A União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, além de fortalecer o intercâmbio línguístico, torna-se hoje já uma referência na comunidade, pois, intervém no domínio da cooperação descentralizada, através da promoção do desenvolvimento económico, empresarial, formação profissional, finanças, urbanismo e outras áreas de interesse comum. Pelo seu protaganismo na cooperação e desenvolvimento da lusofonia, o Jornal de Economia & Finanças (JE) manteve uma longa conversa com a entidade máxima da organização, Vitor Ramalho, por sinal angolano, natural da Caála (Huambo). Ele considera fundamental apostar-se na estratégia de diversificação da economia angolana para que o país deixe de depender de um único recurso de exportação: o petróleo. “É muito importante que esse objectivo seja prosseguido com a consciência de que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, disse o entrevistado, que fala de vários outros assuntos voltados para acções e projectos definidos para este ano.

Que contributo os Governos da comunidade lusófona têm dado para o fortalecimento da UCCLA?
A UCCLA é uma associação intermunicipal internacional, com 30 anos, e que integra, hoje, 40 cidades dos países de língua oficial portuguesa, incluindo as capitais dos nossos países. As relações são assim estabelecidas com as cidades associadas, o que não significa que instituições públicas, como o Instituto Camões, a própria União Europeia, não apoiem candidaturas que apresentamos, nos mais variados domínios ou até os Governos em casos excepcionais.

É já um projecto que está bastante consolidado desde a sua criação em Lisboa em 28 de Junho de 1985, pelo então presidente da Câmara, Nuno Krus Abecassis?
É a instituição mais antiga do espaço dos países de língua oficial portuguesa, predecessora da CPLP. Levou a efeito projectos muito meritórios. Desde a contribuição para a construção da cidade de Díli, passando pelo saneamento básico em Água Grande, São Tomé e Príncipe, até à ligação de água potável a 13 bairros pobres na Cidade da Praia, não esquecendo a prevenção do combate à sida ou a dengue, passando por encontros de escritores de língua portuguesa, programas de educação para jovens e acções integradas nas redes temáticas da protecção civil, reabilitação e valorização dos centros históricos das cidades, entre inúmeros outros casos.

Que relacionamento existe entre as cidades capitais de língua portuguesa?
O relacionamento é muito estreito, de proximidade, valorizando-se nos últimos tempos a componente económica através da criação de um gabinete, orientado para o efeito, que levou a cabo recentemente o primeiro fórum económico na cidade de Maputo.

Quando é que se criou este gabinete e que acções concretas têm sido realizadas?
O gabinete foi criado há um ano e resultou da análise que a UCCLA poderia aumentar a resposta às múltiplas necessidades pluridisciplinares das cidades, incluindo as de natureza económica através do recurso ao excelente e experimentado núcleo de profissionais que tem e à interacção com as empresas, sobretudo as suas associadas, que podem dinamizar com este objectivo. A partir da sua criação, criou-se uma estratégia que passou inicialmente pela ponderação da avaliação das fontes de financiamento para projectos adequados às cidades no plano internacional, à sensibilização dos responsáveis das próprias cidades com vista à realização do I fórum económico na cidade de Maputo, no dia 17 de Abril do corrente ano, que foi muito concorrido e ultrapassou as expectativas.

Que resultados práticos foram alcançados com este primeiro fórum económico?
No fórum estabeleceram-se encontros bilaterais de empresários, deram-se a conhecer a estes as prioridades de Moçambique no plano económico, o que permitiu aos participantes terem uma visão mais rigorosa do país. Forjaram-se, ainda, parcerias entre cidades de diferentes continentes, utilizando as relações da UCCLA com estas.

Qual é o próximo país em que terá lugar o segundo fórum económico?
Estamos presentemente a ponderar a opção que tomaremos. Para haver eficácia e resultados que não afectam as expectativas só levaremos a efeito um fórum por ano.

Com que base assenta o projecto de geminação das cidades lusófonas?
A geminação das cidades é um instrumento bilateral, de cidade a cidade, não dependente da UCCLA, motivada pelas razões mais diversificadas, com vantagens recíprocas.

Que aconselhamento tem dado para que as cidades se tornem cada vez mais modernas e atractivas aos olhos do mundo?
Nas áreas metropolitanas das grandes cidades há, antes de mais, problemas ligados à prevenção da criminalidade, domínio que estamos agora também a conceder a maior das atenções. Uma agência especializada das Nações Unidas, a UNICRI – Instituto de Investigação Inter-Regional do Crime e Justiça das Nações Unidas, levou a efeito muito recentemente uma parceria com a Câmara Municipal de Lisboa e a UCCLA, onde estiveram presentes representantes de várias cidades para uma abordagem integrada com a sociedade civil e as polícias nacionais de segurança pública ou municipais, quando existam. Vamos continuar com este trabalho, a par da sensibilização da necessidade das cidades de grande dimensão responderem aos problemas do saneamento básico e da mobilidade, num quadro de defesa do meio ambiente e da qualidade da cidade, domínios em que temos grande experiência e técnicos bastante qualificados. Estes domínios estão, porém, longe de esgotar as potencialidades de resposta da UCCLA que se estendem também ao fomento da própria competitividade das cidades individualmente consideradas. Este é um aconselhamento que temos promovido junto dos interlocutores das cidades associadas da UCCLA.

