Que ganhos considera terem ajudado no crescimento económico de Angola durante os últimos 17 anos desde o alcance da paz no país?

Em primeiro lugar a paz em si, foi o maior e o mais importante de todos ganhos, pois só desta forma, poderíamos ganhar fôlego para inverter a tendência da nossa economia que se apoiou no petróleo para fazer o esforço de guerra, apoiou-se no petróleo para fazer o esforço de reconstrução e agora se está apoiar no petróleo para fazer o esforço para crescer economicamente. Durante o período de paz, obtivemos taxas de crescimento bastante altas (alternadas com muitas taxas negativas). Neste contexto, o ganho da estabilidade política e normalização do funcionamento das instituições, luta contra a corrupção e impunidade e a conquista de credibilidade internacional, serão fundamentais para atracção de investimento estrangeiro, e estar em condições de substituir as importações e diversificar as exportações.

Os desperdícios, ou seja, os factores que retardaram o crescimento económico foram motivadas por más políticas governativas ou por acções individualistas?

Acredito que hoje não seja o momento para apontar o dedo a quem quer que seja, pois justificações haverão milhares. O importante é que a governação actual identificou a corrupção como o principal cancro da nossa sociedade e está a combatê-la de frente para que os mesmos erros não se cometam nem as pessoas se voltem a sobrepor às instituições. A corrupção desviou os recursos escassos que sobravam do processo de reconstrução nacional, deixando, assim, a economia e o sistema financeiro opaco e sem capacidade de resposta para financiar o empresariado nacional, que por si tinha e ainda tem, de competir com o Estado pela obtenção de financiamento. No nosso entender, temos tudo para seguir outro caminho e assim o faremos, com e entendimento que processo de crescimento económico não será movido unicamente pelo Estado, mas sim pelo sector privado como criador de empregos, de riqueza e de maior volume de arrecadação fiscal.

A crise económica e financeira do país é pretexto suficiente para que Angola não cresça o suficiente até ao ponto de entrar-se para uma recessão acentuada?

A crise financeira foi o principal indutor da desaceleração económica que o país sofreu, não tenhamos dúvidas, pois apoiados no petróleo para continuar a importar tudo que consumimos, sem nos preocuparmos seriamente em utilizar estes recursos para começar a produzir e deixar de depender de importação. O Estado não foi bem-sucedido na reconstrução e construção de infra-estruturas bases para a actividade empresarial prosperar, e os próprios empresários nacionais e estrangeiros preferiram investir em serviços e fundamentalmente na importação de bens acabados do que montar linhas de produção e de montagem internamente. No fundo, o que falhou foi a correcta alocação de esforços e recursos, a economia cresceu à volta do petróleo, diamantes e importações excessivas, deixando de lado todos os critérios reais de estabilidade e sustentabilidade económica.       

Acha que a economia está em lenta recuperação, mas com novos alicerces?

A recuperação é um facto, não apenas pelo crescimento económico (ainda que baixo para as nossas aspirações), podemos ver pela redução da taxa de inflação de 40 por cento em 2016 para menos de 18 por cento em 2018, pela nova abertura da economia ao investimento estrangeiro pela nova estratégia de valorização do micro, pequeno e médio empresariado privado nacional, pela intenção convertida em acções de privatização ou redimensionamento do sector empresarial público, pela entrada em funcionamento do Processo de Parcerias Público Privadas (PPP) e principalmente pelo esforço de recuperação de recursos e activos ilegalmente retirados do país, pois aqui, se está a dar um importante passo na moralização da sociedade e da economia, o que traz mais previsibilidade às trocas comerciais e agrada os mercados internacionais.

Qual é a fórmula mágica para que se aumente a competitividade da produção não petrolífera e para o desenvolvimento do sector nacional privado?

A fórmula mágica é simples, trabalho, abnegação, sacrifício, sentido de Estado e o espírito de missão. Por parte do Estado que deve ser o mais abnegado possível para distribuir os recursos, que são escassos, para onde estes de facto são necessários e rentabilizáveis, na criação de leis e normais aplicá-las de facto, no acto de supervisionar a actividade económica  sem apertar para não sufocar.
Por outro lado, o cidadão deve ser exemplar a fazer a sua parte, como integrante da função pública, ajudar o Estado na sua tarefa, rebuscar o seu espírito empreendedor, criando negócios formais que criem riqueza para si, empregos para os nossos compatriotas e
mais impostos para o Estado.

Nova era, novas políticas

A rigorosidade na gestão das finanças públicas, o combate ao crime económico e corrupção são sinais de que possamos assistir uma maior transparência do erário no país?

Naturalmente, e como já dissemos acima, a questão da moralização é importante porque os contribuintes que são taxados pelo Estado devem obter os bens públicos em troca, este é o pacto social que o Estado tem com os seus cidadãos. Se o Estado gerir melhor e de forma mais transparente, menor é a resistência das empresas e dos cidadãos em pagar impostos, bem como mais sacrifícios podem ser consentidos, pois é preciso sentir que quando há dificuldades todos sofrem e quando há prosperidade todos são beneficiados. As finanças públicas são o principal instrumento para o Estado implantar a justiça social e tributária e esta justiça não coabita com a corrupção. Neste contexto, a maior qualidade e lisura no processo de efectivação despesa pública é sempre acompanhado por maior transparência na governação, o que depois é certamente premiado no processo eleitoral seguinte.

Ainda encontram-nos distantes quanto à criação de condições para o incremento do investimento privado e na produção de bens e serviços com vantagens competitivas e para o aumento do emprego?

Acredito que sim, pois será um processo longo. Cremos que nunca em menos de 6 anos poderemos sentir efeitos que consigamos chamar satisfatórios. Mas tal, só será alcançável desde que se mantenha o curso actual de valorização das instituições, construção de infraestruturas básicas à produção nacional, e reconhecimento do papel do sector empresarial privado nacional como motor do crescimento e desenvolvimento económico nacional.
Desta feita, teremos noção de que bens devemos efectivamente produzir internamente, ou seja, aqueles que de facto apresentem vantagens comparativas em relação a outros países, criando, assim, empregos reais, formais e dignos para os angolanos. Este esforço conjunto, certamente que deverá sim revitalizar o sector financeiro nacional, fazer crescer a capacidade de financiamento nacional, relançar o investimento, abrir espaço para maior competitividade empresarial e desta forma revitalizar a produção nacional, que trará a substituição das importações e diversificação das exportações.

O Presidente João Lourenço deslocou-se à Rússia e já esteve em outros vários países. A diplomacia económica vai acabar por ser o esteio suficiente para garantir o esperado crescimento económico?

A diplomacia económica fez e tem feito a sua parte. Tem passado a imagem real do país que temos hoje e mostrado as potencialidades económicas nacionais. Abriu o país para o empresariado estrangeiro e principalmente engajou os países vizinhos e amigos no esforço de recuperação de recursos esbulhados do país, desta forma deu um sinal claríssimo de que pretende reforçar as instituições nacionais.
Este é sim mais um alicerce real e estrutural para cimentar um crescimento económico alicerçado na robustez do empresariado privado nacional e estrangeiro, que deverá ser responsável pelo reerguer da produção nacional e consequente aumento crescente e sustentável do Produto Interno Bruto (PIB).