Associação de Empresas de Comécio e Distribuição Moderna (Ecodima)tem como meta ampliar e internacionalizar o sector da distribuição moderna, segundo o seu presidente Raul Mateus. Em entrevista ao JE, o responsável também proprietário do supermercado Pomar Belo, disse que os associados estão a iniciar o processo de exportação de alguns produtos “Made in Angola” para países como Portugal e a África do Sul. Considera que a produção nacional ainda é insuficiente para substituir a importação de determinados produtos essencais.

Como caracteriza hoje o sector do comércio e distribuição no país?

Não é novidade para ninguém que a situação económica teve reflexos também para o sector da distribuição como é óbvio. O Estado perdeu bastante receitas e isso reflectiu-se no investimento público e no aumento do endividamento, com consequências graves para as empresas que têm agora o desafio de readaptar-se ao actual cenário. As famílias e os cidadãos perderam o poder de compra com o aumento da inflação. Portanto, o clima económico e financeiro é um desafio para qualquer empresa, visto que todas necessitam de ter acesso às mercadorias, nalguns casos matérias-primas, do exterior com qualidade internacional e isso tem um impacto na nossa estrutura de custos. Há escassez de divisas e a desvalorização do Kwanza criou mais constrangimentos a nível da importação, pondo em causa a viabilidade de muitas empresas angolanas que actuam no sector do retalho e comercialização de produtos básicos e essenciais para o bem-estar das famílias angolanas. Apesar dos esforços que as empresas vão fazendo para a diversificação das suas iniciativas empresariais, com realce para a aposta na agricultura, a produção nacional ainda é insuficiente para substituir a necessidade de comprarmos certos produtos no exterior.

Quais são as principais dificuldades com que o sector se debate nesta altura?

O acesso às divisas, excesso de burocracias, a pressão fiscal, inspecções de mercadorias feitas de modo desconforme, o balúrdio que se cobra nas análises da Bromangol (são das mais caras do mundo) se comparadas com outros países, o excesso de informalização da actividade económica e ainda o concorrente informal colocados à porta dos nossos estabelecimentos. Continuamos a ter alguns problemas a nível de recursos humanos, de energia e água, o que tem afectado a nossa estrutura de custos havendo ainda a necessidade de se recorrer às cisternas e aos geradores. Por isso, temos de melhorar significativamente o ambiente económico e isso não passa apenas por fazermos leis. Estas são importantes, mas é mais importante a sua implementação. Daí que é preciso um maior engajamento pleno do Estado para que as empresas possam florescer, gerar empregos, pagar impostos e terem lucros para que possam investir mais.

Na sua visão, este segmento de mercado já tem a qualidade desejada?

Num contexto em que precisamos urgentemente de diversificar a nossa economia, o sector da distribuição deve servir para alavancar o sector da agricultura e da indústria, pois é o comércio que leva até ao consumidor todos os produtos dos outros dois sectores. Importa realçar que a distribuição, comparativamente aos outros dois, regista maior crescimento e desenvolvimento. Deve ser dada a devida atenção a este importante sector do comércio e distribuição, não só pelas razões já enunciadas, mas também por ser o sector privado que mais emprega, e é o segundo maior contribuinte fiscal.

Como é que vê o surgimento de novos players, como é o caso do Candando que em pouco conta já com duas superfícies comerciais em Luanda?

O Candando é membro da Ecodima, e como tal, vimos com bons olhos o surgimento e expansão da rede comercial dos nossos associados, pois, além de gerarem mais postos de trabalho, permite também absorver o mercado paralelo pela qualidade do serviço e conforto que uma infra-estrutura moderna pode propiciar aos clientes. O alargamento da rede comercial absorve de forma natural o mercado paralelo e é sinónimo de vitalidade destas empresas, o que é bom para a nossa economia. Quanto melhor estiverem as nossas empresas, menor será a actividade informal sendo que grande parte das pessoas que estão na rua perdeu os seus empregos devido à actual conjuntura económica por que as empresas foram forçadas a redimensionar o seu pessoal e outros custos. Por outro lado, esta expansão do Candando deve estimular a concorrência entre os nossos associados, seja entre os grandes, seja entre os pequenos e médios.

A Shoprite continua a ser a única cadeia internacional de hipermercados a actuar no país. É uma preocupação da associação a entrada de outras marcas no mercado local de modo a impulsionar a competitividade e a criação de empregos?