Que avaliação faz do II fórum sobre investimentos em infra-estruturas urbanas em África, realizado nos dias 29 e 30 de Abril de 2015?
Tudo o que tem a ver com esforços articulados sobre investimentos urbanos infra-estruturantes, como foi o caso da realização do II fórum sobre investimentos em infra-estruturas, é do maior alcance. Registei com muito agrado as conclusões a que esse fórum chegou.

A entrega do “Prémio José Eduardo dos Santos para presidentes de Câmara, governadores, administradores municipais e equiparados” serviu para distinguir numa das categorias a cidade de Cabo Verde. É um ganho para a lusofonia?
O prémio José Eduardo dos Santos, Presidente da República, que desde sempre manifestou um particular carinho pela UCCLA, tem um significado que ultrapassa o mero simbolismo. Fomenta as preocupações de altos quadros de Cabo Verde, país que o instituiu com o intuito de reforçar a boa governação e a preservação da qualidade de vida.

Como encara a participação da UCCLA, pela primeira vez, na próxima edição da Filda, que terá lugar de 22 a 27 de Julho?
A participação da UCCLA, pela primeira vez na Filda, tem o propósito exclusivo de dar a conhecer aos milhares de visitantes. Resultou de uma parceria com a Aicep, instituição que é muito importante para o aprofundamento do investimento e do comércio em Portugal. Como sabe, há hoje grandes investidores angolanos em Portugal que muito têm valorizado a economia portuguesa e o inverso, ou seja, investidores portugueses que investem em Angola também ocorre. Essa reciprocidade deve ser acarinhada e nós UCCLA, fazêmo-lo.

Como encara a internacionalização das economias lusófonas?
Hoje nós somos a quinta língua mais falada do mundo, sendo a primeira do Hemisfério Sul. Se olharmos para o Planisfério, vemos que no Atlântico Sul há dois países emergentes da maior importância - Angola e Brasil. Mas também cinco outros que têm o português como língua oficial – Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Portugal e São Tomé e Príncipe, pertencendo cada um deles a espaços geográficos próprios e que se complementam. Se tivermos presente as diásporas dos nossos povos na Ásia, na Oceânia e nos demais continentes, depreenderemos logo a noção do peso que temos à escala planetária, neste único planeta conhecido para nele vivermos. As potencialidades que temos são imensas e há que reforçar a estratégia comum, olhando o futuro com redobrada esperança. Nós somos uma comunidade de interesses e afectos, de cidadãos do mundo, sendo fundamental contribuirmos para o reforço da internacionalização crescente das empresas, vinculada pela cultura universalista e tolerante que é a marca distintiva do que todos somos.

Fruto dos laços históricos e culturais existentes, da dinamização de políticas de cooperação e do potencial das suas economias, o espaço lusófono assume-se, hoje, como uma importante comunidade económica do mundo?
A questão que me coloca nesta pergunta resulta do que refiro na anterior. O espaço da nossa comunidade, de 250 milhões de falantes, pode ser um caso exemplar no mundo. Basta querermos e conjugar esforços.

Como avalia o intercâmbio económico e comercial entre os países da comunidade?
O intercâmbio económico e comercial foi sempre crescendo. Sofre agora, em parte, os constrangimentos decorrentes da queda do preço do petróleo que não deixa de afectar as economias de alguns dos nossos países produtores como Angola, Brasil e Timor e em menor escala Moçambique. Esta realidade é, porém, conjuntural e em breve voltaremos a alcançar patamares de reforço das relações com a diversificação da actividade económica em países como Angola.

Há necessidade de intensificar-se e diversificar o relacionamento no mercado económico da CPLP?
Há essa necessidade, que deve correr “paredes meias” com a efetiva consolidação do estatuto do cidadão lusófono, que incremente ainda mais a mobilidade das pessoas da nossa comunidade, ultrapassando limitações decorrentes das burocracias consulares.

Até que ponto Angola constitui uma potência regional no contexto da África Subsahariana?
Angola já é uma grande potência regional e incontornável no quadro do espaço geográfico subsahariano.

Angola está a acelerar a diversificação da sua economia. Como encara esta estratégia delineada pelo Executivo angolano?
A queda do preço do petróleo veio acelerar a necessidade da economia angolana se diversificar. É muito importante que esse objectivo seja prosseguido com a consciência de que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”. Tanto quanto pude estudar, a estratégia que oportunamente foi adaptada é ajustada. Há, porém, que ter presente que o sector da distribuição é um instrumento precioso para que a diversificação económica se estenda com rapidez a todo o território nacional. Ela ainda é deficiente e parece-me que deve ser melhor cuidada.

O mercado na sua globalidade representa bem as crescentes oportunidades que a lusofonia oferece?
Claro que representa. Aumenta as potencialidades de afirmação dos produtos e serviços que a comunidade pode prestar entre si e a países terceiros.

Portugal é um país resiliente que se modernizou ao longo do tempo criando  melhores condições para as empresas fazerem crescer os seus negócios. É um indicador positivo que os países africanos de expressão portuguesa devem aproveitar?
Portugal valorizou muitos sectores relevantes para a economia. Desde a agricultura, alguma já de excelência, passando pelo calçado e têxteis lar, até às obras públicas e sectores afins, apresenta a melhor qualidade a nível mundial e mesmo em sectores de ponta, de alta tecnologia. Há hoje empresas que são fornecedoras da própria Nasa e é fundamental que o reforço da qualidade da oferta se estenda a outros produtos e serviços como seguramente ocorrerá.