

Que tipo de resultados? Quer especificar?
Importa dizer que tivemos de começar a trabalhar na recuperação da imagem e credibilidade do país que estavam um pouco “beliscadas” aqui por razões conhecidas por muitos.
Este objectivo foi conseguido.
A Embaixada de Angola tem estado a trabalhar na promoção das relações políticas e de amizade com várias instituições deste país irmão e apraz-nos afirmar que temos as condições criadas no terreno para aprofundar as relações de cooperação
entre os dois países.
O nosso Presidente, Sua Excelência João Lourenço, já se encontrou algumas vezes com o seu homólogo queniano, o Presidente Uhuru Kenyatta, no âmbito de encontros multilaterais. Contudo, esperamos que encontros a nível de visita de Estado virão com certeza imprimir outra dinâmica nas relações entre os dois países.

Ainda este ano, foi realizada em Luanda, uma conferência para investidores, na qual os angolanos e quenianos do sector privado tiveram oportunidade de interagir nos sectores da Educação, Agricultura, Turismo e Saúde?
Temos igualmente mantido outros encontros com a classe empresarial queniana e constatamos com satisfação que já se registam alguns resultados, pois já começa haver interacção e algum fluxo migratório de empresários e especialistas quenianos para Angola. Conseguimos constatar isso a nível de vistos emitidos pelos Serviços Consulares da nossa embaixada que registam cerca de 50 vistos emitidos mensalmente a favor de cidadãos quenianos, fora de outras nacionalidades residentes no Quénia, bem como funcionários das Nações Unidas que procuram os Serviços Consulares para se deslocarem ao país em missão de serviço.

Exerce as funções de embaixador há dois anos no Quénia. Tem havido maior intervenção e aproveitamento de Angola nas questões multilaterais?
Afirmativo. Como é do vosso conhecimento Angola, como país membro da ONU, tem deveres e obrigações a cumprir neste capítulo. A nossa embaixada, em Nairobi, além de promover as relações políticas, económicas e culturais a nível bilateral (Angola-Quénia), assegura igualmente a Representação Permanente de Angola junto dos Escritórios das Nações Unidas, aqui em Nairobi.
Nesta base, Angola tem sido bastante interventiva nas questões multilaterais que estejam em discussão. Participamos nos vários Comités e Sub-comités das questões temáticas, aliás, o exemplo recente foi a eleição de Angola para Membro do Conselho Executivo do UN-Habitat que teve o apoio de outros países africanos principalmente os da região da SADC.
Também participamos regularmente das reuniões dos Comités de Representantes Permanentes (CPR) para o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), em que estão elaboradas as estratégias e planos sobre a Sustentabilidade Ambiental a nível mundial. Participamos igualmente das reuniões do AMCEN (reuniões dos Ministros Africanos de Ambiente) cuja delegação angolana tem sido normalmente chefiada pela nossa ministra do Ambiente.
Por outro lado, Angola é membro do Conselho Executivo do UN-Habitat, órgão que elabora estratégias e planos dos Assentamentos Humanos a nível mundial, que são depois apro ados pela Assembleia deste programa da ONU, onde Angola se faz representar, normalmente, por uma delegação chefiada pela nossa ministra do Ordenamento do Território e Habitação.

Angola precisa de investidores fortes capazes de criar riqueza e proporcionar novos empregos a nacionais. Quais têm sido as áreas que os quenianos e países co-relacionados têm mostrado mais interesse?
As áreas identificadas para proporcionar a criação de empregos são a Agricultura e o Turismo. O Quénia criou fortes capacidades em termos de infraestruturas e investiu bastante no capital humano nesses dois sectores. Essas áreas interessam Angola nesta fase de diversificação da economia.
Recentemente, visitamos uma fábrica de chá, que são muitas aqui no Quénia, e posso assegurar que só a indústria do chá pode garantir empregos directos e indirectos na ordem de milhões de postos de trabalho, para não falar da indústria do café que também está bastante desenvolvida. O Quénia é o terceiro maior produtor mundial de chá a seguir da China e da Índia.

O chá queniano é exportado em bruto e processado na modalidade de “blending” no exterior?
É possível que Angola esteja a importar o mesmo chá com nomes diferentes noutros mercados, quando, na verdade, podemos cooperar directamente com o Quénia que está há apenas três horas de voo de Angola com vantagens do Quénia poder passar a sua experiência com vista à produção de chá em Angola, porque o nosso país também tem boas condições climatéricas para a produção chá e do café. Tal como disse, Angola pode importar o chá do Quénia num acordo de parcerias em que a parte queniana teria a obrigação de criar condições a médio prazo para produzir o chá em Angola. Já fizemos esses contactos e os quenianos estão receptivos à proposta concordando com este princípio.
O Quénia também desenvolveu capacidades de produção de leite, podendo cooperar neste domínio, exportando-o por via de parcerias que visassem a médio prazo, a criação de condições para produzir o leite em Angola
numa base competitiva.

