Recebeu-nos num domingo à tarde, algures em Luanda, despistando já a ideia de que ao fim-de-semana ou em dias não consagrados ao trabalho normal, os jornalistas se põe ao fresco ou à lagardère, como diriam os franceses. Numa conversa sobre o jornalismo económico que se faz em Angola, Carlos Rosado de Carvalho, ex-director do jornal Expansão e da revista Exame - Angola aborda de frente as especulações à volta das suas mais recentes decisões, ao passar para o jornalismo independente, enquanto aguarda por um novo projecto. Diz mesmo estar num sabático. Crítico aos factos e rigoroso com os números, CR recorrreu aos exemplos do homónimo CR7 (Cristiano Ronaldo) para explicar os caminhos para o sucesso de uma publicação, da imprensa e dos profissionais.

Como avalia o jornalismo económico em Angola?

Está no bom caminho. Atrevo-me mesmo a dizer que está mais desenvolvido do que o jornalismo generalista. Talvez porque os jornalistas económicos são mais jovens e não trazem os vícios da informação-propaganda do partido único e da autocensura. Mas também porque têm melhor formação e por isso estão melhor preparados para fazer um jornalismo de qualidade. Não estou a puxar a brasa à sardinha dos jornalistas económicos, mas acho que em geral os jornais de economia são mais credíveis com a vantagem adicional de serem bastante mais atractivos do ponto de vista gráfico.

O jornalismo económico deve ser feito por economistas ou jornalistas?
O jornalismo, económico ou outro, deve ser feito por jornalistas. A questão está em definir quem é jornalista. Há quem defenda que só os que se formam em jornalismo são jornalistas. Eu não. Fiz-me jornalista numa redacção. Foi a “tarimba” do dia-a-dia que determinou e forjou o jornalista que sou hoje. O jornalismo é a produção e distribuição de notícias, as quais devem respeitar as regras que regem a actividade jornalística desde a recolha de informação até à redacção. As informações apuradas devem ser comprovadas e as partes envolvidas devem ser ouvidas para que os factos sejam relatados com rigor e isenção. Em minha opinião, quem faz notícias respeitando estas regras é jornalista, independentemente da sua formação de base.

E a formação específica?
Naturalmente que, à partida, um jornalista com formação de base em jornalismo dominará melhor as técnicas jornalismo. Da mesma forma que um licenciado em Economia dominará melhor as questões económicas. O jornalista económico tem de ter ambas as características: deve dominar as técnicas do jornalismo e as questões económicas. Em 33 anos de profissão, já apanhei de tudo: jornalistas de formação que não sabiam escrever uma breve, licenciados em economia que se revelaram exímios jornalistas, mas também formados em jornalismo que não sabiam nada de economia e se transformaram em estrelas do jornalismo económico, bem como economistas que sabiam muito de economia mas que não conseguiam escrever uma notícia económica. Quem vem para o jornalismo, independentemente da sua formação, é porque gosta da profissão e acredita que tem talento para tal. Mas, como disse recentemente Cristiano Ronaldo numa entrevista, para se ser profissional de futebol, além de talento também é preciso muito trabalho. No jornalismo económico não é diferente.

Costuma a “gabar-se” que dirigia o melhor jornal de Angola. Não é muito “ego” de sua parte, o que, até certo ponto, pode ser entendido como estando a menosprezar os demais?
Reafirmo que dirigia o melhor jornal de Angola. Com isso, não pretendo menosprezar os demais, mas desafiá-los a fazer melhor. Não sou o único a pensar que o Expansão que dirigi era o melhor de Angola. É o que dizem muitos leitores nacionais e estrangeiros de todos os estratos sociais e sectores, com destaque para as embaixadas estrangeiras em Angola. Outra forma de avaliar o Expansão, enquanto fui director é a publicidade. Os anunciantes são um óptimo barómetro de um órgão de comunicação sicial, pois a decisão de pôr anúncio não resulta de amizades ou simpatias, mas da penetração e influência junto dos leitores. O Expansão tornou-se uma referência da comunicação social angolana em reconhecimento de um trabalho feito com rigor, isenção e objectividade. Trabalho que começou antes de eu assumir a direcção do jornal em 2012. Eu corrigi o que estava mal e melhorei o que estava bem. Mas não conduzi o Expansão até onde o deixei sozinho: contei com uma equipa competente e dedicada de jornalistas, fotógrafos, gráficos e serviços de apoio, além da confiança da administração e dos accionistas.

