A Associação das Agências de Viagem e Operadores Turísticos de Angola (AAVOTA) mostra-se preocupada com o actual ambiente económico no sector turístico.Em entrevista ao JE, o gestor da instituição que controla 150 associados das províncias de Luanda, Cabinda, Zaire, Benguela, Huambo, Bié, Huíla e Namibe defende mais incentivos.A AAVOTA é uma organização da sociedade civil angolana, sem fins lucrativos, voltada para a defesa dos interesses dos seus membros.Existe no mercado desde Outubro de 1997 e tem como parceiros o Ministério da Hotelaria e Turismo.

Quais são os principais desafios para se impulsionar o turismo interno?
As metas passam por uma população financeiramente estável e que consiga aplicar as suas poupanças para o turismo interno. Não é possível falar de turismo com uma população maioritariamente pobre. As estatísticas apontam que em cada 10 angolanos, nove são pobres e com isso não é possível falarmos do turismo interno. Com o eclodir da crise económica, que assola o país desde 2014, a situação piorou consideravelmente. A procura pelos serviços turísticos baixou consideravelmente na ordem dos 90 por cento. O outro desafio que estamos a enfrentar nesta altura é a VFS Global, uma empresa portuguesa, vocacionada para emissão de vistos, no mercado angolano que detêm, actualmente, o monopólio dos vistos no país. Neste altura, as agências de viagem estão a ser relegados para o segundo
plano, com este monopólio.

Num mercado de livre concorrência isto vos preocupa?
Temos consciência que o mercado angolano é de livre concorrência. No entanto, os reajustes na legislação angolana se opõe aos monopólios e oligopólios. O que estamos a registar com a VFS Global é um autêntico monopólio, na emissão de vistos no mercado angolano, tornando as outras agências inoperantes. A VFS Global emite vistos para países como Portugal, China, Brasil, África do Sul, França e Ucrânia. Estes países constituem a principal fonte de receitas para as agências do turismo no mercado angolano.

Que diligências a Associação tem vindo a desencadear para se ultrapassar este problema?
Felizmente, o que não falta é o bom senso por parte da AAVOTA. Desde 2018 que estamos a discutir esta situação. Já realizamos várias reuniões de trabalho com os gestores da VFS Global, mas sem sucesso. Levamos a preocupação para o Instituto de Fomento do Turismo também não resolveu. Com a entrada em funções da nova ministra da Hotelaria e Turismo, apresentamos uma vez mais as preocupações do sector e até à presente data, não tivemos qualquer resposta.

Há uma preocupação da quota no mercado?
A AAVOTA tem uma cifra considerável de micro e pequenas empresas que contribuem em grande medida, para a geração de postos de trabalho para os jovens. Estas empresas pagam impostos e projectam o país na arena internacional.
As primeiras iniciativas de investimento neste sector surgiram em 1964, infelizmente, estamos a viver o pior momento da nossa história, com a crise económica e financeira, aliada à concorrência desleal da VFS Global.

A emissão dos alvarás comerciais no sector tem conhecido alguma celeridade sempre que os seus associados solicitem este documento?
Os relatos que temos recebido indicam que não melhorou, antes pelo contrário, é mais fácil emitir o alvará comercial para um hotel de cinco estrelas, pois que ronda os 150 mil kwanzas, enquanto que para uma agência de viagem são necessários 400 mil. Também demora bastante para sair. É difícil trabalhar no mercado com esta realidade. Temos muitos operadores com o trabalho suspenso face a morosidade na emissão dos alvarás.

Associação tem organizado visitas para promover os destinos turísticos do país “Fantrippers Angola”?
A primeira iniciativa “Fantrippers Angola” registada no sector foi uma realização da AAVOTA. Estas iniciativas têm como objectivo dar a conhecer os destinos turísticos do nosso país para melhor captar atenção dos turistas nacionais e estrangeiros, levar os operadores a conhecer os destinos turísticos nacionais para se criar um ambiente para o turismo interno. No entanto, concluímos que não é possível falar do turismo internacional se o interno não for uma realidade.

Quais são os principais entraves da progressão do turismo interno?
Os entraves são vários. Vão desde a ausência do poder de compra dos angolanos. As pessoas ganham mal, como poupar para fazer turismo interno com a família! Existe ainda a problemática das infra-estruturas, nomeadamente estradas, rede de transportes, telecomunicações, rede hospitalar e hoteleira, segurança, melhoria na produção de alguns insumos obtidos apenas no mercado internacional.
Por exemplo, alugar um autocarro de 40 lugares e fazer a rota Luanda/Namibe, não fica por menos de 250 mil kwanzas.
Outra preocupação é que a banca nunca apoiou as agências de viagem.

“Os custos são muito altos”

As agências de turismo que operam no mercado angolano dispõe de pacotes turísticos?
Sim. Quando o país estava economicamente bem, a taxa de ocupação era saudável, mas a situação económica do país mudou muita coisa. Nesta altura, estamos a negociar dois acordos não bancários, que vão mudar o quadro no sector e aumentar a procura pelos destinos turísticos nacionais de modo a dinamizar a economia.  

Quais são os pacotes turísticos mais procurados no mercado nacional?
A preferência dos clientes continua a recair para as províncias do Namibe, Benguela, Huíla e Huambo. As do Cuanza Norte e Bengo, a marcha é lenta, onde às vezes acontece, com o turista a usar a viatura própria. Os preços variam de acordo com o destino e o volume de exigências do cliente. Outrossim, o câmbio flutuante está a dificultar a nossa actividade.

Qual é a sua ideia sobre a posição de Angola no ranking a nível da região e no mundo?
Apesar da ausência de um estudo comparativo para se aferir os actuais indicadores, acreditamos que estamos aquém dos indicadores, pois, além do Congo Democrático, estamos abaixo dos restantes. Quem conhece a África do Sul sabe que estamos muito aquém daquela realidade. Mesmo com a Namíbia precisamos de trabalhar mais, razão pela qual se chega a esta conclusão. Precisamos de rever a estrutura assim como as estratégias.

Até que ponto os acordos de isenção de vistos rubricado com alguns países está a contribuir para a promoção do turismo interno?
Penso que o instrumento lançado pelo Titular do Poder Executivo é de grande valia. No entanto, precisamos de interligar com os outros sectores para o alcance das metas desejadas. Os custos de passagem no mercado interno continuam muito altos. Temos que melhorar os outros sectores que intervêm nesta cadeia e equilibrar igualmente o câmbio.
Os únicos países onde estamos a registar algum interesse são a África do Sul, Namíbia e Cabo Verde, mas o movimento no nosso aeroporto baixou consideravelmente.

As agências de viagem já começaram a registar os ganhos do Fórum Mundial de Turismo realizado recentemente em Luanda?
Não! O Fórum Mundial do Turismo foi um fiasco. Recebemos a promessa que o país iria receber mais de 15 mil turistas e não vimos ninguém. Até agora não temos qualquer registo de turistas a visitar o país, no quadro do Fórum Mundial do Turismo. Precisamos de agregar todos. Já foi assim com as sete maravilhas. Quanto é que Angola arrecadou com a realização do evento? Alguém deve responder...