O Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola (IMETRO) compromete-se a elevar os níveis da qualidade de ensino, com objectivo de se tornar numa referência a nível do país. O compromisso foi assumido pelo director-geral do Imetro, Luís Kandjimbo, que em entrevista ao JE assegura que a sua instituição tem estado a apostar na investigação científica, além da valorização da classe docente. A instituição do ensino superior pretende contribuir na efectivação das metas traçadas pelo Executivo angolano, no que diz respeito à formação quadros.

Como nasce a vocação do Doutor Luís Kandjimbo para o ensino?
Começa justamente no longínquo ano de 1980, com a entrada para a antiga Faculdade de Letras, hoje Instituto Superior de Ciências da Educação do Lubango (ISCED). Após o seminário de formação pedagógica para o ensino de Língua Portuguesa, fui admitido para fazer parte do quadro de professores do ensino de base do II nível, na época. E nasce assim a paixão pelo ensino. Por considerar a docência como um sacerdócio, percorri todos os níveis de ensino até ao ensino médio e pré-universitário. A única excepção é o ensino primário, por onde não passei.

E quando é que começa a carreira a nível do ensino superior?
A trajectória que me conduziria à docência universitária, começa em finais da década de 90 do século XX. Inicialmente, como convidado a fazer palestras sobre temas ligados à História, Literatura e aos Estudos Literários e a participar em conferências e congressos da especialidade. Passei depois a integrar equipas de pesquisa científica a nível nacional e internacional. E, sucessivamente, com uma formação em Direito e Literaturas Modernas, prossegui os estudos a nível de pós-graduação em Filosofia, Estudos Literários e Estudos Portugueses, tendo obtido o Mestrado e o Doutoramento na Universidade Nova de Lisboa. Em 2008, começa efectivamente a minha carreira como docente no ensino superior, leccionando na área da Literaturas e da Língua Portuguesa.

Qual é a sua visão sobre o ensino superior no país?
Analiso o processo de desenvolvimento do ensino superior em Angola em duas palavras: massificação e expansão. A primeira, entra no vocabulário exactamente com as transformações que o país vai registar a partir de 1975, com a conquista da independência. A educação passou a ser vista como direito fundamental e universal, consagrado na Constituição da República de Angola. E a única universidade na altura, a actual Universidade Agostinho Neto, começa a acolher estudantes dos diferentes segmentos da sociedade angolana, tornando-se assim um verdadeiro direito da terceira geração. Esta é uma realidade que se observa um pouco por todo continente. Já a expansão, vai ocorrer com maior relevância nas primeiras décadas dos anos 2000, com a emergência do sector privado, que se vem juntar aos esforços do Estado para acelerar a formação
de quadros angolanos.

Como avalia a qualidade do ensino superior?
A qualidade do ensino superior é hoje um fenómeno global. Está associado à massificação e expansão. Na verdade, constitui um grande desafio, para todo o subsistema do ensino superior nas próximas décadas. No contexto angolano, os efeitos positivos da massificação e expansão, associados à elevada qualidade dos docentes é que vão gerar a qualidade do ensino superior. Isto porque a formação superior nas sociedades e economias do mundo actual deve ser oferecida com o objectivo de criar capital humano, traduzindo-se em competências humanas que conduzam necessariamente à transformação dos indivíduos, cidadãos deste país.

Quais são os mecanismos que devem ser accionados para elevar a qualidade do ensino superior em Angola?
A busca da qualidade no ensino superior passa exactamente pela qualidade do corpo docente. Por conseguinte, a qualidade do corpo docente condiciona a qualidade do ensino superior. Não hesito em afirmar que, além das infra-estruturas e das condições financeiras, o perfil do professor universitário determinará os níveis de qualidade do ensino superior. O perfil do docente deve estar no centro das preocupações para que se possa melhorar a qualidade de ensino superior no nosso país.

Quais são os desafios do Imetro para os próximos tempos?
Em primeiro lugar, vale sublinhar que as excelentes condições de infra-estruturas e materiais à disposição dos gestores desta instituição de ensino superior podem contribuir para a realização das metas traçadas pela entidade promotora do projecto educativo. Neste sentido, existem garantias para trazer a qualidade e responder o desafio do Executivo no que diz respeito à formação, quadros de alto nível.

Quais são as principais metas da instituição para o ano de 2017?
O nosso grande compromisso assenta na elevação os níveis da qualidade de ensino, inscrevendo o Imetro entre as instituições de referência no país.

