Assuntos da actualidade angolana e mundial dominaram a conversa que mantivemos com o especialista brasileiro ligado ao ramo da gestão estratégica. Lúcio da Fonseca esteve recentemente em Angola, para moderar o tema sobre “as novas perspectivas para os profissionais de engenharia e para o desenvolvimento de Angola”, respondendo a um convite formulado pela Ordem dos Engenheiros de Angola. O evento (quartas jornadas técnico-científicas e sextas da agro-silvo pastoris) realizou-se na província do Uíje, onde se aproveitou à margem da actividade, interceder o convidado.  

Até que ponto os indicadores que se registam em Angola abrem excelentes perspectivas de crescimento da sua economia?  
As perspectivas podem ser traduzidas por oportunidades, pois Angola tem vários problemas de saneamento, energia e águas, ambiente, etc. Tudo isso são problemas, mas também são oportunidades. Para uma pessoa empreendedora cada problema é uma necessidade a ser resolvida. É desses problemas que Angola deve priorizar nas suas estratégias de desenvolvimento, a fim de criarem-se novas oportunidades. A liberalização do mercado permite alcançar uma verdadeira independência económica, quando Angola for capaz de produzir bens de maior valor agregado. Não se deve depender exclusivamente do exterior para abastecer o mercado angolano. Com a intensificação da produção interna, haverá maior oferta e isso ajudará no atendimento das próprias necessidades do mercado e poder-se-á livrar-se da dependência estrangeira. As políticas criadas pelas autoridades angolanas têm sido boas, seria bom que Angola investisse mais no seu capital humano - qualificação de pessoas).  

Já existe uma estratégia nacional de diversificação da economia angolana?
Correcto. Mas esta política será que está a ser bem direccionada ou aplicada? É fundamental a existência de políticas desta natureza, pois permite que se acabe com a dependência externa. Defendo que devem ser bem aproveitados os recursos financeiros resultantes da produção do petróleo e do diamante para que no futuro Angola consiga atingir níveis altos de crescimento na região. Angola tem recursos minerais capazes de catapultar a economia. É preciso pensar-se depois na era pós-petróleo.

Neste caso, precisa-se também de um plano estratégico?
Exactamente, ajuda na melhoria dos indicadores, sobretudo saber onde estamos e onde pretendemos chegar.

Os programas económicos elaborados têm favorecido a todos...
Precisa-se de fortalecer a classe empreendedora local. Pois, eles aceitam assumir riscos, investem com o seu próprio capital para gerar emprego e  novos produtos ou serviços. Num primeiro momento, este empresário precisa de qualificação para começar e para que saiba fazer um bom plano de negócio e um bom planeamento estratégico; para que saiba fazer uma melhor leitura do mercado ele precisa de um impulso inicial, que pode ser económico através da abertura de uma linha de financiamento com taxas de juro mais baixas com prazos não muito dilatados. A  qualificação e o financiamento são dois elementos essenciais para as accões empreendedoras.

Angola tem programas que visam incentivar a classe empresarial com iniciativas dinâmicas do Ministério da Economia. Tem conhecimento disso?
Sim. Tenho conhecimento de várias iniciativas. Quando disse que estamos longe de atingir as metas de desenvolvimento, referia-me à concretização na prática dos planos elaborados. Primeiro, muitas das vezes, as iniciativas começam e não têm uma continuidade. Segundo, os planos são fantásticos e nunca saem do papel.

Disse que os planos de desenvolvimento nem sempre vão de encontro com as expectactivas das populações?
Isso não acontece somente em Angola, mas de forma generalizada nos países emergentes ou em desenvolvimento.
Na verdade, um país não é rico porque tem o PIB elevado, mas é rico se as condições sociais e económicas estiverem estáveis, como a educação, saúde, emprego, etc. É também rico se o povo for capaz de gerar os seus próprios recursos, apoiados pelo Governo para a geração de empregos (não criados pelo Governo, por via do incentivo às iniciativas empresariais). O que acontece com os países em desenvolvimento? Eles acham que têm que continuar a comprar petróleo, minério de ferro, diamantes e outras commodities a um valor muito baixo. Eles estão mais avançados que nós, daí que se aproveitam das nossas fragilidades para multiplicarem os seus rendimentos. A maior parte dos mais evoluídos inunda os países subdesenvolvidos com produtos que muitas das vezes não necessitam fazendo por preços muito altos, enquanto a nossa moeda mantiver precária. A solução passaria pela qualificação dos nossos quadros para que possamos competir com igualidade de condições com as demais nações mais desenvolvidas.

