O embaixador da Rússia acreditado em Angola, Vladimir Tararov, assegurou ao Jornal de Economia & Finanças que as relações económicas e políticas entre os dois estados decorrem a bom ritmo, razão pela qual o Presidente da República Federativa russa, Vladmir Putin, convidou o seu homólogo João Lourenço a visitar a Rússia em Abril deste ano. Durante esse encontro, as partes pretendem discutir o reforço da cooperação no domínio de formação de quadros e a construção da base para a manutenção de helicópteros e outros aviões na região. “Com a corrupção não é possível o desenvolvimento de um país. A corrupção destrói tudo. O homem corrupto não dedica o seu esforço para o bem do Estado”, revela nesta entrevista o embaixador russo.

Que avaliação faz ao estado das relações entre Angola e Rússia?
As relações entre os dois países são históricas. Começaram antes da Independência da República de Angola. Em 1966 a Rússia recebeu o primeiro contingente de estudantes angolanos para formação superior, nas diferentes áreas do conhecimento. A Rússia contribuiu não só para o alcance da Independência de Angola, como, também, na construção de um Estado independente e desenvolvido, criando uma base sólida nas relações entre os dois Estados. Neste momento, decorrem diligências para reforçar as relações económicas e culturais.

Existe alguma intenção em aumentar o investimento russo em Angola?
Sim, com a criação de novos instrumentos legais. Em relação ao investimento estrangeiro em Angola, estão lançadas as bases para o reforço das relações económicas entre os dois países. Como resultado, realizaram-se recentemente dois fóruns empresariais entre Angola e a Rússia. O primeiro encontro teve lugar na Rússia e o segundo em Luanda. Durante os dois certames, foram identificadas as oportunidades de negócios entre os dois países e os empresários estão a analisar as propostas recebidas. Nesta altura, as atenções da Rússia vão incidir nos sectores da Agricultura, Pescas, Pecuária e Indústria. Por exemplo, além da captura do pescado, a Rússia quer apostar na transformação e conservação do pescado para o consumo interno e, quiçá, ajudar Angola a exportar para a região dos Grandes Lagos, Namíbia e o vizinho Congo Brazaville.

Quanto ao sector diamantífero?
Em 1991 ninguém acreditou que angolanos e russos podessem instalar uma empresa no sector diamantífero, na Lunda. Sabemos que a Lunda Norte dista aproximamente 1.200 quilómetros de Luanda. Foram grandes sacrifícios e heroísmo consentidos pelos dois Estados. Na altura, as máquinas e os equipamentos foram transportados em condições muito adversas e criou-se uma empresa mista, que hoje gera lucros recíprocos.

Qual foi o resultado em 2018, nos projectos diamantíferos em que Angola e a Rússia são parceiros?
Na parte angolana não sei. No entanto, sabe-se que a sua contribuição no Orçamento Geral do Estado (OGE) é cada vez mais significativa. Quanto à Rússia, posso lhe assegurar que o país dispõe de uma indústria diamantífera muito desenvolvida e a ALROSA, que representa os interesses russos no segmento dos diamantes em Angola, detem 9,00 por cento do total de produção. O nosso interesse é apoiar o desenvolvimento socioeconómico de Angola.

Há muitas empresas russas a operar no mercado angolano?
Temos poucas empresas russas no mercado angolano. Agora vamos reforçar os laços entre os dois países e acreditamos que o futuro promete.

Perspectivas em relação à formação de angolanos para este ano?
A formação de quadros angolanos na Rússia sempre foi uma prioridade. Anualmente, o Governo Russo disponibiliza 130 bolsas de estudo. Para o ano lectivo 2018/2019 foram enviados 123 bolseiros. Estudam na Rússia aproximadamente três mil angolanos nos diferentes segmentos de ensino. Actualmente, o Governo Russo está a registar alguma dificuldade em enviar estudantes para a Rússia, pois, no passado, o Instituto Nacional de Bolsas de Estudo de Angola assegurava as passagens. Nos últimos dias, deixou de cumprir com essa obrigação.