Qual é oferta formativa para 2017?
Até à presente data, o Imetro dispõe de um total de 17 cursos, entre Bacharelatos e Licenciaturas, integrados em três unidades orgânicas nomeadamente, o Departamento de Ciências Económicas e Gestão (DCEG), Departamento de Ciências Humanas, Educação e Artes (DCH), Departamento de Ciências Tecnológicas e Engenharia (DTEC).
Entre os cursos leccionados podemos destacar, a Licenciaturas em Cinema e Televisão, Planeamento Regional e Urbano, Gestão Pública, Geologia e Minas. Já entre os Bacharelatos, o destaque recai os cursos de Gestão Bancária e Gestão Escolar, todos destinados a atender as necessidades do mercado de trabalho, tal como vem plasmado no Plano Nacional de Formação de Quadros.

Quantos técnicos superiores o Imetro já colocou no mercado?
Desde 2014, ano em que saiu o primeiro grupo de técnicos superiores formados aqui, o Imetro colocou no mercado 316 licenciados. Em 2015, foram 102. Já em 2016 passou para 270 graduados e em 2017, queremos superar os indicadores anteriores. No cômputo geral, já contribuímos com cerca de 700 licenciados absorvidos pelo mercado de trabalho. Se tivermos em conta o curso de Agregação Pedagógica a Aperfeiçoamento Docente também oferecido pelo Imetro, a contribuição eleva-se. Este foi frequentado por cerca de 200 candidatos ao exercício da profissão docente, entre os quais pessoal da instituição e externos. Quanto ao decréscimo, que se verificou a partir de 2014, tal se deve a dois factores, o aumento de instituições de ensino superior, no quadro da expansão da rede nas várias regiões académicas, especialmente, na Região Académica I, e a conjuntura económica e financeira que causou a diminuição do poder aquisitivo do salário e rendimentos das famílias.

Em que pé está o Imetro, quanto à legalização dos cursos ministrados?
Como sabe, presentemente o processo de legalização de cursos a nível do subsistema de ensino superior, tem como base o Decreto Presidencial nº 82/16 18 de Abril. A partir dele podemos afirmar que os 17 cursos ministrados no Imetro são legais. Importa referir que destes, apenas dois, nomeadamente, as licenciaturas em Geologia e Minas, e Direito, se encontram na categoria de cursos registados. O que significa dizer que aguardam pela avaliação final do INAAREES e a formalização da criação dos cursos através do Decreto Executivo do Departamento Ministerial de tutela.

Este ano as propinas vão registar alguma alteração em relação a 2016?
O Imetro não vai alterar a propina no presente ano académico. Serão mantidos os valoresde 31 mil kwanzas para os cursos de Engenharia Civil, Engenharia Electrónica e Telecomunicações, Ciências da Computação, Geologia e Minas, Cinema e Televisão, Arquitectura, Planeamento Regional e Urbano. E 26 mil kwanzas para os restantes. Podemos tranquilizar as famílias. Estamos conscientes dos efeitos negativos produzidos na actual conjuntura económica e financeira que abala o país. No entanto, todos devemos contribuir na formação das novas gerações.

Quanto às multas?
São taxas e emolumentos que resultam do incumprimento das normas em vigor na instituição. Mas o Imetro dispõe de uma cartilha que permite fornecer informação útil ao estudante, de modo a evitar falhas nos compromissos que assume.

A instituição dispõe de bolsas de estudo para alunos e docentes?
Em matéria de bolsas de estudo, o Imetro incentiva a exaltação do mérito e aposta na qualidade. Oferecemos bolsas aos estudantes que terminam a licenciatura, e de igual modo aos professores e quadros. Temos actualmente 20 bolseiros nos cursos de licenciatura aqui ministrados, outros em mestrados e doutoramento em instituições no exterior do país. Trata-se de um direito que se atribui aos professores e docentes da instituição desde que este reúne os requisitos, exigidos. Além das bolsas oferecidas pela instituição, temos igualmente de bolseiros do Instituto Nacional de Bolsas de Estudo (INABE), num total de 285 bolseiros.

O Imetro dispõe de condições para a investigação científica?
A investigação científica está no topo das preocupações do Imetro. A qualidade de ensino passa pela investigação para depois ensinar. Não integram a nossa equipa docente que não aposte na investigação permanentemente. Temos em funcionamento o Centro de Estudos e Investigação Cientifica do Imetro (CEICIN). Vamos manter a publicação da revista científica, da publicação do Barómetro de Conjuntura Económica, e abrir novas áreas de investigação científica.

Quais são as linhas de investigação prioritárias  nesta instituição?
Queremos ser gradualistas. Vamos aprofundar as linhas de pesquisa em economia e desenvolver actividades em duas vertentes, nas áreas das Ciências da Educação e das Tecnologias. Pretendemos reflectir sobre a construção dos planos curriculares nas instituições de ensino superior. Entendo que o currículo do subsistema do ensino secundário deve estar em sintonia com o currículo do subsistema de ensino superior. Refiro-me concretamente, ao primeiro e segundo ciclo. Se assim não for, o carácter sistemático do conhecimento científico não poderá ser transmitido com eficácia. Seguem-se as linhas de pesquisa investigações as áreas de Electrónica e Telecomunicações. Estamos a trabalhar para ter uma investigação que suporte o ensino.

