Natural de Cabinda, Henrique Bitebe defendeu recentemente a sua tese de doutoramento em Engenharia e Gestão Industrial pela Universidade de Beira Interior, Portugal, onde apresentou um estudo aprofundado sobre o estado actual da indústria angolana e algumas propostas para o seu desenvolvimento sustentável.
Actualmente, é professor da Faculdade de Economia da Universidade 11 de Novembro. O JE ouviu algumas das suas teses, onde entre outras, defende o estabelecimento de mecanismos de garantia financeira para empresários angolanos ligados a “start ups”.

Como avalia o estado actual da indústria angolana?
Durante a pesquisa que efectuei entre 2009 e 2017, percebi a existência de vários planos estratégicos. Um dos planos identificados foi o de Médio Prazo 2009-2013. Segundo o Ministério da Indústria (2007), o plano foi concebido para materializar as acções no domínio da indústria transformadora previstas na Estratégia de Desenvolvimento de Longo Prazo – “Angola 2025”, sendo o seu objectivo a promoção do desenvolvimento industrial a nível nacional assente num desenvolvimento sustentável, contribuindo, assim, para a satisfação das necessidades básicas da população e o desenvolvimento equilibrado e equitativo do país. Importa ressaltar que a estratégia de desenvolvimento a longo prazo impulsionou de 2005 a 2013 mudanças significativas ao sistema económico angolano com um crescimento entre 18 e 20 por cento do Produto Interno Bruto (PIB). Ainda do ponto de vista positivo assistiu-se a uma dinamização na reconstrução de infra-estruturas e do processo de diversificação da economia.
Do ponto de vista negativo, em particular 2014 até à data, como consequência da crise conjuntural (razões exógenas) e estrutural (razões endógenas), assistiu-se a um desequilíbrio nas contas do Estado. Havendo desequilíbrio originou a paralização de quase tudo em Angola afectando drasticamente o tecido industrial nacional considerado crónico às importações.
O que acha que faltou para o crescimento da indústria angolana?
Em 2005/2013, houve algumas melhorias na actividade económica. O período foi determinante para elevar o comportamento e a atitude dos agentes privados, bem como o crescimento da economia nacional. A aprovação da Lei de Bases do Investimento Privado, aliado ao impacto da paz, proporcionou maior confiança aos investidores privados. Independentemente do esforço do Executivo angolano, considera-se ter faltado o envolvimento no cenário da diversificação da economia a vários aspectos importantes, como é o caso da inserção dos tecnocratas, da aposta na espionagem industrial, na formação do homem, na criação de infra-estruturas sólidas para o suporte e especialização industrial, bem como na atribuição de financiamento nas 17 províncias, com maiores oportunidades no sector produtivo visto que Luanda é tida como o “papa tudo”.

Há exemplos que pode partilhar?
É o finaciamento disponibilizado pelo BDA até 2017, no qual 97 por cento foi alocado para a capital do país e três ficou para as 17 províncias. O outro erro segundo a nossa perspectiva reside na crença de que quem vive no Futungo ou Mutamba (Luanda) pode criar o modelo de desenvolvimento sustentável de Angola e que os estrangeiros são a força motriz da sustentabilidade económica, nada contra estes, mas, engana-se quem assim pensa.

O que se pode fazer para que a indústria angolana renasça das cinzas?
Para um desenvolvimento sustentável da economia a médio e longo prazo, o Governo angolano precisa de prosseguir com um conjunto de objectivos específicos e interligados, nomeadamente apoiar a valorização dos recursos naturais, contribuir para o equilíbrio das trocas com o exterior, participar na satisfação das necessidades básicas da população e promover o desenvolvimento de tecnologias que privilegiem o uso intensivo da mão-de-obra.

Que estudos fez sobre a indústria angolana?
Nos meus estudos enquanto investigador, procurei compreender o modelo implementado pelo Governo para aferir se este responde às necessidades e aos desafios de todas as províncias do país. Procurei também identificar os factores que podem contribuir para a dinamização do desenvolvimento da indústria angolana.

A que conclusão chegou?
Em todas as investigações que fiz concluí que a dinamização da indústria angolana exigirá uma interacção entre o conhecimento científico e o tecnológico, o fomento de políticas de investigação e desenvolvimento, a criação de mais parques industriais capazes e eficientes, além do apoio massivo na aquisição de equipamentos, reduzindo assim as dificuldades na importação dos mesmos. Concluí também que será necessário o fomento de criação de instituições financeiras com liquidez para atenderem ao tecido empresarial nacional e regional, o estabelecimento de mecanismos de garantia financeira para empresários angolanos ligados a “start up’s”, assim como a criação de infra-estruturas de apoio à produção industrial, com realce para o abastecimento de água, fornecimento de energia eléctrica, rede viária, dinamização da rede logística inter-regional de Cabinda ao Cunene e do mar ao Leste.

Como é que este estudo pode ajudar o país?
Talvez seja um estudo pioneiro sobre “o empreendedorismo e desenvolvimento industrial de Angola”, mas tem uma abordagem profunda sobre os modelos de desenvolvimento industrial dos países mais avançados como são os casos dos EUA, da França, Almanha, Inglaterra, China, Brazil e Coreia do Sul, tendo como maior destaque à China, por se tratar do maior financiador da economia nacional e um modelo da sustentabilidade industrial. Os estudos feitos resultaram na elaboração de dois livros que tão logo conseguirmos apoio, poderemos publicar e realizar uma conferência nacional sobre o empreendedorismo e desenvolvimento industrial. No estudo fez-se ensaio de um modelo sobre a integração industrial da província de Cabinda, a partir do qual pode se estudar qualquer das províncias. O maior desafio neste momento é fazer chegar a obra aos Ministérios da Economia e do Planeamento, da Indústria, associações
empresariais e universidades.
Como enquadra o seu trabalho mais recente em Cabinda?
Os estudos elaborados visaram sobretudo compreender a sustentabilidade dos projectos industriais em Cabinda, compreensão da estrutura económica, dos recursos financeiros disponibilizados e os seus resultados. Penso que é um ponto de partida para um novo paradigma do desenvolvimento industrial em Angola e particularmente de Cabinda. Em abono da verdade, tal como as outras províncias de Angola, Cabinda não reconheceu projectos industriais sustentáveis pelo menos até agora.

Na sua visão o que é que falta?
O sistema logístico e a falta de clareza de um modelo de gestão quanto à especificidade do enclave, tem estado na base do retrocesso, tornando a província um espaço de lançamento de pedras e de obras paralisadas à espera de um empurrão. Hoje, vê-se uma nova dinâmica governativa em rever as infra-estruturas básicas como estradas ao redor da cidade, energia e água, assistência medicamentosa nos hospitais públicos. O dilema está no sector económico onde os empresários estão todos falidos, as pequenas e médias empresas estão quase todas fechadas estimulando assim o desemprego e a criação de focos de delinquência. O estudo em causa traz novos elementos para quem quer investir no sector industrial em Cabinda, porque poderá encontrar um guia através de coeficientes de integração do sector à base, a montante e a jusante.