O jornalista e investigador, ligado ao Centro de Estudos da Universidade Católica de Angola, José de Oliveira, disse esta semana, à Rádio nacional de Angola (RNA), que o país vai continuar a viver da importação de combustível, porque a modernização da Refinaria de Luanda e a construção das refinarias de Cabinda e Lobito vão levar alguns anos. “Mas, se forem construídas e funcionarem, pois, o país tem petróleo de várias qualidades, as refinarias não terão depois problemas de virem a ser abastecidas”.

Continuamos ainda a depender muito da importação de produtos petrolífero?
Quando não era muito caro não aumentamos, nem modernizamos a Refinaria de Luanda. Há 15 anos, andamos a pensar na Refinaria do Lobito e não fizemos o mais simples. Primeiro, era preciso modernizar e aumentar ligeiramente a Refinaria de Luanda, para depois partimos para outro projecto. Foi uma decisão estratégica, quanto a mim errada, mas foi tomada e encontrou outros problemas. O que é facto, andamos 15 anos a pensar na Refinaria do Lobito e ela ainda não está construída.

Diz que não foi a decisão mais acertada do momento?
Prova-se que, se calhar, não foi a decisão mais certa. Mas pronto, agora há um novo contexto político para isso e penso que, desta vez, quando fazermos a inauguração e olharmos para trás, diremos que demorou 20 anos para se por aquele projecto no ar.

Talvez os interesses para Luanda não convinham?
A Refinaria do Lobito foi um dos principais motivos. Mas, nós criamos e houve várias hipóteses, até com parceiros estrangeiros, para se aumentar a Refinaria de Luanda para cerca de 80 mil barris, para estarmos mais ou menos auto-abastecidos. Não direi totalmente. Não é preciso que o país seja 100% abastecido internamente. O PIB pode ser até de 70 ou 80 por cento e já tem uma base de segurança grande.

Qual é a solução para a refinação de produtos petrolíferos em Angola?
Está-se a melhorar a Refinaria de Luanda e parece que esse processo vai continuar, assim como persiste a decisão de se fazer a nova Refinaria no Lobito. Por outro lado, a construção da Refinaria de Cabinda parece que está tudo bem encaminhado, pelos dados que tenho. É pequena, é um investimento privado e penso que vai avançar. As condições estão criadas.

A recuperação da Refinaria de Luanda ainda vai levar anos?
A recuperação da Refinaria de Luanda ainda vai demorar alguns anos e a construção da do Lobito, se arrancar, também vai demorar uns anos. Acho que vamos continuar a viver de importação de combustível por alguns anos. Mas se forem construídas e funcionarem, pois o país tem petróleo de várias qualidades, acho que as refinarias não terão depois problemas de virem a ser abastecidas.

Teremos no Lobito uma impotente infra-estrutura para tudo?
Os investimentos em refinação moderna são muito elevados e nós temos ainda outra dependência, que são os custos muito elevados de se construir em Angola. Angola é um país caro em construir, tendo em conta que uma mesma refinaria construída nos Estados Unidos pode custar aqui duas vezes mais, por diversos factores. Mas não é só em Angola. Em vários outros pontos do mundo, que não nos centros em que há tecnologia e capacidade humana, seria o mesmo.

Em termos de operacionalidade?
A operação da Refinaria do Lobito, como uma refinaria moderna e sofisticada, depende muito de imputs importados e vai depender, nos primeiros anos, de muita mão-de-obra estrangeira. Não direi muito em termos quantitativos, mas vai depender muito de uma mão-de-obra que é cara. Isso torna os custos operativos elevados. Depois são as questões de electricidade. Esperemos que, quando a refinaria arrancar, haja já capacidade de abastecê-la através da rede nacional de electricidade.

Há sérios problemas nisso?
No Lobito e Benguela, como sabemos, há grandes problemas de abastecimento de electricidade ainda. Cabinda também, só que a Refinaria de Cabinda é pequena e Cabinda pode resolver com gás, com centrais à gás. Cabinda pode resolver mais rapidamente e pode aumentar a capacidade de geração com turbinas, porque tem gás para isso.

Lobito não tem gás, nem turbinas à gás?
Lobito já não tem gás ao lado. Portanto, é mais complicado e fica económico ser abastecido pela rede nacional. A refinaria será nova e grande e tem um consumo de electricidade bastante elevado. Ainda por cima, provavelmente a Refinaria do Lobito vai dessalinizar a água para o seu consumo. Uma refinaria tem um consumo muito alto de água, em torno de centenas ou milhares de metros cúbicos por dia. O mais provável, como se usa modernamente, é que não se usem águas que podem ser adaptadas para abastecer as populações e a agricultura.

