Não obstante as duficuldades e entravés que os produtores de café nacionais vivem, há uma esperança de que os próximos anos serão prósperos, facto que anima os agricultores que se dedicam à produção de café, cultura que já deu orgulho aos angolanos no passado.

O JE procurou o Presidente da Associação do Cafeicultores e Palmares de Angola e director geral da Nova Procafé, João Ferreira, para saber, à semelhança de 2018, o estado actual do sector, as grandes dificuldades dos fazendeiros e o que esperam para este ano.

A última vez que conversamos sobre o café foi em Outubro do ano passado. De lá para cá o que é que mudou na actividade do café?


O café continua a ser uma matéria que todos os angolanos deveriam ter interesse em abordar, questionar e conhecer, pois, ainda é uma das maiores riquezas do país. Entretanto e não sei porque razão, está praticamente relegado ao último plano. A resposta é simples, nada mudou. Se quiser um exemplo prático aqui está. Há dois anos que ninguém compra o café em Cabinda, porque o único operador, se quisermos comerciante, que comprava o produto, ficou sem os meios e os cafeicultores que estavam motivados, hoje estão praticamente sem ânimo para produzir.

E qual é a reacção do Estado diante deste cenário do caso Cabinda?


As únicas reacções que conheço foram a reafirmação de programas de apoio à produção, como o Prodesi, onde entre outros, consta o café como um dos produtos seleccionados como prioritários e a bem pouco tempo um outro projecto, o da Agricultura Comercial, que foi bem elaborado, cujos termos de referências seriam dados a conhecer aos interessados em Abril e Maio deste ano. Esse período esgotou-se e pelos vistos a tendência é a “montanha parir uns ratinhos” e pouco mais nada do que isso mesmo.

Parece que, à semelhança de outros sectores, vai ser necessário o empenho pessoal do Presidente da República, não?


Já em outras ocasiões referi e torno a fazê-lo, que é apelar os bons ofícios do Chefe de Estado, para um empenho pessoal, do género que acontece nos sectores dos petróleos e dos diamantes. Ele é a única esperança. Porque a continuar à mercê do Ministério da Agricultura, continuaremos a fazer as mesmas perguntas e igualmente as respostas serão as mesmas.

Talvez com a entrada em cena do novo director no Instituto Nacional do Café (INCA) as coisas possam mudar. É dessa visão?


Temos um novo Director, a quem aproveito esse espaço para reiterar as minhas felicitações e augurar os melhores sucessos. Acho que se deveria aproveitar o embalo da mudança para dar uma lufada de ar fresco ao subsector do Café, não para realização de workshops, fóruns etc. que nunca resultam em nada, basta quantificar as tantas realizadas e até hoje não se vê os resultados - mas com alocação de mais meios para reorganizar as Estações Experimentais, as Brigadas Técnicas, os centros ou unidades de processamentos de café, que estão praticamente desactivadas e ou inoperantes.

É assim tão dificil reorganizar o este subsector?


Claro que não, basta que haja vontade e diálogo com os parceiros, tudo corre bem. É preciso ainda doptar o Instituto com jovens quadros, e andam por aí muitos: biólogos, engenheiros agrónomos, gestores, informáticos, fitossanitários, degustadores, operadores de máquinas, trepeiros e outras especialidades para as coisas funcionarem. Há um sem números de desempregados a diambularem por aí e a falar mal de tudo e de todos por falta de ocupação. Esses poderiam ajudar recolocar Angola no patamar que já fora seu, por força das condições naturais dos seus solos e clima e ainda pela bravura das sua gente, podemos conseguir.

Qual é o estado actual do café no país?


O estado actual do café no país se caracterisa por uma inoperância profunda e não encontro razões para tal. Para produzir café não precisa despender somas astronómicas como se pretende fazer crer. Basta injectar uns kwanzas para as desmatações, capinas, abertura de covas, produção de mudas, distribuição organizada dessas mudas aos cafeicultores num sistema de fomento em todo país.
Por outro lado, deve haver a fabricação de materiais agrícolas como catanas, limas, enxadas, machados e logo veremos que nos próximos três anos a situação muda radicalmente, culminando com a instalação de indústrias de café (secadores via húmida, descasques, torra e moagem) e assim recomeçar com as exportações, que trariam cambiais. Com isso estariamos a empregar milhões de jovens de todos os extractos, letrados e não só.

Como está a Nova Procafé neste momento e que actividades pretende realizar durante o ano em curso?

Não obstante as duficuldades e entraves que gostariamos rapidamente ver ultrapassadas, como é o caso da atribuição de júri do seu património, está a dar passos firmes e seguros. Por exemplo está a preparar e a dar início as primeiras exportações de café. Além disso, iniciou a recuperação e reabilitação de uma grande fazenda no Cuanza Norte, que vai contribuir para a produção de mudas e viveiros de café, cacau e palmar que conta com as parcerias do Banco de Comércio e Indústria (BCI) e do Governo do Cuanza Norte, cujo projecto está concluído.

Produção aquém das espectativas

Este ano há previsões de aumento da produção de sacas?  


Ainda não se pode aferir se haverá ou não maior produçã0. Não se compra a tempo o café, mas não é culpa dos cafeicultores. Este factor vem sendo um elemento inibidor à produção. A colheita inicia já nos próximos dias e oxalá que a mesma resulte num maior número de sacas, mas a verdade é que a produção ainda está aquém das espectativas locais que nos possa orgulhar.

Qual é o preço actual do café no país e quanto é que custa no mercado internacional?


O preço no mercado interno vai dos 300 aos 360 Kwanzas o quilo do café Ambriz e acima de 500 kwanzas o Amboim, enquanto que no mercado internacional e não obstante a seca que assola alguns países produtores, que conhece uma das suas piores fases, a tonelada varia  mil e 300 a mil e 400 dólares, muito embora a tendência é subir, por conta dos mercados emergentes. Os maiores consumidores estão na Rússia, Ucránia e nos países vizinhos. A China, cuja procura do café angolano é, diria, fernética não pode ser ignorada.

Por que é que continua haver uma certa resistência do Estado em apoiar os produtores locais?  


Não considero haver uma certa resistência por parte do Estado em apoiar os produtores. O que há, penso, é um deixa andar. Não há acutilância por parte do sector que tem a missão de dinamizar, incentivar e fazer com que o esperado fomento da produção aconteça no rítmo e tempo desejados.
Há uma tímida produção em Cabinda de um milhão de mudas, cacau e palmar, que estão a ser distribuidas aos produtores, que conta com apoio do Fundo de Desenvolvimento do Café de Angola (FDCA) que aplicou 30 milhões de kwanzas. Para aquela território pode ser bom, mas para o universo do país, é uma gota no oceâno.