A grande missão do Executivo angolano com a hotelaria e turismo nacional é fazer do turismo no país uma fonte de arrecadação de receitas e geradora de postos de trabalho, tendentes ao desenvolvimento económico, com a participação, óbvia, do sector privado.
O Jornal de Economia & Finanças, procurou ouvir o director Geral do Instituto de Fomento do Turismo (Infotur), Simão Manuel Pedro, sobre o estado actual do sector turístico nacional.

Qual é a avaliação que faz do sector hoteleiro e turístico neste preciso momento no país?
De forma generalizada o fenómeno turístico tem conhecido uma grande evolução. A África subsahariana (que inclui Angola) apresentou, por exemplo, indicadores de crescimento positivos. Por exemplo, em 2015 tivemos uma taxa de 1,6 por cento. O fluxo de chegada de turistas às fronteiras no biênio 2016-2017 atingiu a cifra de 658 mil.
Por outro lado, relativamente ao ano de 2017, o número de chegada de turistas às fronteiras nacionais situou-se em 260.961, representado cerda de 34,35 por cento. Neste ano a Europa com 51,5 foi o maior mercado emissor de turistas.

Como está a relação do Infotur com os agentes e guias turísticosnacionais?
O Infotur na qualidade de instituto responsável pela execução das políticas de fomento e promoção turística, mantém uma relação institucional com os agentes-operadores e as associações do sector como a Associação de Guias e Intérpretes de Turismo de Turismo de Angola (AGUITA). Esta relação institucional permite que se estabeleça uma janela de diálogo permanente, que passa pela resolução de alguns constrangimentos que ainda se debatem estes nossos parceiros, principalmente o acesso ao crédito bancário, de formas a poderem dar um contributo melhor elaborado e profissionalizado ao turismo angolano.


Quais são as maiores dificuldades que enfrentam neste momento?
A crise é conjuntural e o Infotur via Ministério do Turismo não está isento desta realidade que afecta todos sem excepção. No entanto, existe uma grande vontade política por parte do Executivo que elegeu o sector como uma das prioridades para alavancar a economia nacional, mais precisamos de fazer muito mais.

De que mais se queixam os agentes turísticos no geral e os turistas em particular?
De forma geral, os agentes turísticos reclamam, como disse anteriormente, de falta de apoios financeiros, além do precário estado das nossas infraestruturas básicas como as estradas, saneamento básico, acessos, água, energia, e outros constrangimentos, que constituem o suporte essencial de qualquer actividade turística.

Que metas esperam alcançar este ano com a actividade turística?
O sector do turismo em Angola representa 3,5 por cento do produto interno bruto (PIB), sendo que fazemos ainda pouco e temos um longo e difícil caminho a percorrer. Contudo, para curto e médio prazo pretendemos tornar “verdadeiramente operacionais” as infraestruturas hoteleiras, estradas, transporte, seguros, saneamento, energia e água, pois só assim, poderemos fortalecer a indústria e aumentar a sua contribuição na balança de pagamentos e no desenvolvimento do país.

O que está a ser feito neste momento para a captação de investimentos privado e que passos já foram dados para atrair mais turistas?
Temos neste momento aprovada a nova Lei de investimento Privado, que cria bons incentivos, diminui a burocracia e dá garantias à recuperação e repatriamento dos lucros, sobretudo para os investidores estrangeiros.
Quanto a atracção de mais turistas, um dos passos importantes dados neste sentido foi precisamente o processo de facilitação de vistos, que inclusive já pode ser feito via online, para além de outras acções que constam no Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN-2018-2022), onde o turismo foi eleito como sendo um sector prioritário para alavancar a economia nacional.

Quantos empregados tem hoje o sector turístico em geral?
Segundo os últimos dados estatísticos da Direcção de Estatística e Planeamento do Ministério do Turismo, em 2017 o sector já empregava mais de 223 mil trabalhadores, representando uma variável positiva de 0,95 por cento ou seja 2.118 novos empregos comparativamente a 2016.