Haverá incremento no número de bolsas?
Desde o ano passado que os candidatos à bolsas de estudo na Rússia estão a ser obrigados a recorrerem a fundos próprios, para financiarem a viajem. Uma vez na Rússia, o nosso Governo assegura a formação, o alojamento, a alimentação e um subsídio mensal equivalente a 30 dólares norte-americanos. O custo anual da formação superior na Rússia ronda entre 2.500 e 4 mil dólares ano.

Existem outros projectos onde a Rússia apoia Angola?
A Rússia investiu na criação de um laboratório de agricultura, na região centro e sul do país, orçado em mais de 240 milhões de dólares, para potenciar a produção científica de cereais em Angola. Além desse projecto, a Rússia fornece sementes na região centro e sul, destinadas a aumentar os níveis de produção de cereais, com destaque para o milho. São sementes adaptadas às condições climáticas do país.

Recentemente, a Rússia manifestou a intenção de montar uma base para manutenção de helicópteros militares em Angola. Em que pé está esse projecto?
A Rússia detém um número significativo de helicópteros em Angola. Pelo que, considera-se importante montar uma base para a manutenção, o fornecimento de peças e sobressalentes, para manter a operacionalidade dos equipamentos. Trata-se de uma iniciativa conjunta, pelo que, a sua efectiva execução está a depender do interesse dos dois países. Temos certeza que esta base não vai trabalhar apenas para Angola, mas deve apoiar a manutenção de helicópteros e outros aviões, a nível de toda a região.

Que passos foram dados?
Está em vista a deslocação do Presidente da República, João Lourenço, à Rússia, a convite do seu homólogo Vladmir Putin, em Abril deste ano. Espera-se estabelecer vários contactos e acreditamos que este assunto também será colocado à mesa das negociações. Entre as partes, há essa vontade de se materializar esta iniciativa. Isto já foi demonstrado. No entanto, precisamos trabalhar para colocar o projecto em marcha.

Quantos cidadãos russos vivem hoje em Angola?
A comunidade russa em Angola é muito reduzida e ronda os 800 cidadãos.

Fale-nos da participação russa em acções de responsabilidade social nas comunidades angolanas?
A Rússia desenvolve várias acções de responsabilidade social em Angola. Durante o mês de Dezembro de 2018, por exemplo e através da Associação de ex-estudantes na Rússia e nas ex-repúblicas socialistas, foram investidos mais de 10 milhões de kwanzas em doações. Os bens foram entregues ao Lar da Terceira Idade do Zango e em dois orfanatos, nos arredores do Zango, em Luanda. No dia 16 de Fevereiro, vamos deslocar-nos à província do Cuanza Sul, concretamente na sua capital Sumbe, para doar material escolar aos alunos do primeiro ciclo.

Ao ser nomeado embaixador em Angola, teve uma expectativa. Corresponde à ideia que teve?
Eu tenho um caso especial, pois, já trabalhei em Angola no período entre 1991 e 92, numa altura em que a União Soviética também trabalhou para a criação do Estado russo - a República Federativa da Rússia. Fui representante da Rússia na Comissão Conjunta Político-Militar (CCPM), em 1992. Entre os garantes da estabilidade das negociações no país, na altura, estavam a Rússia, Portugal e os Estados Unidos de América. Trabalhamos para as eleições de Angola de 1992. Na altura, Luanda tinha uma população de aproximadamente um milhão de habitantes. Não existia Talatona e vivíamos numa base na ONU (Organização das nações Unidas), que estava no Morro Bento e parecia muito longe da cidade na altura. Não havia tanto tráfico como agora. Em Luanda desapareceram muitos edifícios. O edifício onde morávamos junto ao Hotel Turismo também desapareceu.

Estamos a falar de uma época militar bastante conturbada?
Conheci pessoalmente o general Gato, o Salupeto Penas, o general “Ben Ben”, todos da Unita; os generais Ndalo e Higino Carneiro, pelo Mpla. Na altura era mais jovem e agora estou gordo (risos)...