O economês no jornalismo preocupa-lhe?
Claro que sim. O jornalista económico precisa desconstruir as mensagens que passa usando uma linguagem simples mas sem perder o rigor. Para que isso aconteça, tem de ser o primeiro a entender a mensagem. Daí a necessidade do jornalista de economia dominar as questões económicas, mesmo não sendo economista. Traduzir o economês não significa que tenha de estar a explicar tudo. É suposto que os leitores dos jornais económicos ou das páginas económicas dos jornais generalistas tenham conhecimentos básicos de economia. Por exemplo não é preciso estar sempre a explicar o que é o Produto Interno Bruto ou a inflação.

E o negócio da imprensa como o avalia, neste momento?
A imprensa em Angola atravessa uma situação económica e financeira complicada, em espacial a privada que não tem apoios do Estado. As vendas sempre foram baixas, quanto mais não seja porque os angolanos lêem pouco. Com a crise vieram os cortes na publicidade, a principal fonte de receita da comunicação social. Um País não pode viver sem jornais. Por isso defendo que o Governo e as empresas editoras deviam sentar-se e tentar encontrar soluções para mitigar os efeitos da crise. Por exemplo, ao nível da distribuição, em que cada uma tem a sua própria distribuição, porque não aproveitar os canais do Jornal de Angola para fazer chegar os títulos privados às demais províncias do País? Também é preciso terminar com a concorrência desleal feita pelos órgãos públicos que recebem generosos subsídios. Mas o próprio sector também precisa de mais transparência ao nível da medição das audiências e do controlo das tiragens. Começando por estas últimas cada um diz os exemplares que imprime e as vendas que quer. Falta um órgão que controle as tiragens e as vendas de forma independente. Ao nível das audiências também é preciso uma medição independente. Mas isso custa dinheiro. Também aqui a união de esforços
pode ajudar a resolver o problema.

Pensa criar uma escola para difundir a sua visão sobre um “bom” jornalismo económico?
Não. Nunca pensei em criar uma escola. Mas estou disponível para colaborar em projectos de formação de jornalistas de economia que é a minha área. A AJECO (Associação dos Jornalistas Económicos) que está um tanto ou quanto adormecida pode e deve ser um veículo para formar e refrescar os jornalistas económicos nacionais. De resto há muito que dou o meu contributo na formação dos jornalistas económicos angolanos participando em acções de formação, muitas vezes graciosamente. Isso para não falar das redaccões por onde passei onde a formação in job é constante, quer ensinando quer aprendendo. Sou muito exigente comigo e com quem trabalha comigo. Sei que não é fácil trabalhar comigo mas sem exigência não há excelência.

O jornalismo económico angolano tem contribuído para melhorar as tomadas de decisão em Angola?
Tenho a certeza que sim. Sem informação não se tomam boas decisões. Os decisores que não lêem jornais estão condenados ao fracasso. Não sendo perfeita, a melhoria da qualidade da comunicação social angolana está a ajudar os agentes o governo, as empresas e as famílias a decidirem melhor. Mais ou menos bem feitos, os jornais são, por exemplo, intermediários entre os governantes e os governados.

O jornalismo angolano é mais de oposição ou de situação?
As duas coisas. Não gosto de distinguir entre imprensa pública e imprensa privada mas neste caso é inevitável. A comunicação social pública é a face visível do jornalismo da situação. Com a chegada de João Lourenço as coisas melhoraram, mas depois... Pode-se falar mal à vontade do antigo Presidente, mas o novo é apresentado como praticamente infalível, mantendo-se um perigoso culto de personalidade. Com uma certa imprensa privada acontece o contrário. Ataca tudo e todos a começar pelo Governo muitas vezes sem fundamentar Felizmente há uma terceira via composta por órgãos de comunicação social que procuram fazer uma cobertura isenta como manda o bom jornalismo. Quem está no poder é mais escrutinado mas isso é natural. Defendo um jornalismo crítico. Mas a critica não pode ser confundida com ataques gratuitos e não fundamentados sob pena dos jornais se descredibilizarem a si mesmos.