A baixa taxa de ocupação continua a ser o maior problema do sector hoteleiro. Como contornar esta situação?
Esta situação advém com certeza da crise económica que o país vive, para além do facto de que o nosso turismo ainda é fortemente liderado por uma clientela de negócios, uma boa parte afecta ao sector petrolífero. De forma que uma grande aposta deverá ser feita a nível da oferta turística com campanhas promocionais dirigidas a outro tipo de clientes, como o turismo de massa ou individual, por exemplo, sem descurarmos o melhoramento das infraestruturas básicas, que dão suporte à actividade turística no seu cômputo geral.

Um dos maiores problemas do sector também é sem dúvidas a falta de quadros. Como é que está a ser equacionado este problema?
Angola já formou mais de dois mil estudantes no ensino superior, médio e técnico-profissional nas 81 escolas registadas no país. Entretanto, continuamos a fazer uma grande aposta na exigência e competências dos quadros que possam contribuir para o desenvolvimento do sector. Este investimento vai permitir assegurar o desenvolvimento da cadeia turística nacional e posterior promoção da oferta e atractivos de forma sustentável.

Neste momento dizem Angola é o quinto melhor destino turístico de África. Confirma essa informação? O que representa isso para nós enquanto potência continental?
De facto temos condições objectivas para que isso fosse de facto real. Mas ainda, não é o caso. Não nos encontramos sequer na lista dos 10 melhores destinos a nível de África, pois, temos forte concorrência de países como a África do Sul, que lidera a play list, seguidos da Namíbia , Marrocos, Botswana e Seychelles, só para citar estes países.
Entretanto, Angola possui um rico património natural passivo de aproveitamento turístico e poderá se assim quisermos, com uma boa política de planificação ser um dos destinos mais promissores a nível de África.

O montante de 364 milhões de kwanzas no OGE reservado para o desenvolvimento hoteleiro e turístico é suficiente para o sector?

ulgo ser insuficiente na medida que ainda não chega para cobrir todos o problemas conjunturais com que se debate o turismo angolano. Daí a necessidade imperiosa de o sector ter um fundo do turismo para fazer face a situações pontuais de carácter técnico. Este fundo já foi aprovado pelo governo, entra em vigor ainda este ano, vamos ver como será.

Qual é a cota do sector turístico no OGE ou no produto interno bruto (PIB)? Uma vez que se fala em 30 por cento.
O sector do Turismo em Angola representa apenas 3,5 por cento do PIB, naturalmente ainda é uma fasquia bastante baixa  tendo em conta o potencial turístico de Angola, que bem aproveitado e explorado poderá contribuir significativamente para o aumento da balança de pagamentos, principalmente na rubrica dos serviços, onde está inserido o sector do turismo.

Que políticas o Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) reserva o sector para os próximos anos?
Consta da planificação das políticas do Plano de Desenvolvimento Nacional algumas acções pontuais, tais como: melhoria na comunicação com os polos de desenvolvimento turísticos;
maior sinergia com os Minitérios do Ambiente, Cultura, Energia e Águas, no que se refere a participação do instituto nos estudos e projectos para definição de áreas de interesse para o turismo; elaboração de projectos de construção e reabilitação de infra-estruturas hoteleiras e turísticas estatais e mistas; identificar zonas de desenvolvimento prioritário com o intuito de recuperar e desenvolver todas infra-estruturas da rede hoteleira e turística.


Como é que anda a questão do cartão do turista?
O projecto cartão do turista lançado pelo Infotur em 2016, e  tem como objectivo incentivar as pessoas a fazerem turismo pelo país. Quem ganha com isso são os hotéis, restaurantes, empresas de rentcar, as agências de viagem, que podem ver o número de clientes aumentar.
Os primeiros contactos junto da banca foram mantidos com o Banco BAI, mais por questões técnicas, o processo continua à espera da sua real activação. Estamos a buscar outros parceiros a nível dos bancos para operacionalização efectiva do processo, pois, o mesmo se enquadra dentro dos esforços de mobilidade para o desenvolver o turismo interno.

