O presidente da Associação de Empresas de Geociências e de apoio ao Sector Petrolífero, Horácio Fortunato, defende que se corrija a actual estratégia de exploração do petróleo, pelo facto deste continuar a privilegiar a mão-de- obra e as empresas expatriadas.

Qual é a missão da Associação?
A Associação de Empresas Angolanas de Geociências e de Apoio ao Sector Petrolífero (AEAGASP) foi criada com o objectivo de fortalecer as capacidades técnicas e científicas das empresas do sector petrolífero e das universidades angolanas.

Que balanço faz em relação as actividades que desenvolveu em 2017?
Em 2017, realizamos a conferência de constituição da Associação. Além da tomada de posse, o acto concebeu o projecto profissionalizante para harmonizar a coluna estratigráfica das Bacias Sedimentares de Angola. Seguiu-se o projecto de Harmonização Estratigráfica, apresentado ao ministérios dos Petróleos e o da Geologia e Minas. Assim, aguardamos a aprovação dos respectivos ministérios, por ser uma iniciativa de desenvolvimento empresarial privada e profissionalizante, com a componente de custo zero para
os cofres do Estado angolano.

Quais são as principais linhas de força da Associação?
Entre as linhas de força, consta o apoio às autoridades a compreenderem a actual situação da indústria petrolífera angolana e também para que percebam que com a redução da produção de petróleo bruto de um pico de dois milhões de barris/dia em 2014, para uma média de 1.600 barris em 2017, a função concessionária da Sonangol foi bloqueada. Deixou de investir na exploração, no desenvolvimento e no conteúdo local, criando grande diminuição nos recursos descobertos. Por outro, é também das linhas de força da Associação ajudar as autoridades a compreenderem, que a partir de 2015, as companhias petrolíferas, incluindo a Sonangol, com o argumento da baixa dos preços do crude Oil, reduziram quase a zero o orçamento de exploração, incentivando as empresas estrangeiras a transferirem os estudos de processamento sísmico e de interpretação para fora do país. E como consequência, observa-se por um lado o fecho dos centros de exploração, metendo em perigo as futuras descobertas e o país sem óleo para as futuras gerações, por outro lado, deixando as empresas angolanas e estrangeiras de serviços e de geociências sem projectos. Houve perfuração de poços comercias, com descobertas de recursos petrolíferos de 1 bilhão de barris de petróleo/ano e consequente aumento de recursos recuperáveis em 40 por cento. Neste período, a Sonangol Concessionária tinha cerca de 35 Joint Ventures- (parcerias entre empresas angolanas e estrangeiras).
Em 2009, a Sonangol iniciou o Projecto de avaliação do potencial petrolífero remanescente das Bacias Sedimentares Terrestres, para integrar as empresas angolanas petrolíferas e de serviço nos blocos a licitar. Já em 2012 foi aprovada uma nova estratégia de exploração e de produção em Conselho de Ministros, com o objectivo de estabilizar a produção de petróleo bruto de Angola em dois milhões de barris a curto prazo e atingir a produção de três milhões de barris de petróleo dia em dez anos, até 2024, bem como aumentar as reservas próprias da Sonangol e desenvolver o conteúdo local.

E o que mudou?
Incompreensivelmente, depois da estratégia ter sido aprovada, a equipa do upstream foi exonerada, levando toda a exploração de petróleo a um impasse. Depois da exoneração da equipa do upstream e sem respaldo legal, a Sonangol iniciou um processo de licitação de 15 blocos de risco, contrariando o Decreto Legislativo Presidencial
n.º 8/13, de 17 de Outubro.

O que espera do actual Conselho de Administração da Sonangol?
A nomeação do novo Conselho de Administração da Sonangol abre novas perspectivas na execução das Bases Estratégicas de Licitação, de Exploração e de Produção já aprovadas pela Assembleia Nacional.

Vozes críticas defendem que esta estratégia de exploração não é viável a julgar pelo actual preço do barril, uma vez que são necessários cerca de 8 mil milhões de dólares para executá-la em 10 anos?
O valor de 8 mil milhões de dólares refere-se aos custos de projectos a realizar (levantamentos geofísicos, geológicos e poços), que seriam financiados por um investimento integrado da indústria petrolífera e já assegurados na altura. Os riscos de exploração seriam dirimidos a custo zero pela concessionária nacional-Sonangol ou em parceria.

