A competição continua a ser uma estratégia de sustentabilidade que permite às empresas respondem às exigências do mercado, segundo defendeu o consultor Gonçalves Pereira, que foca nesta entrevista concedida ao Jornal de Economia & Finanças, os avanços assinaláveis no capítulo da reforma jurídica angolana, a fim de promover o investimento privado nacional ou estrangeiro. Por exemplo, disse, Angola gilizou os processos de forma muito significativa através da criação do Guiché Único da Empresa (GUE).

A certificação é um caminho para as empresas assegurarem a qualidade e um passo fundamental para a consolidação da competitividade empresarial, representando um contributo para a sua sustentabilidade e do país. Como encara as oportunidades no ramo da certificação em tempo de crise?

Para que haja competitividade, é necessário produzir melhor e com mais qualidade, se possível ao menor custo, adaptando o produto ou serviço às novas e crescentes exigências do mercado. Actualmente, os clientes em Angola, e em geral, são cada vez mais exigentes devido ao seu nível mais elevado de instrução e de conhecimento.
O mercado global e a concorrência conduz a uma selecção cada vez mais rigorosa dos agentes envolvidos, gerando-se uma necessidade constante de formação dos recursos humanos e melhoria dos processos de produção, quer se trate de produtos ou serviços. A implementação pelos Normativos Internacionais da Qualidade ISO (International Organization for Standardization) 9001, inovação e criatividade são ingredientes fundamentais para a sustentabilidade das empresas.

O mundo dos negócios está atento à diversificação efectiva da economia angolana?

Tudo o que for feito neste domínio reforça, certamente, a credibilidade de uma economia emergente.
A certificação das empresas angolanas é uma oportunidade em tempo de crise, confere credibilização, independentemente do sector de actividade, e apresenta vantagens acrescidas, que lhes permitem concorrer com as empresas estrangeiras e ganhar concursos, particularmente em multinacionais petrolíferas que se encontram no país e que apresentam níveis de exigência elevados.

É em tempo de crise que as empresas aplicam práticas com base num modelo organizacional centrado na gestão por objectivos. Como desenvolver uma metodologia de gestão partindo da racionalização eficiente dos recursos e redução de desperdícios?

A gestão estratégica é a base de posicionamento e orientação para a actuação das empresas junto do mercado a nível interno. Os objectivos estratégicos são os alicerces de um modelo organizacional, consolidados em indicadores concretos e mensuráveis, orientando a actuação da empresa e possibilitando a avaliação adequada do desempenho chave.
O melhor mecanismo para se ter uma gestão cada vez mais eficiente das empresas é o desenvolvimento de «boas práticas» e de princípios éticos de conduta nas relações com qualquer organização pública ou privada.

Mas, há o princípio definido pelo modelo de ´”Corporate Governance?”

Num bom modelo de “Corporate Governance”, as partes interessadas/stakeholders (clientes, fornecedores, accionistas, trabalhadores) são fundamentais. É importante tê-los como parte envolvida para que compreendam os nossos esforços, nos avaliem e nos desafiem, proactivamente.
Entre outros contributos, a optimização da gestão permite a melhoria do funcionamento dos órgãos de decisão, além do aumento da competitividade da economia nacional, partilha de responsabilidades na tomada de decisões e melhora os instrumentos a aplicar que sirvam de bons exemplos e contribuam para a difusão de boas práticas. Haverá também maior flexibilidade, racionalização dos meios, recursos e redução de desperdícios e adopção de estratégias concertadas de sustentabilidade que harmonizem as relações com todos os stakeholders.
O “Corporate Governance” em grandes empresas públicas e privadas pode ser um catalisador da cultura empresarial em Angola, reforçando os mecanismos de controlo de gestão e sustentabilidade.

Nesta fase em que se assiste ao abrandamento da economia angolana, aplica-se ainda a coopetição para permitir produzir ou servir mais e melhor com iguais ou menos recursos?

Ao longo destes anos, Angola procedeu à reforma jurídica dos principais instrumentos de política económica, com vista a promover o investimento privado nacional ou estrangeiro. Por exemplo, agilizou os processos de forma muito significativa através da criação do Guiché Único da Empresa (GUE). Assim, actualmente é possível constituir uma empresa muito rapidamente. O próprio Guichet Único da Empresa, com sentido de coopetição, sempre que necessário, ajuda a elaboração dos estatutos e a outros
esclarecimentos jurídicos.

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E com idoneidade reconhecidas, desde que os projectos se coadunem com a prossecução do desenvolvimento económico do país. Assim, temos vindo a assistir à diversificação da economia com a constituição de empresas de diferentes sectores de actividade, designadamente no agro-alimentar, de origem
nacional ou estrangeira.
A coopetição continua a ser uma estratégia de sustentabilidade que permite às empresas responder às exigências do mercado unindo e partilhando recursos que implicariam custos e riscos muito mais elevados se actuassem de forma isolada. Garante assim maior eficácia e eficiência, chegando a mais clientes, agregando valor e potenciando a projecção das empresas no mercado.

