A Maersk Line, empresa de transporte marítimo de cargas, pertecente ao grupo AP Moller Maersk (da Dinamarca), que também tem  interesses em vários segmentos de negócios, como de petróleo e gás, movimenta em média 95 mil toneladas de produtos por mês, o que corresponde a cerca de 7 mil a 8 mil unidades. O director da companhia em Angola, Cláudio Rosa, disse em entrevista ao JE que Angola é um mercado estratégico para o grupo, pois tem vindo a registar um ciclo de grande crescimento há vários anos, impulsionado pelo esforço de reconstrução do país e o aumento do consumo de produtos alimentares, daí justificar-se o investimento feito que  já ultrapassa os 20 mil milhões de dólares ( 1 trilião 913 mil milhões e 400 milhões de kwanzas).

De que forma avalia o mercado de transporte marítimo em Angola?  
O mercado de transporte marítimo em Angola difere dos mercados globais, principalmente no equilíbrio que existe entre a importação e a exportação. Aqui, verifica-se uma predominância na importação. O mercado tem vindo a registar um ciclo de grande crescimento há vários anos, impulsionado por dois factores principais: o esforço de reconstrução do país e o aumento do consumo de produtos alimentares. Ultimamente, temos verificado uma outra dinâmica que é de assinalar e que tem a ver com o facto de a dependência de produtos originários de Portugal ser cada vez menor. Hoje, países como a China, os Estados Unidos e a Bélgica têm exportado bastantes produtos para Angola, sejam alimentícios, sejam electrónicos.

Por que razão considera que Angola é um mercado estratégico em África?  
A razão principal está no facto de que o país vive um momento isolado do resto do mundo, sobretudo em termos de crescimento do PIB. Enquanto o mercado europeu regista taxas que variam entre -1 e 2 por cento, Angola tem mostrado um crescimento exponencial que chegou a ser de 11 por cento nos últimos anos. Portanto, Angola é vista como um mercado em desenvolvimento e em franca ascensão.

Com a entrada da pauta aduaneira no país, muitos produtos que dominam a importação podem ver as suas taxas agravadas. A sua empresa não vai perder mercado?  
Mesmo com taxas altas de importação, a população ainda necessita da reconstrução e dos produtos alimentares. A nossa contribuição reside especificamente no transporte destas mercadorias. Haverá, sim, uma diminuição no início, após a implementação de novas taxas. Porém, acreditamos que o mercado acaba por se adaptar e novos produtos com custos mais competitivos acabarão por entrar no país para compensar qualquer aumento de taxa. É claro que a Maersk Line procura melhorar os custos operacionais, para repassar aos clientes que também são obrigados a absorver mais custos.

Em função do crescimento da economia angolana, qual é a estratégia que a Maersk Line definiu para os próximos tempos?  
Como dito antes, o mercado está bastante dinâmico. Hoje, temos a China como uma das maiores exportadoras para Angola. Mas a Tailândia também teve um crescimento de 40 por cento comparando com os valores do ano passado. A Maersk Line precisa de estar atenta às tendências e oferecer produtos confiáveis e de rápida reacção, para que nenhum produto falte à população. Além de continuar como principal transportadora de produtos frigoríficos para o país, onde muita da carga que hoje é transportada de maneira solta, a granel, vai passar a ser convertida em unidades de contentores. Queremos também melhorar a frequência das escalas, para poder contribuir com melhorias para os custos logísticos do país. Não podemos esquecer que existe ainda muita relutância na gestão do armazenamento de bens, uma vez que, historicamente, o país viveu momentos de congestionamentos e gargalos que hoje, felizmente, não existem mais.

A celeridade na entrega de produtos é sinal de que os portos em Angola estão cada vez mais modernizados e competitivos?
A eficiência dos portos é praticamente um resultado da procura do consumo. Hoje, quem dita o avanço é o público e as mercadorias exigidas pelo mesmo. Antigamente, teríamos de esperar pela época da colheita para poder consumir uma específica fruta; hoje em dia, quem vai aos supermercados exige que aquela fruta esteja disponível durante os 12 meses do ano. Portanto, a carga deve chegar todas as semanas e ser posta e descarregada com agilidade. Sendo assim, os terminais portuários estão a ser obrigados a aumentar a produtividade e a melhorar os equipamentos para poder atender ao consumidor final que é o próprio público.

O que deve ser feito para que as unidades portuárias sejam mais competitivas, em relação a dos outros países da região de África?  
Se estamos a falar de terminais portuários, definitivamente que o primeiro ponto a ter em consideração é a existência de portos com águas mais profundas. Hoje,  há uma tendência visível de aumentar cada vez mais o tamanho dos navios de carga e a verdade é que estes estão a ser cada vez maiores. A Maersk Line lançou recentemente o maior navio do mundo, com a capacidade de carregar 18 mil unidades de 20 pés, enquanto o maior navio que já escalou em Luanda tem 4.500 unidades. Portanto, olhamos com bastante esperança a abertura de novos portos adequados a navios com calados maiores o custo das mercadorias que chegam ao país diminua e possam ser feitas escalas directas, sem transbordos intermédios.

Qual é a média mensal de toneladas de mercadorias movimentadas?  
Movimentamos em média 95 mil toneladas mensais, o que corresponde a cerca de 7 mil a 8 mil unidades.