Em que estado estão os equipamentos de apoio ao ensino, refiro-me aos laboratórios e bibliotecas?
Neste domínio, estamos muito bem servidos. Temos um número considerável de laboratórios. Quatro no ramo de engenharia, nomeadamente, laboratórios de Engenharia Civil, Física, Electrónica e Geologia e Minas. Outros quatro laboratórios de Informática. Todos eles procuram responder às necessidades dos estudantes e das equipas de docentes da instituição. Contamos igualmente, com um tribunal simulado para apoiar o curso de Direito e Laboratórios de Cinema e Televisão que estão numa fase experimental. Já a nossa biblioteca numa estrutura de três pisos, dispõe de cerca de 16 mil volumes, distribuídos pelas várias áreas de formação leccionados aqui, além de outros
domínios do conhecimento.

Quantos funcionários tem o Imetro?
Temos aproximadamente 250 trabalhadores, dos quais, 140 integram o quadro docente e 100 do quadro não docente. Dos 140 professores, 40 mestres, 18 doutores e 82 licenciados. O corpo docente do ensino superior dever ser constituído especialmente por doutores e mestres. Mas o país não dispõe destes recursos humanos. Donde o número de licenciados é uma superior ao de mestres e doutores. Esta é uma situação geral, observável em todas as instituições do ensino superior. No entanto, deveremos fazer esforços para que gradualmente
a situação de altere.

Quanto ao património do Imetro, o que nos diz?
A instituição está implantada num campus que conta com quatro edifícios, com mais de três pisos cada. Temos aproximadamente 70 salas de aula, laboratórios, quatro parques de estacionamento, sete auditórios, mais de seis salas para aulas-conferência, com capacidade para mais de 100 alunos, um centro de atendimento do estudante para os primeiros socorros.

Em termos de valorização de quadro como é que o Imetro está?
Valorizamos o nosso corpo docente. Ele constitui o centro das atenções. Por isso, não temos salários em atraso.

A vossa instituição de ensino dispõe de mecanismos de apoio ao estudante?
Quando o estudante chega ao Imetro, recebe uma orientação vocacional. Após a integração passa a receber a orientação psicológica, através dos serviços competentes, pois, além de problemas espirituais, o estudante passa por perturbações psicossomáticas, decorrentes do stress típico da vida universitária, que exige um acompanhamento.

Como avalia a questão da uniformização da propina no ensino superior?
Do meu ponto de vista, as decisões referentes a uniformização da propina no ensino superior devem ser tomadas, após um estudo aprofundado sobre o financiamento das instituições do ensino superior e os custos de formação no ensino superior. Assim, estaremos em condições de tomar decisões racionais e que concorrem para bem do sistema de educação e ensino no geral. Por outro, é preciso compreender que o financiamento, o volume de investimentos das instituições do ensino superior não é uniforme. Os equipamentos apresentam diferentes níveis de qualidade. Estamos a falar das infra-estruturas, laboratórios, bibliotecas e outros serviços inerentes
ao processo de ensino.

Estão criadas as condições para o arranque do ano lectivo 2017?
Está tudo a postos. Aguardamos pelos estudantes. A abertura oficial do ano académico está prevista para o dia 28 de Fevereiro.

HOMEM DE DESAFIOS

NOME: Luís Domingos Francisco e Kandjimbo de Kadingue.

Estado Civil: casado.

Idade: 57 anos.

Natural: Benguela.

Filhos: Um.

Formação académica: mestre em filosofia geral e doutorado em estudos literários pela Universidade Nova de Lisboa.

Outras habilidades:
escritor, ensaísta e crítico literário. Membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), da Associação Internacional de Estudos Literários e Culturais Africanos (AFROLIC), membro da Associação para o Estudo das Literaturas Africanas de Paris (APELA). Investigador do Instituto de Estudos Literários e Tradição da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e membro do Comité Científico Internacional da UNESCO para a Redacção do IX volume da História Geral de África.

Experiência: Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências Sociais e Desenvolvimento Humano da Universidade Gregório Semedo, da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto e da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Metodista. Tem-se dedicado igualmente à investigação no domínio da Língua Portuguesa, Filosofia, História de África e das Literaturas Africanas.

Cargos desempenhados: Vice-ministro da Cultura do Governo de Angola (2008-2010) e consultor do Ministro das Relações Exteriores do Governo de Angola (2010-2011). Conselheiro cultural da embaixada da República de Angola em Portugal (2002-2008) e director para Acção Cultural e Língua Portuguesa no Secretariado Executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), sendo responsável pela coordenação das acções de cooperação multilateral nos domínios da Cultura, Ciência, Tecnologia e Educação.

Sonho: formar as novas gerações para um país competitivo em África.

Livros publicados: Oito.

Previsão para Novos  Livros: Dois.