Para garantir a sustentabilidade da produção e prestação de serviços de forma eficiente é fundamental encontrar-se parceiros com experiência e especialização?

Cada vez mais as parcerias nacionais e internacionais são decisivas na sustentabilidade das empresas, quer na produção, comercialização e distribuição dos produtos, quer na prestação de serviços e, em particular, em produtos e serviços especializados.
Atendendo a todos os requisitos que necessariamente têm de ser cumpridos, a parceria entre empresas que possam ser co-responsáveis na produção, comércio ou distribuição e a articulação de conhecimentos e experiências torna-se um factor diferenciador e que potencia a qualidade dos produtos ou serviços, desde que seja assegurada uma cooperação rigorosa e competente. Atendendo ao abrandamento da economia angolana, torna-se imprescindível para a sustentabilidade das empresas que se conjuguem estratégias e se tomem decisões conjuntas, atingindo objectivos finais com minimização de riscos.

Até que ponto a “segurança/qualidade” deve ser encarada pelos gestores para salvaguarda das pessoas, bens ou o meio ambiente?

Quem compra ou quem contrata necessita de certezas e evidências que satisfaçam as necessidades da procura, e conforme referi, a sociedade actual está cada vez mais conhecedora e exigente quanto aos requisitos dos produtos e serviços. Exige garantias que podemos classificar genericamente de “segurança/qualidade” e que visam salvaguardar as pessoas, os bens e o meio ambiente.

Assim, até mesmo no sentido de competitividade para que as empresas se mantenham no mercado com uma imagem credível.

É necessário que os gestores se foquem nas questões da qualidade e segurança, formação dos recursos humanos, orientação para a eficácia e eficiência dos recursos com impacto ambiental.
As empresas petrolíferas, em particular, valorizam significativamente os fornecedores que cumprem regras de “segurança/qualidade”.

Até que ponto a atribuição de certificados de conformidade ISO 9001 ajuda na melhoria contínua do processo produtivo de uma empresa em Angola?

A implementação do Normativo ISO 9001, Qualidade, mas também da ISO 14001 (Ambiente), OSHAS 18001 (Higiene e Segurança) e 22000 (Segurança Alimentar), entre outros, é o resultado de um conjunto de acções internas e externas geridas de um modo estruturado, suportadas por um sistema de gestão eficaz e ajustado à cultura e às necessidades de cada empresa. Este sistema facilita a inovação, promove a monitorização e avaliação de desempenho, conduzindo ao desenvolvimento sustentado. Com um sistema de gestão orientado para a qualidade implementado, a empresa consegue identificar claramente os obstáculos ao alcance dos objetivos delineados e rapidamente implementar acções correctivas e melhorias onde e quando necessário.
Qualquer que seja o objectivo de certificação, a aplicação adequada dos requisitos destas normas conduz a mais-valias que, por si, justificam a sua adopção por um número cada vez maior de empresas, de todas as dimensões e sectores de actividade com vantagens para a economia angolana que precisa de reduzir importações, fomentar e credibilizar a produção nacional.

Quais são as empresas e ramos de actividade que a sua organização certifica em Angola?

A Sinase é especializada no desenvolvimento de sistemas de gestão da qualidade, ambiente, higiene e segurança, acreditação de laboratórios e segurança alimentar (ISO 9001, 14001, OHSAS 18001, e ISO 17025 e 22000), englobando as fases do diagnóstico, formação, concepção, desenvolvimento, implementação e auditoria interna ao sistema, além da implementação de ferramentas adequadas à especificidade da actividade dos clientes e legislação aplicável.
Já trabalhámos no domínio da qualidade com mais de 30 empresas privadas e administração pública em Angola em sectores diversificados como saúde, alimentar e catering, agro-alimentar, segurança de pessoas e bens, indústria vidraceira, construção civil e obras, fiscalização de obras públicas, mármores, serviços, entre outros. Após o apoio à implementação e por decisão da administração de cada empresa o processo de certificação pelos Normativos ISO é requerido junto de uma entidade certificadora internacional e independente e é realizada a auditoria externa, tendo como resultado a respectiva certificação.
A nossa proposta de actuação, formalizada em compromisso no sistema de gestão de qualidade implementado, está orientada para a “criação de valor” nos nossos clientes, através de prestação de serviços de consultoria e formação de um modo personalizado, desenvolvendo soluções inovadoras e específicas para cada cliente, contribuindo deste modo para o aumento da sua eficiência e competitividade, estabelecendo, em simultâneo, compromissos profissionais que se mantém ao longo de vários anos.

Tendo em conta as especificidades e complexidade dos serviços, é possível minimizar ou erradicar por completo as falhas no ramo da saúde?

