O jornalista e empresário luso-angolano, Horácio de Sousa Reis, é uma das vozes interventivas na região Sul do país, com realce para a “sua” Huíla, onde reside há já 60 anos. Na entrevista que concedeu ao JE, o gestor e proprietário de uma empresa de segurança, revela que a estratégia do Governo deve centrar-se na criação de condições nas zonas rurais para que a produção seja canalizada aos grandes centros de consumo com melhor celeridade, medida que poderá ajudar às populações terem riqueza e fortificar o tecido produtivo nacional.

Qual é a visão que tem sobre a província da Huíla?
Eu conheço muito bem a província da Huíla. Já percorri toda, mas também há já algum tempo que não a percorro na sua intensidade, mas devido às tarefas que tenho de segurança e vigilância, consigo ter pessoal a trabalhar em todos municípios da província que me permite conhecer bem as dificuldades desta região do país.

Quando fala-se da província e como conhecedor dos 14 municípios, qual é a imagem que lhe vem na alma?
A Huíla é uma província que poderia, realmente, resolver situações neste país, de produção do campo alimentar e no pecuário. Ela tem tudo para produzir carne e agricultura capazes de alimentar todo o país. Actualmente, a região tem as suas dificuldades e é preciso atacá-las. Existe na região um parque bastante grande de gado que precisa de ser renovado. Os animais que estão velhos precisavam de ser abatidos e isso são políticas que devem ser implementadas e que já antes, era assim. É preciso promover o comércio rural. Sabemos que o criador autóctone não deixa que o seu gado saia da sua zona de jurisdição por ser a sua riqueza. Mas, não podemos descorar que, nos últimos anos, tem havido grande seca na zona, causando mortes, além do gado, em função da seca que tem assolado a região, até alguma população também morre de fome devido à seca, quando poderia muito bem abater o animal para sobreviver.


O Governo gizou vários programas e na qualidade de jornalista também já foi acompanhando vários discursos das autoridades daquilo que foi feito e deve ser realizado. Na sua visão, algo foi feito e o quê deve ser melhorado?
Na minha visão, penso que as pessoas tentam fazer alguma coisa, mas que ainda não surtiram efeitos desejados. Se formos para o interior da província, as populações continuam a ter as mesmas dificuldades. Julgo que há uma situação que é fundamental neste momento que é resolver os problemas das comunicações. Sem estradas inter-municipais circuláveis, as dificuldades das populações rurais vão continuar. Com essas condições em falta, vamos continuar a ter o êxodo das populações, a partir das zonas rurais para as grandes cidades, com todas as consequências negativas que isso traz. O que nós precisamos, urgentemente, é criar condições na zona rural para que as pessoas saiam das cidades e vão para estas áreas, de modo a produzirem, terem mais ocupação, coisa que na cidade não existe.

O ministro da Construção percorreu alguns municípios da Huíla com o propósito de constatar as condições da rede viária. Acha ser um começo positivo?
É um ganho grande que a província da Huíla conseguiu. Eu com a empresa que tenho, circulo em todos municípios e sei das dificuldades que se vivem nos municípios de Chipindo, Chicomba e Caconda. Até que Caconda tem asfalto e é mais fácil chegar neste município. Ao resolver a ligação das estradas inter-municipais, tudo fica mais fácil, porque as zonas rurais ao produzirem conseguem escoar. Isto é um processo natural e não é o Estado que precisa de se preocupar com isto. Eu produzo lá no município e um indivíduo que tem uma pequena empresa dedicada ao transporte e compra destes produtos, ele por mais que venha de Luanda, Malanje ou de qualquer província do norte e leste de Angola, vai ali directamente ao produtor sem problema e depois leva, e introduz a produção nos mercados municipais de referência das grandes cidades do país. É isto que falta. Não circulando, há muita dificuldade porque as estradas são as veias de um país.

Então deve-se asfaltar todas as estradas do país?
Quando digo isto, não quero dizer asfalto. Atenção! Não é preciso ser tudo asfaltado. É preciso que o país pense seriamente numa rede de estradas nacionais à altura deste país. É preciso que se pense nas estradas secundárias e terciárias, que também podem ser de terra batida devidamente compactadas ou terraplanadas.