Mas se o financiamento estava assegurado, por que a estratégia não foi implementada ?
Depois da estratégia ter sido aprovada em Conselho de Administração da Sonangol, em Conselho de Ministros e na Assembleia Nacional, várias companhias petrolíferas no âmbito do financiamento integrado licenciaram os dados geofísicos e geológicos da bacia terrestre do Baixo Congo e do Cuanza e Bacias Interiores, para a avaliação conjunta destas bacias com a Sonangol nos blocos terrestres, quando todo o processo foi interrompido com a exoneração da equipa do Upstream.

Qual é o vosso posicionamento diante do impasse reinante na indústria petrolífera nacional?
A Aeagasp é oficialmente parceira do Governo eleito em Angola, para aconselhar as melhores práticas no ramo das Geociências. Por outra, estamos apreensivos por não termos sido consultados na nomeação deste novo Conselho de Administração, sobretudo da Sonangol.

Se tivessem sido consultados, o que sugeriam ao Governo?
Se tivéssemos sido consultados sugeríamos a nomeação de um geocientista para o Conselho de Administração. Pela primeira vez na história da Sonangol, não temos um, o que é muito estranho, pois a descoberta de novos campos petrolíferos é fundamental para executar a estratégia de exploração já aprovada.

O desenvolvimento e valorização do conteúdo local é a vossa principal bandeira?
Em países como o Brasil, por exemplo, o conteúdo local é de 60 por cento ou seja em 10 projectos gerados pela indústria petrolífera no Brasil seis são feitos por empresas brasileiras. Na Noruega, é de 90 por cento. Em Angola, o conteúdo local é quase zero. Veja-se que mesmo para pintar plataformas são recrutados trabalhadores estrangeiros.

A nível das empresas de geociências como é que tem sido tratado este assunto?
De 2005 a 2014, as companhias estrangeiras de Geociências em parceria com empresas angolanas instalaram quatro centros de G&G (Geologia e Geofísica) em Angola, que retiraram todos os geocientistas do desemprego. Efectuavam cerca de 20 por cento dos projectos de geofísica e de Geologia e davam estágios de fim de curso a universidades de Angola, assim como job training-(estágios profissionais) aos técnicos da Sonangol e operadoras. A partir de 2012, com o argumento da redução do preço do barril de petróleo, as companhias de petróleo, incluindo a Sonangol, reduziram o orçamento de exploração, resultando no encerramento destas unidades.

Qual a vossa sugestão para se melhorar o aproveitamento do conteúdo local na indústria petrolífera ?
É necessário aplicar a estratégia de exploração já aprovada, que tem não só o objectivo de aumentar a produção petrolífera em Angola, mas delinear também a integração das empresas angolanas petrolíferas e de serviço nos blocos em exploração. Criar um comité de exploração e de produção na Sonangol e filiadas, composto por técnicos que atingiram patamares mais elevados. Outra é sugerir uma nova legislação ao Governo para o conteúdo local. Como exemplo, as companhias petrolíferas e de serviço são obrigadas a ter uma parceria com empresas angolanas para poderem trabalhar em Angola. Outrossim, assegurar, igualmente, o desenvolvimento do conteúdo local e consequentemente, contribuir para a estabilidade económica do país. Os lugares de gestão das companhias estrangeiras de petróleo e de serviços têm que ser ocupados por nacionais, como acontece na Noruega, Brasil, Nigéria. De igual modo, as companhias petrolíferas, incluindo a Sonangol , têm que orçamentar os projectos a serem realizados em Angola. As companhias estrangeiras já orçamentam os trabalhos “in house”, mas os mesmos são efectuados nas suas sedes de origem, deixando as empresas angolanas sem projectos e, consequentemente, o fomento do desemprego para os engenheiros angolanos.

Mas as companhias estrangeiras locais argumentam que os custos do conteúdo local tornam os projectos inviáveis, ou seja, o “cost oil” é muito elevado em Angola?
O cost oil (custos da produção do óleo) não tem a ver com o conteúdo local. O custo da participação do conteúdo local no projecto é irrelevante, tendo em conta os valores dos projectos em Angola. O valor do projecto é calculado caso a caso e depende muito da zona de exploração, localização estratigráfica e dos recursos efectivos nos reservatórios descobertos. É determinado em função da zona de exploração.