Claro que nisso não se aconselha muito para o litoral?
Lobito e Benguela não são muito ricos em água. Temos o rio Catumbela, que é fonte de abastecimento da região, mas, o mais provável é que tenha de se avançar mesmo pela dessalinização, um processo que consome bastante energia. Vamos ver. Como construir refinaria demora 4 anos, penso que nessa altura a rede nacional seja já capaz de abastecer Lobito e Benguela com todas as necessidades, incluindo a da refinaria.

Normalmente, quando se fala em petróleo, porque olhamos sempre para o gás?
A nível do gás, a primeira prioridade que há no país é desenvolver alguns campos de gás descobertos na região a volta do Soyo, para aumentar e garantir o abastecimento do Angola LNG. Essa é a primeira prioridade, porque se não o Angola LNG corre riscos, daqui há 3-4 anos não ter gás suficiente para funcionar, o que seria um prejuízo muito grande.

Muito perto, na Bacia do Kwanza temos bastante gás?
Com pesquisas, descobriu-se gás na Bacia do Kwanza. Aliás, há muitos especialistas que acham, e uns já achavam, que o Kwanza é uma bacia mais de gás do que petróleo, onde existe alguns campos de petróleo muito leve, no pré-sal. Mas, descobriu-se mais gás, proporcionalmente. É preciso desenvolver esse gás.

Como?
Como não está ainda definido, sei que a Sonangol anda a procura de companhias que queiram pegar nos dois blocos que tem mais gás e que tem petróleo em simultâneo, para compensar, pôr em produção petróleo e depois tentar pôr em produção gás e ver como é que se vai aproveitar. O grande problema do gás é crítico, uma vez que Angola depende mais de centrais hídricas para geração de electricidade e não precisa do gás como fonte primária para energia eléctrica.

O que se pode esperar das reservas da Bacia do Baixo Congo?
Precisaremos do gás para a central no Soyo. Possivelmente, teremos mais tarde outra central a sul de Luanda, para equilibrar o sistema, por causa das secas. Depois da experiência do Brasil, daqui a alguns anos ninguém quer mais ficar pendurado só nas centrais hidroeléctricas. Mas, uma grande central a sul de Luanda não chega para justificar a produção de gás que é muito cara e que está em águas profundas. Portanto, precisam-se outros componentes para se aproveitar o gás.

É complexo o processo de produção de gás?
O petróleo a gente produz e exporta. O gás tem de ser produzido e depois transportado ou liquifado, ou então usá-lo para fazer produtos, como adubo e pode-se fazer petroquímica de base e usar em centrais. O processo de produção do gás tem de ser um processo que, quando se põem em produção um campo de gás, tem que se saber onde é que se vai utilizar essa produção. Não é como o petróleo que eu ponho em produção e já sei que vou vender, vou meter num barco e vai para a China ou para os Estados Unidos.

Não ocorre o mesmo com o gás?
O gás não é a mesma coisa. Ainda por cima, talvez um bocado do nosso azar, o Kwanza está longe do Soyo. Porque se as descobertas que foram na Bacia do Kwanza fossem nos blocos da Bacia do Congo, o que se fazia era aumentar a capacidade do Angola LNG. O ALNG tem capacidade para duplicar, tem espaço para meter mais um trem e o problema ficava resolvido de imediato. Mas, como está um bocado longe, é preciso calcular, mas é preciso fazer-se um estudo económico, que está um bocado longe, de maneira que é possível que seja anti-económico. Não sei!

Se não for possível enviar para o Soyo, o que fazer?
É preciso criar formas de o aproveitar após a produção. Esse processo demora uns anos e tem de ser muito bem coordenado. Sabemos que no país temos uma grande dificuldade, quando temos de coordenar três projectos ou adiar ao mesmo tempo. Temos tido sempre uma certa dificuldade. O exemplo mais caricato que dou sempre, é o da electricidade. Acabam-se as barragens e as linhas não estão prontas para escoar. Nós temos isso com o Laúca, temos isso com Lomaum. Já tivemos isso com Capanda, enfim... É uma doença que ninguém percebe. Quando lá fora me perguntam, porque isso acontece, tenho muita dificuldade em explicar. Porque acabamos uma barragem e depois não temos as linhas para escoar. Agora andamos aflitos! Soube que a linha para o Huambo está quase pronta, para começar a escoar Laúca. Mas, por exemplo, ainda não estão prontas as linhas que vão escoar Laúca para Luanda.