As fusões e aquisições acontecem em momentos muito específicos e por motivos operacionais dos visados, sendo que as fusões devem criar sinergias que, por norma, acrescem o potencial das instituições geradas aumentando assim a sua quota mercado ou abrangendo outros nichos de mercado. Neste momento os operadores existentes devem analisar se de facto apresentam uma carteira de clientes satisfatória para a sua estratégia de ataque, ou se pretendem tomar posições de outros competidores, seguidamente devem comparadas as vantagem entre fundir ou adquirir.

Como avalia o posicionamento da banca na economia nacional?
A banca nacional tem um posicionamento de destaque, como o único intermediário válido entre poupadores e empreendedores (devido à inexistência do mercado de capitais) e tem o papel central no processo de bombeamento do capital para as diversas artérias da nossa economia, promovendo a efectivação dos melhores projectos de investimento.

Este sector pode ser o principal motor do desenvolvimento?  
Neste momento a banca é o motor da economia nacional pelo modelo de desenvolvimento económico escolhido pelo nosso país (economia de mercado com um Estado presente) em que o sistema financeiro, neste caso a banca, surge como o responsável pelo financiamento das empresas e das famílias. Adicionado do facto do actual Executivo advogar a fortificação da classe empresarial privada que só poderá ter espaço de manobra com a ajuda da banca por meio da diferenciação positiva dos bons investimentos.

Que desafios os operadores encaram, atendendo as principais necessidades do mercado?  
De entre os vários desafios dos operadores bancários em Angola, o que mais tenebroso se afigura é a quantidade crescente de créditos malparados, visto que o banco apenas empresta o dinheiro alheio que tem sobre seu cuidado, é de todo muito perigoso, que os devedores dos bancos deixem de pagar aos bancos, o que em larga escala causa desconfiança entre o acordo entre o banco e o poupador. Por outro lado é importante salientar que o presente momento é especial para a banca visto que tem a oportunidade de participar e incentivar o processo de crescimento económico nacional, visto que o estado virgem da nossa economia propicia a entrada de capital no sistema financeiro.    

O momento da banca exige fusões institucionais ou o aparecimento de novos operadores?
As fusões e aquisições acontecem em momentos muito específicos e por motivos operacionais dos visados, sendo que as fusões devem criar sinergias que, por norma, acrescem o potencial das instituições geradas aumentando assim a sua quota mercado ou abrangendo outros nichos de mercado. Neste momento os operadores existentes devem analisar se de facto apresentam uma carteira de clientes satisfatória para a sua estratégia de ataque, ou se pretendem tomar posições de outros competidores, seguidamente devem comparadas as vantagem entre fundir ou adquirir. A margem para novos operadores, depende da resposta que os actuais bancos estão a dar às exigências da economia nacional, não nos esqueçamos do bem que faz a concorrência, ou seja, quanto mais bancos a funcionar maior será a competição entre eles e estes terão de superar-se para melhor agradar/captar clientes.

A carteira de clientes dos bancos ajusta-se ao potencial do mercado?  
É de certa forma difícil avaliar, esta questão, vejamos, os clientes que os bancos mais procuram são aqueles que podem abdicar do seu capital por muito mais tempo, em depósitos a prazo, para que o banco possa emprestar a outros e ganhar com os juros destes empréstimos, nas condições actuais da economia nacional, estes tipos de clientes não aparecem aos montes, porque não vêem ganho algum por deixar o seu dinheiro no banco com taxas de juro passivas inferiores à taxa de inflação. Agravado do facto dos bancos e o sistema financeiro nacional não terem o mínimo “whereabout” da massa monetária em circulação na economia informal, tal facto arrasa qualquer previsão ou estudo financeiro existente. Sendo assim é muito provável que o banco não consiga captar a totalidade dos recursos.

A internacionalização que alguns operadores efectuam é de todo benéfica e oportuna?  
Sim, a internacionalização é sempre recomendável, pois se os melhores neste ramo estão no estrangeiro, o facto de um banco nacional conseguir impor-se além fronteiras mostra que este operador é competitivo e a competitividade apenas chega com a eficiência, sendo que eficiência significa, mais qualidade e menor custo na prestação de serviço. Quem ganha com isto é sempre o cliente final que obtém um melhor serviço e com custos financeiros mais simpáticos.

Que ganhos para os operadores bancários e o mercado financeiro em si resultam da nova lei cambial aplicada às petrolíferas?  
Como já foi dito, esta nova lei deverá ter dois lados para a banca, o primeiro é o lado da lufada de ar fresco, em que deverá entrar muito mais dinheiro para o sistema financeiro devido à obrigatoriedade dos pagamentos em Kwanzas a fornecedores residentes cambiais e no caso de pagamentos a não residentes cambiais deverão ser feitos também por intermédio da banca nacional. Isto é óptimo para a banca, mas o outro lado da moeda é o lado da exigência e responsabilidade, em que os bancos terão de se optimizar operacionalmente para responderem a esta demanda de clientes refinados e com urgência de movimentação de altas somas de capital, ou seja, a banca nacional terá de adequar-se à rapidez dos mercados internacionais.   

