O seu banco é já uma referência a nível nacional e internacional, sobretudo em Portugal. Qual a estratégia definida para os próximos tempos?  
Temos uma estratégia bastante agressiva. Em 2008, o banco BIC teve a oportunidade de alargar os serviços ao exterior, no caso em Portugal, e está a criar outras filiais em diversos países. Há um ano comprou o BPN, o banco que o Estado português estava a vender. Em resultado disso, hoje, já detemos 210 agências e 1.200 trabalhadores. Além disso, compramos igualmente em Cabo Verde, o BPN IFI. Estamos também na parte final de negociações para a aquisição do BPN Brasil. Creio que, dentro dos próximos dias, vamos assinar um contrato para a compra do banco. Além disso, estamos também num processo para abertura de uma sucursal na Namíbia, e abrirmos escritórios de representação na África do Sul. Estamos a estudar igualmente o mercado do Gabão, República Democrática do Congo (RDC), Congo, Zâmbia e Zimbabwe. O nosso programa de expansão a nível externo vai continuar. A nível de Angola, o nosso banco está capitalizado. Neste momento temos mais de 400 milhões de dólares de fundos próprios, e em Portugal, com 400 milhões de euros, equivalente a 520 milhões de dólares. O banco procura estar em vários mercados de forma consistente, para que, nos próximos tempos, sejamos um banco internacional já de alguma dimensão.

Esta estratégia será concretizada ainda este ano?  

Em Portugal, Cabo Verde e Brasil, ainda este ano, serão concretizados os planos traçados pelo banco. O mesmo sucederá com a Namíbia e África do Sul. Relativamente aos outros países, tenho uma equipa da área internacional que está a visitar os mercados e a estudar, em termos macroeconómicos, a economia destes países, o funcionamento dos bancos e legislação vigente, etc. Vamos fazer propostas com base no estudo de mercado que estamos a efectuar.

A aquisição do BPN foi uma operação difícil?  
Foi. Inclusive obrigou a intervenção dos poderes instituídos, sobretudo os accionistas do banco, que acharam que estávamos a pagar pouco, mas não era esta realidade, na medida em que o  valor era aceitável, visto que o banco passava por enormes dificuldades. Desde que ocorreu a operação em Março do ano passado, hoje, já nos dizem que fizemos uma boa compra. Gostaria de sublinhar que não compramos todos activos: nem os créditos todos, nem os depósitos todos, nem os terrenos, nem os balcões todos. Na verdade, só compramos uma parte do activo  do BPN. Criou-se muita celeuma em torno da questão, inclusive, o assunto passou pelas discussões na Assembleia da República… e lá estivemos e explicamos. Na verdade, é que o BIC Angola era a entidade mais credível para a compra, uma vez que não havia outros compradores com experiência e capacidade que possuíamos.

A administração do banco não se importou com os riscos atinentes à operação BPN?  
Qualquer entidade que seja tem sempre receios, mas a nossa actividade prenhe de riscos. Nós concedemos créditos todos os dias e corre-se sempre riscos. Temos de assumi-los e tentar minimizá-los. Concordaria consigo tendo em conta que em Portugal ainda se vive uma situação difícil, sobretudo em toda a Europa, por causa da crise, mas os países não vão acabar amanhã. Há um ciclo de crescimento e não crescimento, isso é normal em economias. Há período de expansão e de recessão. Eu julgo que este período de recessão está a terminar.

Por que razão o BIC investiu num banco falido?  
Nós compramos o banco por 40 milhões de euros com fundos próprios de 360 milhões de euros. É lógico que estávamos a comprar um banco para manter o posto de trabalho.  
Relativamente às metas que foram anunciadas, o Governo português deve estar hoje satisfeito connosco porque mantivemos os 750 trabalhadores, notificamos 706 balcões e só encerramos 21, o que implica dizer que acabamos de fazer muito melhor do que foi proposto e que foi tão polémico. Em tempos, reuni com o grupo que trabalho para a privatização do banco e notei que as pessoas que estiveram à frente da negociação regozijram-se pelo sucesso do negócio.