Se olharmos para uma presença directa sim, mas se considerarmos a presença indirecta por parcerias, então iremos notar a presença de outras cadeias de distribuição internacional, principalmente oriundas de Portugal, Espanha e França. Acreditamos que haverá mercado para a entrada de outras marcas e a evolução da nossa situação económica ditará este movimento.Além disso, a Ecodima não reúne apenas empresas de distribuição alimentar, vulgo supermercados. A nossa associação é muito mais abrangente, pois abarca a distribuição alimentar e não alimentar onde se incluem segmentos como construção, mobiliário, medicamentos, equipamentos e outros. Temos vindo a crescer bastante em termos de associados e as empresas que apresentam as suas candidaturas passam por um crivo, por forma a que possamos ter na Ecodima, por um lado qualidade e não quantidade, embora queiramos ter maior representatividade, mas por outro, as empresas que de facto contribuam para que haja um sector comercial moderno e com impacto económico. Contudo, impulsionamos a competitividade, geramos
empregos e de receitas.

Há quanto tempo está à frente da Ecodima e que balanço é que faz?

Estou à frente da associação há mais de um ano, e o balanço que faço é positivo. Conseguimos concretizar algumas metas do nosso programa, mas vamos continuar a trabalhar com os nossos associados e com o Executivo em prol do desenvolvimento do sector do comércio.

Quais são os projectos da associação a fim de tornar o sector mais dinâmico, sobretudo a nível da África Austral?

Ampliar e internacionalizar o nosso negócio é de facto a meta que almejamos alcançar num futuro breve. Os nossos associados estão a iniciar o processo de exportação de alguns produtos “Made in Angola” para países como Portugal e a África do Sul. A agricultura é sazonal pelo que, neste momento, os produtos fora de época nestes países serão produzidos cá em Angola em parceria com empresas sul-africanas e portuguesas para a sua posterior exportação destes mesmos produtos para estes países. Assim, os bens fora de época de produção nacional serão importados destes países. Com isto, estaríamos a reduzir os nossos custos operacionais, pois que importar destes países fica mais barato em função da relação histórica e de proximidade cultural e geográfica. Por outro lado, aproveitaríamos o frete para exportar para estes países produtos que lá se encontram fora de época, e que cá encontra-se em quantidade e qualidade para a respectiva exportação e assegurar uma fonte alternativa
de arrecadação de divisas.

Mas isso se vai processar em quanto tempo?

Praticamente temos criadas as condições para o arranque da nossa internacionalização nos moldes já referidos, e deste modo, estaremos também a diversificar o nosso risco e a nossa economia. Estamos a estimular os nossos associados a apostarem igualmente na produção industrial e acreditamos que poderemos sentir alguns resultados também em breve. Posso dizer-lhe que a Ecodima tem servido como plataforma para estimular bastante o diálogo e concertação a nível empresarial.

A associação tem informações do número de postos de trabalho criados no sector da distribuição no país?

A nível da nossa associação são cerca de 20 mil postos de trabalho, mas o número deverá ser relativamente maior porque o sector da distribuição não se esgota aos membros do ECODIMA.

A Ecodima tranquilizou recentemente os operadores económicos e os cidadãos quanto à normalidade do abastecimento de bens alimentares no mercado interno em função da ocorrência de incêndios em importantes unidades logísticas dos associados, como o Megacash, Kinda Home, Candando e Shoprite. Que estratégias foram gizadas?

Foi de facto com bastante consternação que tomamos conhecimento da ocorrência destes incêndios que assolaram os nossos membros acima identificados, pelo que solidarizamo-nos com os mesmos. Mantivemos um fraterno diálogo com as autoridades competentes para a investigação das causas que estiveram na origem dos incêndios de quem recebemos a garantia de engajamento para o efeito. Vamos todos aguardar o relatório final das investigações por forma a se tomar medidas que visem prevenir estes acontecimentos. Ademais, a componente de seguros teve um papel importante para mitigação de efeitos perversos na estabilidade do negócio destas empresas, ao mesmo tempo que foram encontradas alternativas para salvaguardar o abastecimento à população.

O sector privado é decisivo para o rápido crescimento da economia nacional, sobretudo no actual contexto macroeconómico do país. O que se pode esperar do sector da distribuição perante este cenário?

O sector da distribuição é a alavanca do sector produtivo, assim, ela desempenha um papel fundamental para o crescimento e desenvolvimento do sector produtivo e industrial, e concomitantemente, o crescimento da nossa economia nacional.