Nota-se uma fraca promoção institucional das potencialidades hoteleiras e turísticas do país, a que se deve o facto?
Não diria fraca, até porque o Governo definiu o turismo como uma das prioridades para diversificação da economia real do país, cujos pilares do Plano Director do Turismo são: a captação de receitas, o desenvolvimento e fomento e promoção do turismo interno, e a formação profissional.

Pólos devem ter autonomia financeira

Os Pólos de Desenvolvimento Turístico e outros locais com elevado valor turístico continuam sem muita expressão porquê?
Tudo passa por um maior incremento da autonomia financeira destes polos, e na elaboração de master planos turísticos, mais realísticos que tenham em conta a especificidade de cada, de forma a serem apresentados aos potenciais investidores numa espécie de cartilha de investimento.

Nunca mais se ouviu falar da Bitur que serviria para divulgação do turismo interno. Já foi realizada?
Achamos conveniente, e também por questões financeiras protelar a realização da Bitur apenas para 2020. Atendendo também ao facto que Angola acolhe de 23 a 26 de Maio do corrente ano o “Fórum Internacional do Turismo”, que acaba por ser um evento para o relançamento da Bitur, para o próximo ano.

Quantos turistas o país recebeu em 2018 e qual a previsão  de entrada para este ano?
Segundo os dados estatísticos mais recentes da Direcção de Estatística e Planeamento do ministério do Turismo, em 2017 entraram em Angola 260.961 turistas, ou seja menos 34,35 por cento, uma vez que em 2016 este número foi de 397.485 registados. Para o ano de 2018 e tendo em conta a crise que se instalou no sector houve com certeza um retrocedimento mais ainda não podemos espelhar em números pois não existem ainda dados oficiais que apontem com exactidão esta baixa.

Fale-nos um pouco da realização deste Fórum Mundial do Turismo que decorre entre 23  e 26. O que  espera sobre os seus resultados?
Esperamos receber entre 1.200 a 1.500 participantes e acreditamos que o evento possa promover o investimento e impulsionar o sector do turismo angolano. Angola tem grandes potencialidades turísticas e este fórum pode trazer oportunidades de investimento nos sectores de construção, transportes e a criação de empregos, pois o turismo é um sector transversal e é por excelência a indústria da paz e proporciona igualmente lazer e traz consigo oportunidades de investimento e negócios a curto, médio e longo prazo.

Sete Maravilhas de Angola
são mais divulgadas lá fora

Hoje ninguém mais fala das Sete Maravilhas de Angola, que aproveitamento está a ser feito destes locais?
Este projecto inseriu-se no programa Institucional do Executivo denominado “Amo Angola”, como forma de promoção do património natural angolano e de reforçar o conhecimento que a população tem do seu próprio país.
Continua a ser divulgado e promovido além-fronteiras, sempre que o Infotur se faz representar nas feiras Internacionais de Turismo. Quanto ao aproveitamento dos locais, está em curso um trabalho a jusante e a montante no que concerne a melhoria dos acessos destas zonas.

O sistema de água, energia eléctrica, transportes, estradas e segurança ainda não ajuda muito o sector. Como olha para estes aspectos pontuais que são sem dúvidas questões de constrangimentos ao turismo?
Estes constrangimentos fazem parte da actual conjuntura geral do país e constituem de facto factores de estrangulamento para  o sector do Turismo e não só. Urge sim a necessidade imperiosa de mudarmos este quadro através de um pacto de cooperação objectiva com os outros sectores da economia nacional, de outra forma, corremos sérios riscos de ver todos os planos que estão a ser elaborados agora, a não alcançar os seus objectivos.