Ainda não falou da expectativa para com Angola...
Ao regressar, nas vestes de embaixador, encontrei uma Luanda diferente, com proximamente 9 milhões de habitantes. Em 1992, a vida não valia nada. Além do cenário militar, havia muitos assaltos a mão armada, que inclusive afectavam os embaixadores. Tivemos um colega que tinha sido atacado e chegamos a pensar que não iria sobreviver. Felizmente, sobreviveu. O outro aspecto a realçar está relacionado com o estilo de vida na altura, que era muito difícil. Havia muito espírito de inter-ajuda. Não consegui encontrar também o outro edifício onde passamos a morar depois, na Avenida Lénine.

Em suma, encontrou um país diferente?
Uma Angola diferente e uma marginal de Luanda que apetecia a prática de desporto pelas manhãs e de tarde. Por exemplo, a minha esposa aprendeu a contar um, dois, três, quatro com os atletas que correm no calçadão. À medida que vão contando, ela foi repetindo reiteradas vezes e hoje conta bem em português. As compras eram feitas numa única loja, que se chamava “Fina”. Hoje, temos supermercados um pouco por todo o lado da capital, o que mostra que Luanda, e um pouco por todo o país, mudou em alguma coisa. Na ilha não havia energia. Tudo acontecia a olho nú. O churrasco era asado à brasa do carvão. Quando desci do avião, percebi esta mudança.

Angola tem grande prestígio

Qual é a importância geopolítica e geoestratégia de Angola para a Rússia?
Angola desempenha um papel preponderante no contexto da diplomacia no continente africano. Do ponto de vista geográfico, está situado numa posição estratégica. Detém grandes riquezas culturais, enraizadas numa população cada vez mais jovem, cifrada em aproximadamente 60 por cento, as pessoas com menos de 18 anos. Estamos diante de um país com capital humano que pode ser transformado numa potência à altura de influênciar as decisões a nível do continente.

O que isto representa para o continente?
Basta olhar para a primeira visita oficial do Presidente da República Democrática do Congo, Felix Tshisekedi Tshilombo, após o seu empossamento. Estas e outras investiduras confirmam o seu poderio na região e não só. O prestígio de Angola na cimeira da União Africana, que hoje trabalha na criação da Zona de Livre Comércio no continente e que vai contribuir para o desenvolvimento económico do continente, é exemplo disso.

Neste particular, onde a Rússia pode ajudar?
O esforço destinado a criar a Zona de Livre Comércio é uma experiência que a Rússia pode partilhar. A Rússia viveu uma experiência semelhante, ao sair da antiga União Soviética para o Estado russo. Formaram-se Estados e comunidades independentes, criou-se uma plataforma à semelhança da SADC, que contribui para o desenvolvimento da região. A Rússia está a passar por uma fase de identificação de novos parceiros económicos e políticos, devido às sanções aplicadas ao país sem fundamento. Angola pode servir de base para o desenvolvimento posterior destas relações com o continente africano. Durante a última cimeira Rússia/África, por exemplo, convidamos os chefes de Estado africanos e Angola foi representada ao mais alto nível, o que demonstra a importância geoestratégica deste país no continente.

O homem corrupto não dedica esforço para o bem do Estado

Como olha para esta revolução que o Governo angolano faz, com a tónica voltada para o combate à corrupção?
Com a corrupção não é possível o desenvolvimento de um país. A corrupção destrói tudo. O homem corrupto não dedica o seu esforço para o bem do Estado. A sua atenção está muito mais voltada em pensar de que forma vai roubar dinheiro. A Rússia também passou por um processo semelhante e venceu a guerra contra esse mal.

Chegou a vez de Angola?
Claro que o processo deve ser feito com grande responsabilidade, para que este mesmo corrupto venha ser utilizado para o bem do povo. O presidente João Lourenço tem sabido desdobrar-se. Trabalhar para atrair este dinheiro para o desenvolvimento do país e ajudar no desenvolvimento da economia nacional é o importante. Pode parecer que a meta é apenas o dinheiro que está com essas pessoas. Mas, na verdade, não é só isso!