 Do lado do regulador, que mecanismos o Banco Nacional de Angola deve introduzir para tornar a banca mais competitiva?  
Como todo bom regulador, o BNA deverá ter a função de supervisionar para que os bancos se comportem correctamente e prestem serviços ao público de forma exemplar, com esta acção estará a fazer com que os bancos melhorem os seus serviços e possam colocar-se no mesmo patamar que os bancos internacionais, que cedo ou tarde estarão a bater à porta nacional para operar. O BNA por outro lado também deverá adequar-se ao que aí vem, pois, o supervisor tem de estar em condições de antecipar ou estar um passo à frente em relação ao supervisionado, e com a entrada eminente de operadores provenientes de paragens mais perspicazes, levanta a necessidade de cuidados adicionais.

O recente aumento do capital social pode ser entendido como uma medida de protecção do sistema?  
Naturalmente, o aumento de capital tem a função de chamar a responsabilidade dos sócios dos bancos que são obrigados a empenhar mais capital próprio nos negócios, o que certamente protege o dinheiro dos depositantes (assim como o sistema) e previne os bancos de fazerem aplicações de ânimo leve, levando-os a manter os rácios financeiros de estabilidade da actividade.  

Como tornar funcional a figura dos correspondentes bancários e outros agentes complementares à prestação destes serviços?  
Penso que uma figura importante para países com redes de serviços bancários em pleno crescimento, pois estes correspondentes serão “contratados” para prestar serviços de natureza bancária, no caso angolano é importante, pois, nem todos os bancos conseguem abrir agências em todo o território nacional, por variados motivos, e o correspondente bancário vai desenvolver alguns destes serviços, criando assim a cultura de “bancarização” o que posteriormente deverá facilitar o processo de aderência aos bancos nestes locais.

A diminuição da oferta de crédito resulta de medidas proteccionistas ou falta de resposta dos bancos?  
Numa opinião muito própria, que pode nem ser tão única assim, defendemos que os bancos emprestam menos porque os projectos e os gestores dos projectos não conferem confiança nem garantias aos bancos, agravado pelo facto de haver uma longa lista de clientes de cobrança duvidosa que ainda assim são renitentes na requisição de novos créditos. Mas, o mais preocupante, em programas criados pelo Executivo para financiar e fomentar o empresariado privado, é a ideia que os fundos emprestados, no âmbito destes programas públicos, não são para serem devolvidos por serem públicos, aí está uma forma de pensar deselegante de agir, pois o Estado como garantidor destes créditos terá de se responsabilizar por estes maus pagadores com dinheiro de todos nós.
 
Como desenhar um cenário de mercado onde os bancos deixam de emprestar dinheiro aos clientes?  
Seria o “encravamento financeiro geral” ora vejamos, tudo começa com a ideia do projecto de investimento, a materialização do projecto em empresa decorre através do financiamento bancário, o funcionamento corrente da empresa necessita de capital circulante que provem do banco, a empresa que está ligada a determinado banco mantém as suas transacções e aplicações no sistema bancário que permite à banca financiar outros projectos, empresas e as próprias famílias. Se o banco deixar de emprestar, os projectos não saem do papel ou do ficheiro de Excel, não se produzem bens e serviços, não se criam empregos, não se pagam salários, não haverá poupança, não haverá investimento e por fim o Estado não capta impostos e não fornece bens públicos. É o chamado fim do mundo financeiro.

Que sectores devem merecer prioridade nos financiamentos bancários?  
Para a nossa realidade a prioridade vai para o básico, após ou imediatamente acima do investimento público, pois quem deve construir estradas, escolas, hospitais, prover e manter a segurança, a energia e saneamento básico é o Estado. Imediatamente a seguir, a revitalização da agricultura, indústria, pescas, distribuição de bens alimentares e outros serviços deveriam estar na ordem das prioridades.

A preocupação crescente dos Estados com o branqueamento de capitais passa pelo controlo mais cerrado das operações bancárias?
Certamente que o branqueamento de capitais tem a banca como principal veículo para as movimentações financeiras, pois as actividades ilegais e até criminosas geram receitas que precisam ser justificadas para entrar para o sistema e constituir meio de pagamento, de um país para outro, neste contexto a banca tem a obrigação de identificar a proveniência destes capitais, através do cruzamento da informação contabilística destas instituições depositadoras, sob pena de deixar entrar dinheiro sujo num país e fazer sair limpo em outro local.

Como conciliar gestão de activos financeiros com direito de sigilo bancário dos clientes?
Não é tarefa difícil unir a gestão de activos de clientes com o seu direito de sigilo bancário, pois o sigilo não protege formas ilícitas de obtenção de capitais, até porque o sigilo não significa esconder o que é ilegal, mas sim manter em ambiente restrito um conjunto de informações de determinados investidores/clientes privados. O banco tem que ter a capacidade de saber separar as águas tendo em consideração que o importante é o bem comum.