A manutenção pode jogar um grande papel?
Temos que saber que o problema das estradas está na manutenção. No passado recente, fizeram-se estradas descartáveis, mas mesmo assim cometeu-se o erro de não se pensar na sua manutenção. É aqui onde está o erro. Temos que ir ao passado colonial e ver como é que se fazia a asfaltagem das estradas. Hoje, temos ainda estradas do tempo colonial, que ainda estão operacionais. São exemplos de como se faziam estradas e de como elas duram no tempo. Porquê que agora não duram? Fala-se por aí 30 milhões de dólares em estradas. Não acredito. Mas é o que se fala e as estradas estão todas degradadas... Aqui vou abrir um “parênteses” para dizer que, saúdo o trabalho do ministro da Construção e Obras Públicas, Manuel Tavares de Almeida, que me dá uma boa cessação de não andar de avião nem de helicóptero. Anda na estrada. O ministro está em todo o lado. Este ministro, realmente é aquilo que nós pensamos que deve ser um titular da pasta das Obras Públicas, que anda no terreno e vê ele próprio com os olhos e ninguém lhe vai contar.

Falou ser proprietário de uma empresa que lhe obriga a se deslocar constantemente para os municípios da Huíla. Qual é o objecto da empresa?
Tenho uma empresa de segurança e vigilância privada e tenho instalações em nove províncias de Angola. O grupo controla centenas de pessoas.

De que maneira a Huíla precisa de ser cuidada?
A província da Huíla precisa de um cuidado especial, em minha opinião. Porque é uma província, mesmo sem petróleo, mas tem ferro, ouro, granito e outros minerais importantes também, mas o que de mais importante tem a Huíla é o homem. A Huíla tem muita gente que dá o seu contributo e participa na reconstrução desta província, porque nota-se que está um pouco em baixo. Tem um clima que pode permitir a produção de que precisamos de comer a nível nacional. São precisos apoios, no sentido dela poder desenvolver essas áreas, sobretudo tractores, camiões, viaturas e não há. É difícil, nesta província a pessoa comprar um carro novo para trabalhar. Na minha empresa eu costumo comprar, no intervalo de dois em dois anos, três viaturas para poder ter o parque automóvel operacional e não consigo porque não há viaturas a nível nacional e não consigo uma factura pró-forma de viaturas para entregar ao banco e fazer a negociação.

A actuação dos bancos comerciais tem sido satisfatória?
Precisam de ter uma outra orientação em relação às províncias. Porque a forma centralizada como se gere a banca em Angola, não serve o país, e já se viu que, desde algum tempo até aqui, a banca centralizada em Luanda nunca resolveu problema algum das províncias, salvo, raras excepções. Ou seja, o amiguismo, o compadrio é que resolviam os problemas. Os bancos aqui ou os gestores provinciais, quando tentam negociar com o cliente e vice-versa, não têm autonomia e tem que esperar que lá em Luanda resolvam o problema, até questões simples podiam e podem ser resolvidos localmente. Julgo que a banca tem que olhar de outra maneira para as províncias. Para mim, a descentralização dos serviços seria a solução.

Quais são os benefícios que as obras integradas em curso na cidade do Lubango vão proporcionar à população?
Como conhecedor do Lubango, em boa hora, essas obras foram adjudicadas e estão a decorrer. A verdade é que os cidadãos querem ver a cidade do Lubango bem. A execução das obras está programada para um período de três anos. O que me preocupa é que a cidade chegou a este ponto porque há qualquer coisa que a nível da administração municipal não está a funcionar. A cidade do Lubango precisa de uma autarquia forte que possa resolver os problemas. Há, aqui, coisas que poderiam ser ultrapassadas com o apoio da sociedade civil.
Às vezes, é preciso saber conversar com esta franja. A cidade do Lubango chegou a um ponto bastante crítico porque a lei da probidade não está a ser bem entendida.