Nessa entrevista, o director-geral do Instituto Nacional de Estatística (INE), Camilo Ceita, rebate as questões levantadas e fala do suporte de base para as estatísticas oficiais em qualquer parte do mundo.

Qual é o método matemático que tem sido usado para se calcular as estimativas económicas de Angola?
Essa pergunta é muito difícil de se responder. Existem vários métodos e técnicas estatísticas e matemáticas que são e podem ser usadas, sendo que a técnica ou método escolhido depende de alguns factores como: qualidade dos dados, objectivo da estimação, o produto a que nos referimos (por exemplo: Índice de Preços no Consumidor, Estatísticas da indústria, Contas Nacionais, Estatísticas sobre o Comércio Externo, Inquéritos aos Agregados Familiares, Censos Demográficos/Empresariais/Agrícolas, entre outros). O suporte de base para as estatísticas oficiais em qualquer parte do mundo, e para todos os INE, são as classificações que têm um papel fundamental para um desenvolvimento coordenado e sustentado dos sistemas de informação estatística nacional e internacional, para regular vários actos das actividades dos agentes económicos e para dar resposta aos compromissos internacionais do país em termos de fornecimento de informações estatísticas comparáveis.
O Instituto Nacional de Estatística (INE), consciente da importância das classificações para o apoio ao desenvolvimento económico e social do país, elaborou e usa, e solicitou a aprovação em Conselho de Ministros, após aprovação pelo Conselho nacional de Estatística dos projectos da Classificação de Actividades Económicas de Angola, Revisão 2 (CAE-Rev.2) e da Classificação de Profissões de Angola, Revisão 1 (CPA-Rev.1). As mesmas reflectem-se nas classificações internacionais, criadas pelas Nações Unidas como: Classificação sobre o Consumo Individual por Função-COICOP; Classificação Internacional Standard da ONU para as actividades económicas-ISIC; Sistema Harmonizado de designação e codificação das mercadorias- SH; entre outras.

Temos vindo a assistir a recolha de informações baseada em inquéritos. Há indicadores económicos determinantes que derivam somente de inquéritos a pessoas?
Não! Os inquéritos não são um método, mas sim uma forma de se obter a informação. Existem muitas outras formas, usadas pelo INE de Angola, como todos os outros INE, ou seja, através dos Censos ou Recenseamentos de: População/Habitação; Agricultura e Pescas; Empresas e Estabelecimento; pela recolha e tratamento de dados Administrativos (produzidos pelos sectores, por exemplo: Ministério das Finanças, Banco Nacional de Angola, Ministério dos Recursos Minerais e Petróleo, da Agricultura e Florestas, das Pescas e do Mar, da Justiça, do Turismo, da Educação, do Ensino Superior, da Ciência e Tecnologia de informação, da Cultura, Empresas públicas e privadas, Bancos Comerciais, Empresas de seguro), entre outros.

Até que ponto o INE tem cooperado com as instituições afins como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (BM), Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e com o próprio Banco Nacional de Angola (BNA) na monitorização da informação estatística?
As instituições multilaterais são cruciais pelo respectivo âmbito de abrangência e influência que têm.O INE de Angola tem com o Banco Mundial o maior projecto financiado para as estatísticas oficiais em África. Com o FMI, o INE de Angola tem um projecto de Assistência Técnica e Capacitação Técnica através do Africtak Sul (órgão do FMI que é responsável pela região sul de África (francófona e lusófona).
Com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), a principal instituição de financiamento das estatísticas africanas, o INE tem também um projecto nas estatísticas de preços no âmbito do Programa de comparação internacional que abrange quase todos os países do mundo.
Em relação ao BNA, o mesmo é parte do Sistema Estatístico Nacional e tal como INE é o órgão responsável pela recolha, tratamento e publicação das Estatísticas monetárias e Financeiras e colabora com o INE em toda a cadeia de produção de Estatísticas Oficiais.

Isso quer dizer que as instituições afins têm feito os estudos sobre os indicadores económicos de dados fornecidos pela vossa instituição?
Sim. A crescente melhoria das informações estatísticas produzidas pelo INE de Angola (por exemplo, o IPC, as Contas Nacionais, Emprego/Desemprego, resultados do censo e inquéritos) que são produzidas, na maior parte, com a assistência técnica destas instituições, permite, com a acção de diplomacia da Direcção do INE junto às respectivas sedes, que estas informações sejam utilizadas por eles nas suas projecções e documentos sobre Angola e nos Relatórios globais por eles produzidos.

Temos constatado que as pessoas acreditam mais nas previsões económicas do FMI e do Banco Mundial do que do Governo ou mesmo do INE… Há alguma razão?
A resposta a esta pergunta, só pode ser um sentimento pessoal, ou seja, a falta ou débil literacia estatística e a reputação destes dois órgãos, faz com que as pessoas sintam-se mais confortáveis com as informações das mesmas, partindo do princípio de que elas “não erram”.
Entretanto, é necessário corrigir algo no sentido de informar que o INE não faz previsões, mas sim reporta a situação actual ou o que aconteceu. As projecções são responsabilidade do Ministério da Economia e Planeamento e do Banco Nacional de Angola.

O mundo não é fechado

A produção de estatística é universal?
Toda e qualquer instituição internacional, dentro do seu objecto social, pode fazer previsões económicas (temos visto que, além do FMI e do BM, também instituições como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), a Moody’s, a Ficth, entre outras, têm feito e vão corrigindo com o passar dos meses, o que é, estatisticamente normal). O que tem que ser de compreensão de todos é que as previsões económicas oficiais só podem ser feitas por instituições do Governo. As outras são previsões, sim, mas não podem ser consideradas oficiais.
Um especialista na matéria apontou como a principal causa da discrepância dos indicadores económicos a sua manipulação pelas instituições do Estado, ou seja, nos últimos anos os indicadores económicos são apresentados de modo a promover uma boa imagem externa de Angola, quando a realidade objectiva é totalmente diferente…
Claro que não se pode concordar com este ponto de vista. Nos parece que é um ponto de vista muito simplista e como especialista deverá saber que, no mundo da ciência, tem que se provar o que se diz. Caso contrário, são especulações e retiram qualidade a quem as proferiu.
O INE de Angola para contrapor este tipo de inverdades coloca à disposição de qualquer usuário (especialistas diversos também) toda a meta-informação (ou seja, informação de suporte que mostra a forma como se produziu este ou aquele indicador), assim como as bases de dados ou ficheiros primários (https://andine.ine.gov.ao/nada4/index.php/home?actualmenu=10424724). Isto permite que todos podem replicar no sentido de chegarem aos indicadores produzidos pelo INE.
Instituições como as Agências das Nações Unidas, o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, antes de usarem os indicadores produzidos pelo INE, fazem testes de qualidade e replicam, através dos ficheiros primários ou base de dados dos inquéritos e censos para certificarem da veracidade.
O mundo da estatística não é fechado. As interacções são inúmeras e cada vez mais os sistemas de harmonização e projectos comuns entre países são incentivados.
O INE faz parte do grupo de Alto Nível sobre Capacitação e Coordenação para as informações Estatísticas para os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (a nível técnico como a nível de direcção), é parte de projectos de harmonização em África, tem memorandos assinados com universidades de renome como a de Oxford ou a Nova IMS de Lisboa.