As unidades de Saúde, em Angola e no mundo em geral, tendem a apresentar uma estrutura cada vez mais flexível centrada nos princípios de racionalidade económica e de melhoria dos cuidados de saúde, através de indicadores objectivos de desempenho, suportados nas novas tecnologias de informação e comunicação.
A falta de planeamento estratégico, a médio e a longo prazo, e a utilização de meios tecnológicos cada vez mais avançados, têm vindo a gerar gastos em saúde muito significativos, traduzindo-se na necessidade de os utilizar de forma racional e economicamente sustentável.

As falhas cometidas em Saúde são muitas vezes irreversíveis, com consequências e custos extremamente elevados?

Sendo a prevenção e a gestão do risco clínico aspectos importantes na diminuição de certas patologias, ausências ao trabalho, mortes prematuras e qualidade de vida da comunidade.
O desafio é permitir oferecer uma resposta adequada, “ prevenir e tratar”, em tempo útil, com eficiência e qualidade, a custos social e economicamente aceitáveis. O serviço de saúde será tanto mais eficaz e consistente com minimização de falhas quanto melhor articular o conhecimento teórico e técnico da ciência médica aos aspectos afectivos, sociais, culturais e éticos da relação entre o profissional e o doente.

A qualidade dos serviços prestados nas empresas públicas, às vezes, deixa muito a desejar. Será que a certificação poderá ser um instrumento precioso para a melhoria no atendimento das instituições estatais?

Decisivamente que sim. O capital humano é decisivo num processo de implementação dos normativos da qualidade, faz parte do processo proporcionar-se as habilitações e a aquisição de competências necessárias para a execução das tarefas com eficácia e produtividade. A sensibilização e orientação para a satisfação dos cidadãos e contribuintes é um princípio fundamental da cultura da qualidade.

O sector petrolífero intensificou a certificação para a melhoria da qualidade, o que implica dizer que as companhias em Angola estão cada mais vez preocupadas?

Cada vez mais as empresas em Angola estão sensibilizadas para a abrangência das normas ISO e para os benefícios que delas advêm e para adoptar a qualidade como factor primordial para a melhoria contínua dos produtos e serviços. O sector petrolífero, em particular, efectivamente intensificou nos últimos anos a exigência da certificação das empresas pelos normativos da qualidade considerando-o como factor decisivo na selecção de fornecedores em concursos públicos. Isto deve-se ao facto de ter reconhecido que este procedimento indica que vão adquirir produtos e serviços mais fiáveis e confiáveis a empresas com reforço de credibilidade, reduzindo o risco de incumprimento contratual.

E no sector agro-alimentar e industrial?

A criação de infra-estruturas laboratoriais, designadamente para análise e controlo de medicamentos, produtos alimentares e matérias-primas importados, a monitorização da cadeia alimentar nacional e a implementação do HACCP (Hazard Analysis and Critical Control Points), bem como os requisitos da Norma Internacional ISO 22000, constituirão a evidência da segurança na saúde e alimentar e a demonstração da obtenção de resultados tecnicamente válidos. Estes sistemas permitirão, entre outras, as seguintes vantagens competitivas: criar uma cultura de boas práticas, fazer bem à primeira vez e facilitar o cumprimento das Normas, assim como melhorar controlo dos pontos críticos. Ainda dar cumprimento à legislação em vigor, melhorar a rastreabilidade, reforçar a competitividade, promover a melhoria contínua e facilitar os serviços inspectivos, padronizar procedimentos, assim como utilizar logótipos da qualidade reconhecidos internacionalmente.

Como avalia a qualidade e o desempenho dos bancos angolanos e outros organismos públicos que dispõem de mecanismos de financiamento para fomentar o desenvolvimento das empresas, particularmente das PME?

Tem havido um forte incremento por parte dos bancos e outros organismos públicos especializados no crédito, nos últimos anos, com avaliação e acompanhamento dos projectos viáveis e condições financeiras muito mais favoráveis, quer em taxas de juro, quer nos prazos de reembolso do financiamento, o que tem contribuído para a diversificação da economia através das PME.
Consideramos que seria importante melhorar a avaliação dos projectos bem sucedidos e outros menos sucedidos para introduzir a todos os níveis e nos vários sectores de actividade indicadores sistematizados de avaliação nas diferentes entidades financiadoras e particularmente nas públicas.

Pelo trabalho que desenvolvem em Angola, os laboratórios já possuem o reconhecimento necessário?

Ainda são muito poucos os laboratórios certificados e acreditados por organismos de acreditação internacional e independentes, tanto no sector público como no sector privado. Por exemplo, nas áreas da saúde, alimentação, águas, entre outras é crucial que estejam em vigor princípios baseados em precauções e regras de rastreabilidade que controlam as condições de toda a cadeia até à disponibilização do bem ou serviço tendo em vista a protecção e segurança dos cidadãos.
A acreditação dos laboratórios evidenciará que estes executam as actividades com rigor garantindo resultados mais fiáveis.