Na sala em que recebeu a equipa do JE, Lorena Maschietto, italiana de raiz, que tem em  economia a sua área de actuação, divide-se entre o trabalho e o lazer, pois à sua mesa encontravam-se alguns despachos, mas também a parede aparece enfeitada com duas marcas da angolanidade: por um lado, o mapa administrativo da República de Angola, por outro, um quadro da zona costeira da Samba, da Corimba ao Mussulo, que mostram admiração e reconhecimento por um lugar que divide entretenimento com bons encontros de negócios. Lorena, de trato fácil e bastante atenciosa, reconhece que a dinâmica das trocas comerciais entre a Itália e Angola poderão conhecer dias melhores, pois de sua parte tudo tem sido feito para assegurar que empresários e autoridades institucionais trabalhem em torno desses compromissos.

Como avalia as actuais relações entre a Itália e Angola?
As relações entre Itália e Angola são excepcionais, embora elas poderiam ser melhoradas. É importante referir que do ponto de vista humano as relações empresariais e até mesmo instituicionais são óptimas. Essa excelência nas relações entre os nossos países pode também ser vista através da amizade que partilhamos com a Embaixada de Angola em Roma e com os escritórios comerciais localizados em Milão. Nós, Itália, temos uma plataforma interactiva onde os nossos empresários se registam e por via dessa base de dados conseguimos facilitar os contactos entre as áreas. Nela, estão postadas informações económicas e outras sobre o país, para permitir que os investidores possam estar munidos de informação suficiente. Não menos importante é que nesta mesma base também podemos encontrar dados sobre a actividade da representação diplomática angolana em Itália, mostrando as actividades e as diferentes medidas a serem executadas.

E do ponto de vista político e económico  como caracteriza estas relações entre países?  
Do ponto de vista da economia, precisamos de fazer mais e muito mais mesmo. Os nossos países têm muito para partilhar, seja do ponto de vista do que importamos seja daquilo que vamos exportar. Actualmente, sectores como dos petróleos, madereiro e dos granitos dominam as importações italianas, sendo que continuamos a exportar maquinaria, bens do sector alimentar, mobiliário, além de serviços e meios tecnológicos. Nestes últimos tempos temos vendido com alguma regularidade embarcações de apoio à pescaria.

Os indicadores das trocas comerciais satisfazem as partes?  
Satisfazer-nos parece não ser a palavra adequada, mas são as possíveis, depois de um excelente ano de 2011, altura em que conseguimos valores acima dos dois mil milhões de dólares. Já entre 2012 e até Agosto de 2013, os números controlados atestam que as trocas entre os países estão a rondar os mil milhões de dólares. Todavia, temos de reconhecer que elas tendem mais favoravelmente para Angola, daí que deveremos continuar a trabalhar no sentido de as economias tirarem vantagens competitivas.

O que pretendem fazer para reforçar a vossa posição no que se refere aos principais parceiros comerciais de Angola?
Precisamos de falar mais. Entendemos que o diálogo é o instrumento que teremos de utilizar para que ambos os países possam com regularidade manter contactos permanentes. O que as pessoas devem perceber é que a Itália, desde o império romano, não procurou fazer colónias. O que tem sido nossa estratégia é a aproximação às nações para que de um diálogo inclusivo consigamos todos tirar ganhos e que estes possam reflectir-se na vida das pessoas.

Onde e como Angola poderia aproveitar melhor as potencialidades italianas?  
Itália tem muito para dar e a nossa força no segmento alimentar, mobiliário, turístico até mesmo cultural pode ser aproveitada pelos empresários angolanos para que estes melhorem a sua actividade, significativamente, e tirem partido da mais-valia que é a capacidade tecnológica do nosso mercado. Há todo o interesse em fazermos parcerias sólidas, mas não devemos, de modo nenhum, coartar iniciativas das partes. Temos uma enorme experiência no domínio da agricultura. Em Angola, a agricultura é ainda muito familiar e a Itália pode ser com a sua experiência uma parceira a ter em conta na definição das melhores políticas agrícolas e no aproveitamento dos enormes campos férteis de que o solo angolano é detentor. Por aqui, acreditamos que podemos ajudar muito neste sentido.

A missão empresarial que pretendem trazer para Angola é já neste quadro de reforço das relações?
A missão que pretendemos realizar é uma resposta da amizade que há entre os países, pois que em Abril um fórum de negócios deve ser realizado sob a responsabilidade do Ministério da Economia de Angola, que garante levar ao nosso país empresários representatiovos de vários segmentos da economia para com parceiros locais trocarem contactos e aproximarem os interesses.

As empresas mobilizadas são representantivas de que sectores?  
Da parte italiana, a missão institucional que se fará acompanhar, eventualmente, de empresários vem responder, como disse, à iniciativa angolana de ir ao encontro dos italianos para mostrar as potencialidades que este mercado dispõe e em que áreas prioritárias os governos deverão investir e facilitar as forças empresariais entre países.