Mas eles têm o turismo como sustentação?
O turismo com forte pendor no ecoturismo é um outro sector muito importante para o Quénia e tem contribuído bastante para o Produto Interno Bruto (PIB) deste país. Angola também possui uma grande variedade de biodiversidade e pode muito bem aproveitar parcerias com o Quénia para desenvolver o nosso Turismo. Às vezes, não precisamos de ir à busca de experiências de países bastante desenvolvidos: Começar pequeno e crescer permite-nos ter o controlo das coisas de acordo com as nossas
capacidades e realidade.

Em que nível se encontram as trocas comerciais entre Angola e Quénia?
Não existem trocas comerciais entre Angola e Quénia, tirando a companhia aérea Kenya Airways que explora a rota Luanda/Nairobi e vice-versa, com uma frequência de três voos por semana.

Os quenianos descobriram recentemente petróleo e não possuem a experiência que Angola tem...
Podemos estabelecer acordos com vantagens mútuas  entre os dois países ajudando-os em matéria de regulamentação do sector petrolífero, beneficiando da nossa condição de concessionária
durante muitos anos.
De igual modo, temos experiência operacional iniciada em 1992, altura em que assumimos o risco geológico e financeiro de sermos operador no sector dos petróleos e podemos partilhar esta experiência, além de considerarmos a possibilidade da própria Sonangol ou outros privados entrarem na actividade de exploração e produção nesta região.

A visão de Angola é a de criar uma capacidade doméstica para transformar a matéria-prima para garantir, pelo menos, a cesta básica da população...
Isto está certo, mas temos de ter racionalidade e bom senso na escolha dos nossos parceiros para cumprir com este objectivo e o Quénia pode ser a alternativa.
Por outro lado, existem muitos produtos que Angola importa noutros mercados que podemos encontrar aqui e sempre com a visão de parcerias para criar condições de transformação local.

Há um claro optimismo em relação à recuperação da economia angolana?
Claro que sim, e tem de haver optimismo. Sei que estamos a passar por um momento economicanente  difícil, mas considero este momento passageiro, pois é próprio das mudanças acompanhadas de situações criadas por nós.
As crises existem e até, na sua na maioria, podem ser exógenas, mas temos que criar bases financeiras sólidas, produção local e infraestruturas para resistir às crises que são, às vezes, cíclicas. Gostar do seu país é respeitar as leis, é também investir no seu país, no seu município e na sua comuna. O investimento nem sempre é financeiro pode ser o conhecimento e espírito de empreendedorismo. As falhas aparecem nas opções e na implementação dos objectivos estratégicos e é por esta razão que o nosso Governo quando fala em “Melhorar o Que Está Bem e Corrigir o Que Está Mal”, entender perfeitamente esta visão.

Conferência de Nairobi avaliou os planos de acção dos países

Que importância tem uma conferência sobre População e Desenvolvimento?
A última Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, creio teve lugar, no Cairo em 1994. Decorridos 25 anos, os países que participaram do evento decidiram avaliar os programas de acção aprovados, principalmente, sobre a saúde sexual reprodutiva, igualdade de género, empoderamento da mulher e violência baseada no género. Esta conferência de Nairobi constitui uma oportunidade para avaliar, sobretudo, o que cada país tem feito na implementação do referido plano de acção. A intervenção do nosso ministro da Economia e Planeamento que chefiou a delegação Angolana mostrou claramente que Angola registou progressos neste domínio.

Poderia apontar os progressos registados resultantes das políticas viradas para o desenvolvimento populacional em Angola?
Posso sim. Os indicadores de saúde melhoraram significativamente em Angola, destacando-se a importante da redução da mortalidade infantil e infanto-juvenil, da mortalidade materna e aumento da esperança de vida à nascença.

Há experiências particulares de alguns países africanos que apreendeu durante a conferência que poderiam ser transportadas para Angola?  
Creio o que as experiências discutidas aqui são similares ou quase o que estamos a tentar fazer no país. Por exemplo, questões relacionadas aos direitos de igualdade de género e empoderamento da mulher, o direito à participação igualitária da mulher e o aumento da participação da mulher na vida economica, social e política da sociedade.