Qual é o produto que mais se importa?   
Produtos alimentares em geral, desde a farinha de milho até aos laticínios e às carnes bovinas. A Maersk Line detém entre 40 a 50 porcento da fatia do mercado em transporte de contentores frigoríficos. Essa é a nossa maior especialidade.

A sua empresa lançou recentemente um relatório comercial para o segundo semestre deste ano. Quais os fundamentos deste documento?  
Trata-se de um documento que é apresentado publicamente, onde se revelam os dados mais significativos da operação portuária, além do relatório financeiro sobre a empresa. O relatório divulgado em Luanda, na semana passada, pela Maersk Line Angola revela que a empresa apresentou um lucro de 643 milhões de dólares no primeiro semestre de 2013, o que corresponde a uma melhoria de mil milhões de dólares em comparação com o mesmo período do ano passado. Essa significativa mudança deve-se essencialmente a uma redução dos custos operacionais. Paralelamente, o relatório da actividade permitiu partilhar com o mercado dois dados muito interessantes que se estão a verificar em Angola. Por um lado, o facto de cada vez mais as importações angolanas registarem uma maior independência do mercado lusófono – com o registo de um grande crescimento de importações de outras proveniências, tais como a China, a Tailândia, Bélgica, a África do Sul e os Estados Unidos da América. Por outro, a constatação de que o transporte de mercadorias alimentares em contentores frigoríficos está a ganhar terreno na preferência dos importadores, em detrimento da carga que antes era transportada de maneira solta, a granel.

A carga a granel é, frequentemente, a preferida por ser menos dispendiosa e, por vezes, mais rápida para transportar mercadoria refrigerada?  
Sim. Porém, o público consumidor exige que a carga chegue até às prateleiras (ou frigoríficos) de maneira intacta, o que não acontece quando esta é transportada a granel. Portanto, mesmo com um custo adicional, existe uma contrapartida na qualidade do produto e consequente aceitação do mesmo no mercado. Hoje, transportar alimentos em contentores frigoríficos, garante essa tal qualidade e a Maersk Line, por ser especialista nesta área, tem contribuído, e muito, para a saúde e nutrição apropriada do povo angolano.

Quais os principais mercados onde são abastecidos os navios cargueiros?  
Vários mercados. Se estivermos a falar de carga a granel, normalmente vem da Europa ou até mesmo do Sudeste da Ásia, trazendo essencialmente o arroz. Os navios frigoríficos trazem peixe dos Estados Unidos. É muito variável, como vê.

Poderia enumerar os países que mais mercadoria enviam para Angola?
Em termos de tonelagem, temos a China, Portugal, Coreia do Sul, Brasil e Bélgica. Entretanto, como havia informado antes, em termos de crescimento de volume, os Estados Unidos, a África do Sul, a Tailândia e a Bélgica fazem parte do grupo de países que mais se destacaram neste ano.

Os custos associados aos contentores refrigerados fazem com que mais empresas adiram aos novos serviços. Poderia avançar o valor de transportação de uma região para outra?  
Um contentor refrigerado, quando transportado entre o Brasil e Angola, por exemplo, gira em torno de 6 mil dólares; já um que venha de Portugal com carga seca, custa cerca de 3.800 dólares.

Quais as empresas que mais solicitam os vossos serviços?  
As empresas que hoje procuram mais os nossos serviços são as de distribuição. Seja para o mercado retalhista, seja informal. As mesmas concentram a procura por produtos alimentares e não alimentares. Existe também uma grande solicitação nos materiais de construção principalmente provenientes do extremo Oriente.

Que tipo de investimento foi realizado pela empresa nos últimos anos?
Globalmente, os investimentos da empresa têm sido em navios de grande capacidade conforme mencionado. Em Angola, no ano passado, trouxemos o maior navio contentor que já atracou em Luanda. Conhecido como Wafmax, tem 250 metros e foi construído especificamente para atracar em portos africanos da costa Oeste. O Wafmax é uma unidade que, tendo maior capacidade de carga, é mais larga, para compensar a pouca profundidade dos portos desta zona, além de contar com guindastes próprios para a operação.

Qual é o valor global dos investimentos?   
Hoje, o capital investido pela Maersk Line é superior a 20 mil milhões de dólares. É o principal negócio do grupo AP Moller Maersk, que também inclui as unidades de petróleo e de terminal portuário.

O transporte de mercadorias é rentável. Qual é o volume de facturação anual da Maersk Line?  
Não tão rentável como esperamos. Ainda estamos aquém de uma indústria estável. No entanto, estamos muito orgulhosos dos resultados do primeiro semestre, considerando a pressão na redução dos fretes marítimos. A Maersk Line teve uma facturação de quase 13 mil milhões de dólares neste primeiro semestre do ano. A redução do custo operacional foi crucial para que pudéssemos apresentar um lucro líquido de 643 milhões de dólares.

Até que ponto favorece a medida tomada pelo Executivo de revogar as inspecções pré-embarque a partir dos países de origem?  
Na nossa concepção, existirão companhias ainda a fazer inspecções pré-embarque para a garantia da qualidade da carga. Talvez a médio prazo já comecemos a ver algumas empresas a adaptar-se ao novo decreto e a encontrar mais facilidades na exportação.