Quanto ao BIC Angola?  
Hoje, já somos a maior rede privada do país, em termos de balcões. Muito recentemente, inaugurei mais um banco em Katchiungo, São Pedro (Huambo) e na Conda (Kwanza-Sul). Este ano, já abrimos 12 agências. Durante este mês de Junho, teremos mais agências inauguradas. No conjunto, já possuímos 191. Creio que é altura de se criar incentivos para que se possa abrir mais bancos nos municípios. Vamos continuar a apostar em municípios. O banco é um dos mais importantes do sistema financeiro nacional. Estamos a caminhar bem. Somos o terceiro banco em crédito, o quarto em depósito e o principal a quem os importadores recorrem, além de determos a segunda rede bancária privada, a seguir ao BPC. Ficamos satisfeitos porque também estamos ligados aos principais bancos correspondentes mundiais.  

Em relação aos créditos concedidos?   
Temos créditos utilizados pelos clientes na ordem de 3,2 mil milhões de dólares, em depósito 5,2 mil milhões de dólares e 480 milhões de dólares de fundos próprios.  Quanto ao crédito concedido à economia, está à volta de 2.1 mil milhões de dólares. Cobrimos grande parte da dívida do Estado. Procuramos gerir a nossa liquidez concedendo mais crédito, quer para particulares, empresas, quer para a dívida do Estado, conforme a rentabilidade e as operações que nos aparecerem.

Então, quer dizer que o crédito à economia tende a subir?  
Sim. O crédito devia crescer mais se o Estado negociasse também com os bancos o pagamento das dívidas contraídas às empresas. O banco BIC foi um dos que ajudou a financiar os atrasados. Mas, ainda assim, há muitos clientes que não receberam os montantes prometidos, que já perdura três ou quatro anos. Entretanto, estamos a negociar com o Ministério das Finanças, sobretudo com a Direcção da Dívida Pública, com o Ministério da Economia e BNA, a fim de liquidarmos as dívidas que o Estado tem para com as empresas. Nós estamos em condições de realizar esta operação.
Por exemplo, o programa “Angola Investe” é importante para o país, na medida em que se aplicou juros bonificados, pois permite que a economia se desenvolva. Nós não estamos a conceder muito mais empréstimo nesta modalidade porque a maior parte dos requerentes não tem capacidade para reembolsar ao banco. O que nós queremos é que haja rentabilidade suficiente para que os empresários reembolsem de imediato o crédito. Embora o Estado assuma 70 por cento do risco, o “Angola Investe” acaba por ser sempre um risco para o próprio banco, que, às vezes, assume a 100 por cento o risco. Nós temos que apoiar projectos que sejam viáveis.

O “Angola Investe” deve ser repensado?  
Creio que não. Os empresários devem ter experiência e capacidade para aderir ao projecto. O montante de cinco milhões de dólares é o limite máximo para o empréstimo. Logo, os empresários não devem solicitar inicialmente este valor. O empresário tem que começar com os alicerces. Tem de fazer investimento de forma sustentada para não se criar elefantes brancos. Às vezes, faz-se investimentos grandes e depois constata-se que houve um desmoronamento do negócio. Os empresários sabem que o dinheiro dos bancos pertence aos clientes depositantes.

O senhor anunciou recentemente que vai baixar os juros de crédito de 14 a 9 por cento ao ano para os funcionários públicos. Esta decisão tem alguma viabilidade?  
Nós decidimos criar os juros dos créditos bonificados aos funcionários públicos para atender às suas necessidades. Queremos ter uma outra postura na banca. Nenhum banco pratica uma taxa baixa de juros de 9 por cento ao ano em kwanzas. Todavia, iremos firmar protocolos com diversos organismos, por forma a acautelar esta situação. Queremos evitar o que se sucedeu anteriormente, visto que, depois de se conceder crédito, alguns funcionários públicos, mudaram-se para o BPC. Estamos abertos para apoiar, desde que as contas não sejam transferidas para um outro banco, na fase em que decorre o empréstimo. Os ministérios ou empresas podem estabelecer protocolo connosco para domiciliar os salários dos seus funcionários.