Há pessoas nessa condição com muito poder?
As pessoas corruptas têm muito poder, pois muitos passaram por vários cargos e carregam muita experiência dos vários organismos estatais por onde passaram. Devemos aproveitar este potencial. Colocar os corruptos na cadeia é uma coisa. Mas colocá-los ao serviço do desenvolvimento do Estado é a coisa mais importante. A forma como está a ser dirigido o combate à corrupção mostra que existe um grande sentido de Estado do Presidente da República, o que mostra uma imagem positiva do país no estrangeiro.     

A 10 de Fevereiro assinalou-se o dia do diplomata russo. Como celebraram a efeméride?
O dia do diplomata russo é celebrado desde 1549. Foi justamente a 10 de Fevereiro que se pronunciou, pela primeira vez, a palavra “corpo diplomático”. Em 1582 apareceu o primeiro Ministério das Relações Exteriores e assim celebramos a efeméride. Em 2002, a Rússia celebrou 200 anos desde a fundação da instituição. De lá para cá, aproveitamos a data para repensar a diplomacia.

Que diplomacia faz hoje a Rússia?
Hoje a diplomacia russa está mais voltada para a justiça nas relações internacionais, sem diferenciar os Estados grandes dos pequenos e Estados pobres dos ricos. Estamos a trabalhar para assegurar esta ordem, pois dela depende a paz no mundo. Hoje, a Rússia detém o armamento mais sofisticado do mundo, que pode destruir todo o planeta.

Esse é um desafio militarista?
O grande desafio é trabalhar para manter as relações internacionais na maneira mais colectiva de se dirigir as relações. A experiência da Síria mostra isso. Podemos mesmo vencer em situações muito precoces, mas o desafio da diplomacia russa é tornar mais potente as Nações Unidas, porque é uma estrutura que congrega todos os países e deles depende o futuro do mundo e não dos Estados Unidos da América, da Rússia ou da França. Só com um esforço comum podemos vencer este mal.

Existe alguma aproximação entre a Embaixada e os angolanos formados na Rússia?
Sempre existiu uma boa proximidade. O que tem variado é a dinâmica na actuação das lideranças. Actualmente, a Embaixada conta com associação revitalizada, que tem uma agenda muito actuante. Em Dezembro realizaram-se várias actividades. No final de Janeiro realizou-se uma partida de futebol com a comunidade russa residente em Angola e estamos a trabalhar, para que o reforço dos laços culturais entre os dois povos possam ser reforçados.

Existe algum interesse da Rússia em aproveitar o potencial turístico angolano?
O sector do turismo na Rússia é controlado pelo segmento privado. Pelo que, precisamos incentivar o sector privado a apostar nesse segmento. Angola detém praias muito limpas e pouco frequentadas e uma paisagem bastante convidativa. Os russos gostam disto. Pelo que, o país precisa continuar a trabalhar, para a criação de infra-estruturas e assegurar que a comunidade possa movimentar mais turistas. Aos russos interessa explorar campos virgens neste segmento. Podemos trabalhar, para a criação de voos directos Luanda-Rússia e vice-versa, para permitir a mobilidade entre os dois povos. Temos vindo a notar o interesse de ex-estudantes em regressar à Rússia para passeio.

E como fica a problemática dos vistos?
A isenção de vistos entre Angola e a Rússia vigora apenas no segmento dos vistos de trabalho. O custo do visto de Angola para a Rússia ronda os cinco mil kwanzas e os estudantes estão isentos do pagamento da taxa de visto. Já os Russos, para vir à Angola, pagam o equivalente a 100 dólares norte-americanos, para a obtenção de um visto normal, e 200 dólares para um visto urgente. Considero esse condicionalismo muito retraente e um valor muito elevado, que deve merecer uma rápida revisão.