Como avalia o desenvolvimento da área de comunicação viária em Angola?
Angola teve uma grande evolução, pois já se viaja livremente em toda a sua extensão territorial. Construir estradas é bom, mas também se deve apostar na rede de transportes colectivos (públicos) e não no transporte individual. Em Luanda, deve-se criar faixas exclusivas para autocarros, investir sob leito de metros, sejam eles subterrâneos, sejam de superfícies, porque são meios que transportam uma quantidade de gente numa velocidade muito grande, ao contrário de automóveis.

O nosso Ministério dos Transportes já está a analisar esta questão e, inclusive, há já estudos neste sentido…
É bom que existam estudos. A questão que defendo é o facto de os projectos serem bem elaborados e não se conseguir pô-los em prática. Será que é a interferência de interesses? Os taxistas que mais reclamam quando se fala disso podem estar incorporados em cooperativas de candongueiros, que poderiam gerir o transporte privado local. Porém, se já existe um plano para implantação de metros em Angola, é um meio caminho andado. Agora, deixemos os interesses pessoais de lado, porque  não ajudam nenhum país a desenvolver.

Concorda com a afirmação segundo a qual os países emergentes nunca chegarão ao grupo dos mais avançados devido às interdependências económicas e financeiras?
Concordo em parte. Mas, serão condenados a isso. Tem que se acabar com a ilusão de que os países em vias de desenvolvimento ou subdesenvolvidos têm de vender as matérias-primas  a preços baixos no mercado internacional. É irrisório pensar-se que os recursos minerais disponíveis nos países africanos e não só devem servir os mais avançados. Eles estão a comprar tudo, essencialmente o petróleo, diamante e as terras cultiváveis, pois no futuro será invertida esta tendência de negócios, já que  eles é que passarão a vender-nos, porque estamos a comercializar tudo. Creio que é uma questão de mentalidade que é necessária. Nós podemos escolher o nosso destino.
Será que queremos continuar a ser colonizados, vendendo todas as nossas riquezas a custo baixo? Por que razão o Brasil vende minérios de ferro com meio centavo de dólares e compramos um quilo de ipad por 1.000 dólares? O Brasil tem enviado para o exterior 10 toneladas de minérios de ferro que servem para a compra de um ipad. É isso que nós queremos? Temos que desenvolver pesquisas em termos de ciências e tecnologias autóctones, não fechando as portas ao mundo, mas aprendendo com eles. Devemos começar a incrementar acções a nível interno e apostar em produtos com maior valor agregado para que possamos evitar comprar no exterior produtos altamente onerosos para os países. A solução passa obrigatoriamente pelo investimento das capacidades humanas e defesa das estratégias correctas para que possamos fortalecer-nos e estarmos em pé de igualdade com as nações mais desenvolvidas.

Mas, tornar-se-á difícil acabar-se com as interdependências, pois os países avançados vão continuar a dominar o mundo…
Temos que caminhar por uma interdependência justa e equilibrada, em que um não explore o outro; em que um colabore com o outro, aquilo que se chama de sociedade 3.0 (três ponto zero). É preciso definir a matéria-prima em estado bruto que os países menos avançados fornecem. Eles transformam-nos e devolvem-nos para os países fornecedores, mas já de forma trabalhada. Por exemplo, o Brasil exporta uma tonelada de minério de ferro para a China por 120 dólares. E esse minério é transformado em trilhos para comboios e nós compramos da China por 800 dólares. Custa oito vezes mais do que o valor inicial. Nós podemos subir o preço para 400 dólares por tonelada, mas o mercado mundial não paga o preço que você quer. Precisamos de desenvolver uma pesquisa ou criar investigadores nacionais que possam desenvolver soluções e adequar à realidade de cada país. Os nossos produtos devem ir lá fora com a agregação de valores.   

Disse que tem vasta experiência na área educacional do Brasil, mas veio a Angola falar sobre as engenharias…
Boa pergunta. Quase todos fazem esta pergunta. Hoje, temos as condições necessárias para sermos especialistas em tudo, porquê? Nós temos uma ferramenta extraordinária, que é a internet, na qual pode-se encontrar diversas informações, sobretudo pesquisar a mais fantástica ferramenta que Deus nos deu, que é o nosso cérebro (inteligência). Na verdade, o conhecimento é compartimentado em disciplinas e áreas, mas, na verdade, ele é único. Quando nós falamos por exemplo da interdependência na geo-económica, estamos a falar de ser bom, viver em sociedade e trabalhar juntos. O ser social e os sistemas técnicos estão interligados, pois a tecnologia e engenharia são uma forma de resolução de todos os nossos problemas. Então, o humanismo e a tecnologia têm que estar juntos.