Mas esta decisão resulta de uma concertação com o BNA?
Anunciei esta medida recentemente no Huambo, em resultado de uma decisão tomada pelo Conselho de Administração do banco BIC. O BNA já tem feito apelos à banca para aplicarem taxas de juros mais atractivas aos seus clientes. Foi isso que nós fizemos.

O programa de educação financeira elevou o nível de bancarização?  
Inicialmente, os bancos tinham algum receio de aderir. A  iniciativa do BNA foi positiva, porque fez com que as  pessoas procurassem mais os bancos para abertura de contas com 100 kwanzas.  O “Bankita” aumentou o nível de bancarização em cerca de 25 por cento da população. Nós aumentamos 170 mil clientes no ano passado. Actualmente, estamos com mais de 800 mil clientes. Isso foi bom para a banca devido à expansão da rede.

A implementação da modalidade do regime cambial para o sector petrolífero entra em vigor a 1 de Julho. O banco BIC está preparado para este novo desafio?  

Nós criamos o centro de empresas para petróleo e gás. Na verdade, temos estado a contactar as empresas petrolíferas e de prestação de serviços ao sector, apesar de muitas delas já serem nossas clientes. É uma medida corajosa e muitos bancos estão em condições para trabalhar com os petróleos.

Esta medida vem ajudar na “desdolarização” da economia?  
É importante que não se tomem medidas que deixem as pessoas receosas, mas é necessário saber que a moeda usada em Angola é o kwanza. Aliás, o governador do BNA aconselhou o banco BIC português para começar a utilizar kwanzas nas suas operações. Estamos a organizar-nos a nível de Portugal para que os angolanos que recorram ao banco possam cambiar kwanza em euro. Isso é algo que nos foi sugerido, e estamos agora a criar as condições necessárias para que seja efectiva a sugestão do BNA.

Há um elevado grau de incumprimento do contrato de crédito no banco BIC?  
Nem por isso. Regularmente, realizámos reuniões de acompanhamento e controlo do crédito. Nós procuramos negociar da melhor forma maneira com o cliente. Caso ele não esteja em condições de pagar no tempo definido no contrato, pode fazê-lo num outro período, mas, desde que negocie com o banco. Os bancos têm provisões anuais e não fazem provisões para cobrir os défices resultantes do incumprimento. O incumprimento ao crédito, no banco BIC, não ultrapassa os 2 por cento. Mas, entretanto, grande parte do crédito mal parado é recuperado.

O banco BIC é um dos poucos que financia projectos ligados à agro-pecuária. Existe algum pacote específico para esta área?
Nós financiámos qualquer tipo de projecto, desde que seja viável. Por exemplo, no âmbito do programa “Angola Investe”, apoiámos um projecto de um agricultor na área do Chinguar (Bié). Temos apoiado outros, como o caso da maior fazenda de Cacuco (Malanje). Eu, pessoalmente, sou agricultor, possuo uma empresa ligada à agro-pecuária. Em tempos, ouvi com desagrado, que uma empresa de chineses, em Camacupa, está a produzir arroz quando, na realidade, é meu projecto. Estamos a apostar na agro-pecuária por ser uma área essencial para potenciar a economia nacional e ajudar na diversificação da produção. Angola tem condições para produzir sem que se faça recurso à importação. No ramo pecuário, precisamos de intensificar o investimento. Em conclusão, o Executivo deve intensificar o apoio aos agricultores. Angola tem condições necessárias para desenvolver a agricultura, mas acho que falta
“know how” aos agricultores.