Estêvão Pedro é um “gentle man” de jure et de facto. É nas lides do petróleo um “guru” e até pela posição de representante de Angola na Organização de Produtores de Petróleo de África (APPO) pode provar-se tal estatuto. Ele é também o governador de Angola na Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Na entrevista de 17 minutos que concedeu a este jornal no dia 17, que inicialmente esteve marcado para às 7h30 minutos, mas só veio a ocorrer às 12, isso à margem do encontro de peritos da APPO, Estêvão Pedro traça um quadro de bastante optimismo nas relações entre os africanos que produzem petróleo. Para ele, o encontro de Luanda, que hoje reúne os ministros de 15 dos 18 países, vai servir para o relançamento da cooperação entre os Estados e início de reformas.

Quais os objectivos deste encontro extraordinário de Luanda?

Os ministros da organização na reunião extraordinária anterior que decorreu em Abuja, na Nigéria, decidiram pela criação de dois grupos de trabalho, os quais estão neste momento em Luanda. Um tinha como missão a definição de estratégia para a recapitalização do fundo APPO e o outro para a implementação da reforma da organização, pois até aqui os resultados que ela tem obtido não têm sido os mais benéficos. O desafio é rever-se a missão e os objectivos estratégicos da organização.

O incumprimento no pagamento de quotas e outras obrigações caracterizam a maioria das Organizações, sobretudo, as africanas.
Qual é a condição da APPO?

A nossa organização com a reforma a que nos propomos vai procurar rever todos os aspectos que no futuro vão fazer com que ela possa ter resultados. Portanto, apesar de dificuldades que a organização possa ter, a reforma vem para colmatar os problemas, a fim de que os países possam contribuir a tempo e hora e os quadros participem
ali onde for necessário.

Quando fala em estratégias pode ser mais preciso...

Um objectivo fundamental é elevar a nossa organização a uma cooperação de facto. Fazer com que os países possam cooperar técnica e cientificamante através de projectos e, deste modo, desenvolver projectos que possam beneficiar as populações. A pretensão é aumentarmos os índices de cumprimento dos nossos projectos.

Quais são então as boas novas para os produtores de petróleo africano neste ano?

Do lado da OPEP e mesmo dos não membros, as expectativas giram à volta de que se consiga estabilidade nos preços, na oferta e no mercado em si. Todos os esforços dos países deverão centrar-se na estabilidade de que se precisa. E a tendência que seguimos nos faz pensar que em
2018 isso possa acontecer.
Para os países africanos produtores de petróleo, o desafio nos próximos três (3) anos deve ser de continuarmos unidos. Deveremos também cumprir as decisões que saírem das reuniões entre a OPEP e os não OPEP e fazermos com que a declaração de Viena de 2016 possa resultar favoravelmente para o mercado internacional de petróleo.

Por que só seis (6) países africanos estão no cartel OPEP?

Na OPEP é privilegiada a soberania. Além disso, nela também funciona a problemática da observação dos requisitos para se tornar membro, ou seja, tem de ter-se produção suficiente para exportar. Só vai à OPEP quem depois de produzir para o seu consumo nacional tenha excedente para exportar. Por isso, é que muitos países não podem e não têm sido membros daquela organização, mas podem cooperar com ela. A declaração de 2016, assinada em Viena, por exemplo, é uma amostra da cooperação que pode existir entre a OPEP e os países não membros.

O actual preço de petróleo satisfaz as vossas previsões?

É relativo, pois isso varia de país para país e é em função dos custos de produção. Há países com custos baixos e outros com altos. Os de baixo custo, neste momento, estão de parabéns, mas os outros deparam-se ainda assim com
algumas dificuldades.

Qual é o caso de Angola?

Angola produz em águas ultraprofundas, mas se tivermos em conta o nosso Orçamento Geral de Estado (OGE) deste ano vê-se que começamos a sentir já algum alívio.

Insiste em falar, nas suas intervenções, sobre um preço justo para o petróleo.
O que pretende dizer com isso?

O preço justo é aquele que vai ao encontro das expectativas. Não é o que vai também aos 150 ou 180 dólares, mas sem sustentabilidade. Um preço justo é aquele que funciona em função dos factores de mercado. Daí que chamamos sempre de preços justos para receitas justas. Há que se afastar os especuladores que só prejudicam.

As metas de corte da OPEP para Angola vão ser observadas?

Nós temos uma quota fixada pela OPEP de 1.678 mil barris e, neste momento, ainda estamos um pouco aquém disso. A perspectiva é que tenhamos investimentos num curto prazo para que possamos atingir esta meta. Embora já tenhamos produzido 1,8 milhões de barris, o facto é que a crise afectou a nossa indústria petrolífera. Houve menos investimentos e até mesmo alguma força de trabalho teve que deixar as companhias e, evidentemente, a produção reduziu. O que precisaremos é aumentar os investimentos para que elevemos a nossa produção. Esforços devem continuar para que se mobilize investimento externo, a fim de que as operações petrolíferas sejam executadas e assim
aumentemos a nossa oferta.

O Governo angolano quer diminuir cada vez mais a dependência do petróleo. Que futuro terá a indústria petrolífera nacional?

É opinião de que nos próximos 20, 30 ou 40 anos, o petróleo ainda continuará a ser a principal fonte de energia. Pessoalmente, acho que os investimentos à indústria petrolífera, caso existam, deverão continuar a ser feitos e termos uma produção normal.

O senhor é representante de Angola na APPO e governador na OPEP. Resta-lhe tempo para comer funge, praticar desporto ou a sua vida é apenas “dossier petróleo”?

(Risos...) Faço tudo para ter tempo para a família, sobretudo ao fim-de-semana. A boa planificação é a chave para que se consiga fazer com que ninguém sinta saudade. Há aqueles dias mesmo na semana que chego cedo em casa para poder ter algum convívio com a família.