Mas Angola ainda tem vários problemas a vencer como a diversificação da economia nacional. Como os outros países ultrapassaram isso, no caso concreto do Quénia?
Há países que não tiveram longos períodos de conflito armado como o nosso. Claro que com a estabilidade política, mesmo com escassos recursos, tiveram a disciplina e cultura de investir no conhecimento, educação, responsabilização, seriedade na gestão da coisa pública, no trabalho, na disciplina e na humilde. Conseguiram escolher as melhores opções no que respeita à transformação da matéria-prima para superar primeiramente as necessidades primárias de alimentação.
Os Quenianos, na sua maioria, comem o Ugali (versão queniana do funge) com um misto de uma variedade de verduras a que chamam de Sukumawiki (couve, espinafre, etc); produzem grandes quantidades de frangos, carnes, leite e outros produtos básic

Agricultura deve ser aposta para nossa futura sobrevivência

Como é que em Angola está a ser difícil alcançar a meta da diversificação?
Simplesmente, partimos de pressupostos diferentes porque durante muito tempo assentamos a nossa economia na base mineral sem muita preocupação em diversificar. Com os rendimentos provenientes do petróleo, estava tudo bem até ao “susto” de 2015, quando o Orçamento Geral do Estado foi gravemente afectado pela redução do preço do petróleo no mercado internacional. A partir daí, o Governo decidiu e bem, diversificar a economia, porque não se pode sempre depender de um único produto de exportação.
Claro que poderíamos ter começado antes. Há outras razões que não interessa aqui mencionar... mas que se enquadram na directriz de “Melhorar o Que Está bem e Corrigir o Que Está Mal” contribuíram para que não começassemos a diversificação mais cedo.

Só agora é que o Quénia entra para a indústria do petróleo mas estão melhor que Angola?

Mas quem disse que para o país prosperar e estabilizar a sua economia tem que ter necessariamente petróleo?Exitem muitos países sem petróleo e têm as suas economias estabilizadas. Tudo depende das opções e estratégias de cada país. Há países que não são ricos em recursos naturais mas vendem conhecimento, porque souberam fazer melhores opções e nós também podemos fazer
e estamos nesta direcção.
Você é mais novo que eu, mas Angola que eu vi quando nasci não era construída com o dinheiro do petróleo, na altura era o café. Vamos à Agricultura para criar emprego e promover o sector dos serviços que também cria muito emprego, daí o investimento no conhecimento é essêncial.
 
Há um problema que ainda vivemos: o escoamento da produção. Qual é o sistema que os quenianos usam para interligar o campo e a cidade?

Cada país tem realidades próprias e, às vezes, não são comparáveis. O Quénia também tem os seus problemas. Em termos de população, é o dobro da nossa ( 50 milhões) e em termos de superfície Angola é o dobro do Quénia, ou seja, numa situação normal teríamos de
estar melhor que o Quénia.
Eles lideram a economia na África Oriental, mas têm muitos imigrantes de países vizinhos e um número considerável de cidadãos em situação
socioeconómica difícil.
O Quénia tem uma rede rodoviária e ferroviária que permite escoar os produtos e a circulação de pessoas e bens. É sintomático o número de camiões carregados de mercadorias que circulam pelas estradas do Quénia, porque outros quatro países também dependem do Porto de Mombasa, nomeadamente, Uganda, Rwanda, Tanzânia e mesmo a RDC.


Perfil

Nome: Sianga Kivuila Samuel Abílio
Formação: Engenheiro Geólogo de Petróleos
Naturalidade: Kibocolo-Uíge
Sonhos: Ver uma Angola desenvolvida e com melhorias no acesso à educação e saúde para todos.
Hobbie: Futebol e boxe (já pratiquei as duas modalidades)
Férias: Maquela do Zombo
Clubes de eleição: Petro Atlético de Luanda
Cargos exercidos: Director Geral da Sonangol Pequisa e Produção;
Administrador Executivo da Sonangol EP; Vice-ministro do Ambiente e Secretário de Estado para Qualidade Ambiental e Novas Tecnologias.
Depois de ter passado pela Sonangol, Ministério do Ambiente, sente-se bem na diplomacia?
Passei 27 anos no sector dos Petróleos, entrei no Governo em 2008 como vice-ministro, pois, permaneci neste sector por 10 anos e em 2018 entrei para a diplomacia. A minha adaptação não foi difícil, integrei-me facilmente e estou a cumprir mais uma missão ao serviço do país.