Os ardinas dizem que os jornais semanários de economia não vendem...
Vendem-se pouco. Talvez seja mais correcto dizer assim. Mas em Angola lê-se pouco e os jornais económicos são caros. Por exemplo, o Expansão custa 900 Kz. Ainda assim o Expansão, pelo menos até eu sair, vendia mais do que semanários generalistas de referência, contrariando um pouco a tendência mundial segundo a qual os jornais de economia vendem menos do que os jornais generalistas.

O jornalista deve enriquecer a sua agenda

Por que é que deixou o Expansão?
Sobre a minha saída do Expansão, por enquanto, continuarei a dizer apenas que a decisão foi única e exclusivamente vontade própria depois de muito ponderada. Acrescento que não foram razões de natureza editorial. Sempre dirigi o Expansão de forma totalmente independente. Aliás, nem aceitaria que fosse de outra forma.

Com a saída, deixou o jornalismo activo…
Estou numa espécie de sabática em relação ao jornalismo. Faço diariamente o Economia 100 Makas na Rádio MFM, frequência 91.7 de Luanda. À segunda-feira, durante uma hora, das oito às 9h, passo em revista os principais acontecimentos económicos nacionais e internacionais. De terça-feira a sexta-feira, depois do noticiário das 7h, por volta das 07h15 ou e 20, faço um comentário expresso de cinco a dez minutos sobre um tema da actualidade económica. Em breve poderei ter novidades em matéria de televisão. Como escrevi no editorial de despedida do Expansão, continuo a trabalhar para construir uma informação económica de qualidade em Angola. O que deverá passar por um projecto multimédia de raiz na área da economia. Embora a iniciativa seja minha, está aberta a todos os que acreditam num projecto editorial multimédia em Angola assente na verdade, na independência, na isenção e no rigor. Na área académica, continuo com as minhas aulas de Moeda e Bancos e de Gestão Financeira Internacional na Univerdade Católica de Angola. Quando a agenda me permite, lecciono também em cursos de pós graduação e outros, como sucedeu recentemente no CEJES, acrónimo de Centro de Estudos de Ciências Jurídico-Económicas e Sociais da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto.Por último, mas não menos importante, sou speaker em conferências, fóruns, seminários, workshops e encontros de quadros de empresas. A médio prazo tenho planos para compilar em livro com a versão do Economia 100 makas, os editorias que escrevi no Expansão e outros textos publicados em diversos jornais. Sedento das cadeiras que lecciono na UCAN, também, não estão fora das minhas cogitações.

Os jornais, na corrida pelas novidades em primeira mão, escrevem coisas que não devem...
É uma tentação que se corre, em especial quando escasseia a informação especial. Mas esta tentação precisa de ser vencida. Pelo menos eu, quando dirijo uma publicação procuro nunca ceder. A título de exemplo, não sou de especular sobre possíveis remodelações governamentais, salvo se o Presidente da República mo disser expressamente (risos....).
Mas ninguém é imune ao erro e quando estes acontecem devem ser prontamente corrigidos. Nestes longos anos de profissão nunca fui processado por nenhuma entidade. Há jornalistas que encaram os processos como medalhas. Eu olho para a ausência deles como prova da seriedade e o rigor.

A sua agenda deve ser bastante rica. Fala com ministros e governadores de manhã, tarde e noite...
A agenda do jornalista é uma coisa que ele mesmo constrói com trabalho e confiança das fontes. Depois, o tempo faz o resto permitindo ao jornalista enriquecer a sua agenda. Um jornalista que se iniciou ontem não pode, claro, ter uma mesma rede de contactos como a minha. Na relação com as fontes, incluindo ministros e governadores, privilegio sempre os canais institucionais. Só quando estes falham é que recorro ao contacto directo.

O CRC (Carlos Rosado de Carvalho) considera-se uma pessoa influente?
Todos os jornalistas influenciam os seus leitores, ouvintes e telespectadores. Uns mais do que os outros, mas todos influenciam. Sem falsas modéstias, tenho noção de que o que escrevo ou digo é lido e ouvido por muita gente e que acabo por ter influência na formação da opinião e nas decisões de muitos deles. Obviamente que isso me deixa orgulhoso. Mas mais do que orgulho, sinto uma enorme responsabilidade de não defraudar quem me lê e quem me ouve.