Mobilizar investidores para Angola tem sido uma tarefa fácil ou nem por isso?  
Nem por isso. Neste momento, operam em Angola cerca de 25 empresas italianas e estas também se têm encarregado de passar a mensagem sobre as áreas de negócios e dos melhores procedimentos. Ainda assim, os sectores do comércio e dos serviços são dos que mais mobilização têm recebido.

Que preocupações os eventuais investidores fazem chegar com frequência à embaixada?  
A problemática dos vistos de entrada associa-se também à carta de chamada, necessária para que quem queira investir em Angola possa vir sem grandes constrangimentos.

A nova Lei do Investimento Privado inibe ou atrai os italianos?
A Lei do Investimento Privado, muito sinceramente, procurou previlegiar negócios das grandes empresas. A Itália, no seu formato económico, previlegia a constituição de pequenas empresas, pois acreditamos que são estas que criam empregos, dão valor acrescentado de forma directa às famílias e mobilizam mais investimentos por via de uma estrutura de custo menos rígida.

O porta-aviões Cavour que atracara em Luanda foi já na base da amostra do potencial italiano?
Sim e de igual modo tivemos nessa ocasião um excelente momento para que as autoridades angolanas podessem ver em miniatura o que a Itália pode dispor aos angolanos. Como não poderia deixar de ser, uma parte embora mais lúdica, mas maravilhosa de viver-se foi a actuação conjunta do cantor lírico angolano Emanuel Mendes com a soprano italiano Felicia Bongiovanni. O dueto interpretou Andrea Bocelli, Laura Pausini e o memorável Luciano Pavarotti. Foi tal o momento proporcionado pelo navio que alguns chegaram à conclusão de que o cêu e a terra se encontraram numa mesma dimensão e em Luanda.

Os empresários angolanos podem ter na Itália um excelente mercado para as suas iniciativas de negócios?  
Claramente. Até porque hoje os angolanos já possuem grande capacidade de investir também em Itália. O importante é que estes possam com maior frequência visitar o nosso país e manter contactos com possíveis parceiros.

O fórum de negócios a realizar-se em Abril será antecedido de algum outro evento?  
Não, mas sim haverá resposta de nossa parte, com a realização da missão empresarial que um ou dois meses após o fórum vem para Angola.

Como Angola pode beneficiar da experiência da experiência italiana no segmento do turismo?  
Na verdade, Angola está com um ambicioso programa de atracção de investimentos e o sector do turismo é, certamente, um dos que mais dinâmica deve registar. A Itália é por si só um país do turismo e há todo o interesse em partilharmos nossas experiências na oferta de serviços atraactivos e que respondam à procura.

Esta experiência pode ser considerada também para o segmento dos petróleos e da indústria alimentar?  
A petrolífera italiana Eni actua em Angola há anos. Seguramente, e  até porque o petróleo é dos que mais importamos de Angola, vê-se que temos neste domínio trocas de experiências com vantagens competitivas para ambos. Aliás, por altura dos problemas na Líbia, Angola se tornara mesmo no principal fornecedor da Itália deste importante recurso.

Porque os italianos não investem na banca angolana?  
A banca é um segmento muito  importante nas relações económicas entre os países. O que fica claro é que as partes precisam de trocar mais informação, pois a banca angolana está numa fase bastante interessante e nós, Itália, temos sim um grande interesse de fazer parte dos que exploram este nicho das finanças.

A cooperação no domínio da educação não deveria constituir prioridade nestas relações?  
A Itália continua a dispor de uma experiência muito grande no domínio da formação superior. Angola continua a formar quadros e nas universidades italianas existem até alguns estudantes angolanos. Por sinal, são estes estudantes que têm facilitado as partes em vários eventos e programas, assegurando tradução e explicações mais precisas, uma vez dominarem bem a língua quer de um, quer de outro. E porque falamos de educação e formação de quadros é importante referir que neste amplo diálogo que as partes angolanas e italianas precisam de manter viva e bastante dinamizado, não se deve deixar de parte a possibilidade de acordos de concessão de bolsas de estudo para que os jovens tirem vantagens do que a Itália pode representar no que diz respeito à história, cultura e artes universal dos povos.

Termina a missão com o sentimento de dever cumprido?
Poderíamos ter feito muito mais, mas isso não signidfica que fizemos pouco. Pelo contrário, temos todos de admitir que entre a Itália e Angola há um enorme manancial de oportunidades que deverão continuar a ser mobilizados. Ambos os países têm histórias próprias e a actualidade internacional apresenta desafios para um e outro. Só não deveremos deixar de investir no diálogo e valorização das pessoas, que me parece ser um recurso que abunda neste país.

São estas as recordações que leva de Angola?
Estas e outras que permitirão sempre que possível vir cá ou manter contactos permanentes com  os meus amigos angolanos, que não são poucos. Levo recordações das belas praias do Mussulo, de Cabo Ledo, do Lobito, enfim Angola foi, seguramente, um bom lugar de ter estado no cumprimento da missão diplomática que cumpri. Curioso é que neste momento tenho uma das minhas famílias cá em Angola a efectuar um estagio, numa empresa de consultoria. Ela também concorda que Angola é um bom país, com pessoas maravilhosas e que deixam sempre boas recordações a quem por aqui passa.