Os artistas angolanos têm que trabalhar bastante do ponto de vista da execução técnica e do canto, para poderem tocar nas rádios antilhanas, pois Angola tem um défice de instrumentistas para fazer face à demanda de novos cantores. A afirmação é de Luís Paulo da Silva, promotor e responsável da Casa do Zouk, um espaço que tem sido o ponto de encontro entre artistas angolanos de várias gerações com artistas antilhanos, onde abordam o estilo zouk, património das antilhas francesa e as suas raizes rítmicas africanas.

Como aprecia a promoção e desenvolvimento do estilo zouk em Angola?
Esta questão pode ser entendida sobre duas vertentes. A primeira tem a ver com o facto de o Zouk ser uma marca na vida de muitos angolanos, principalmente aqueles que absorveram-no nas primeiras duas décadas da sua existência, isto é, entre os anos 80 e 90 do século passado. Logo, falar da promoção do zouk em Angola, é falar de músicas de sucesso daquela época que continuam hoje no auge e a ajudar a colmatar a diversidade músico-cultural nas rádios, nas festas e em nossas casas. É nestes locais que se continua a sentir a promoção. Não apenas daquilo que conhecemos em termos de qualidade sonora e arranjos. O zouk é um estilo musical que continua vivo e forte décadas à fio. Até os mais novos gostam e admiram.

E a segunda vertente?
A segunda vertente está ligada à promoção do zouk pelos potenciais fazedores do estilo. Digo de propósito “potenciais fazedores”, porque a maior parte destes são artistas da nova geração, muitos com mais de 15 anos de carreira. Parte esmagadora destes, da nova geração de artistas, fala de zouk, promove a marca zouk nos seus discos, quando no essencial não produz e nem sequer canta zouk. Visto nesta vertente, a promoção do zouk em Angola dá-se mais pelo nome e pela grandeza que este granjeou ao longo dos anos, do que propriamente por aquilo que estamos habituados a ouvir como essência. Resumindo, continuamos a promover o zouk, enquanto marca, mas não produzimos.


Sei que está à frente da criação de uma associação de zoukistas. Já tem pernas para andar?
Não temos associação. O que existe é a Casa do Zouk de Angola, a única que existe no mundo, até prova em contrário, com o formato que a concebemos, de ser o arquivo- museu, que não só expõe peças relacionadas ao estilo musical como CD, vinis, cartazes, cassetes e outros, como também conta a história do surgimento do zouk e os seus principais percursores. No essencial, somos a casa que informa
e analisa o zouk.

É de opinião que deve haver maior divulgação dos géneros musicais angolanos nas antilhas?
Não só os géneros musicais, como também a cultura angolana. Há dois anos tivemos a oportunidade de visitar a Ilha de Guadalupe a convite de Pierre Edouard Decimus, o criador do zouk e do grupo Kassav. Constatamos que quase não há informação sobre Angola. Levamos a nossa música, literatura e a gastronomia. Falamos de Agostinho Neto, Simão Toco, Eduardo Paím, Filipe Mukenga, Elias dya Kimuezu, Sayovo, entre outros grandes nomes da história de Angola.

É este o grande objectivo da Casa do Zouk?
Sim! Este é um dos objectivos da Casa do Zouk, o de promover a cultura angolana, em particular a música, em Guadalupe. Estando em Guadalupe estaremos na Martinica, na Guiana Francesa, na França, em África e um pouco pelo resto do mundo.

Até que ponto o intercâmbio musical entre os artistas ajuda no fortalecimento da relação cultural entre Angola e Guadalupe?
A Casa do Zouk muito tem feito por isso. Tem havido muitos contactos e parcerias entre artistas angolanos e antilhanos por esta via. Por outro lado, as boas relações de cooperação política, diplomática, económica e cultural entre Angola e a França é um pressuposto a ter em conta e que pode bem ser aproveitado. Isso porque Guadalupe é um departamento marítimo de França.

Existe muitos artistas angolanos que fazem fusão com zouk ou mesmo cantam este estilo para passarem nas rádios em Guadalupe. Sente-se envolvido na parceria?
Existem artistas angolanos que fazem fusão de outros estilos com o zouk, mas não o cantam propriamente dito. A estes artistas temos vindo a aconselhar um melhor posicionamento na música, para serem ouvidos e terem alguma aceitação nas antilhas francesas. Quando falamos em zouk, já nem sequer hoje devemos delimitá-lo à Guadalupe. Hoje este estilo é património das antilhas francesas e a sua base rítmica é essencialmente africana. Por isso, os artistas angolanos terão ainda muito que trabalhar do ponto de vista da execução técnica e do canto, para poderem tocar nas rádios antilhanas. Angola tem um défice de instrumentistas para fazer face à demanda de novos cantores. Os poucos instrumentistas que temos, alguns deles, precisam ainda de aperfeiçoar mais os seus dotes.

O que deu origem à criação da primeira Casa de Zouk?
A Casa do Zouk surge para dar resposta à demanda do movimento Zouk que se fazia e que ainda se faz sentir em Angola. Os antilhanos passaram a ser ouvidos no país através da boa música que produzem. Nenhum angolano ousou algum dia explicar-nos quem são estes artistas antilhanos? de onde vêm? Por que é que tocam extraordinariamente bem? A Casa do Zouk surge precisamente para analisar, responder e assinalar estas questões. Gostaria de frisar que há cinco anos que temos um espaço, o Zouk Non Stop na Rádio Mais, emitido aos domingos, das 16h00 às 18h00. Neste espaço de música informação e análise, o ouvinte acaba repleto de conteúdos.

A Casa do Zouk passou a ser o ponto de encontro obrigatório de artistas de várias origens e géneros musicais?
Afirmativo. Apesar de termos o zouk como padrão, a Casa do Zouk é um espaço de cultura. Todos os estilos derivados ou similares têm nela o seu espaço, que tem sido o ponto de encontro, para vários artistas e outros interessados.

Quanto à realização de eventos de zouk e semba, na sua opinião é auto-suficiente?
Infelizmente ainda não são suficientes. Os custos de produção de um Show Live com, pelo menos uma banda de até 8 a 10 artistas, são muito elevados, deixando o investidor ou promotor quase sem margem de lucro. Estou apenas a referir os shows em salas fechadas, com assistência que chegam até 400 pessoas, para não mencionar os espectáculos de multidões, que exigem muito mais recursos humanos e financeiros, a não ser que existam patrocínios.

Que recordações tem dos maiores expoentes do zouk no mundo?
O maior expoente do zouk no mundo é o grupo Kassav. O zouk nasce com Pierre Edouard Decimus e o Kassav. Logo, as recordações são fenomenais, apesar de existirem outros nomes de referência, como por exemplo Experience 7, Zouk Machine, Gasoline, Champagne e outros.

O que os músicos antilhanos falam sobre o estilo angolano?
Eles ouvem a música angolana quando lhes é dada. Os estilos de Angola têm força para andar, principalmente o semba, que tem semelhanças com o kompa, um género musical desenvolvido no Haiti nos anos 1950.