O mercado de automvel foi nos 10 anos próspero em termos de venda. Mas a situação agravou nos últimos  anos com acrise da economia global, o que fez com que o sector  entrasse em profunda decadência. O presidente da Associação dos Concessionários de Equipamentos de Transportes Rodoviários e outros (Acetro), Nuno Borges, falou do actual momento que a classe atravessa.

O país vive uma profunda crise económica desde 2014 o que gerou uma retracção em todos os sectores da economia nacional. Até que ponto o segmento automóvel foi afectado?  
O sector automóvel foi dos que mais sentiu as consequências desta crise, primeiro porque as empresas e particulares tiveram que reduzir drasticamente as sua despesas e investimentos e por outro lado, sendo um produto dependente de importação, sofreu com a escassez de divisas para o pagamento a fornecedores.

Dados do ano passado indicam que o mercado automóvel afundou 90 por cento em quatro anos, e acumulou uma dívidas de quase 300 milhões de dólares? Confirma estes dados?   
Sim confirmo, como sendo de meados de 2017. A situação actual é diferente: perspectivamos que as vendas em 2019 caiam para 7 por cento de 2014, mas a dívida a fornecedores caiu para 50 ou 60 milhões de dólares, entre todos os nossos associados.

Com este cenário negro no sector, muitas empresas paralisaram a actividade?   
Apesar de enormes dificuldades, ouve um enorme esforço dos empresários conseguindo que até ao momento todos mantenham a sua operação. Claro que esse esforço passou por uma drástica redução de custos com grande impacto na dispensa de trabalhadores.

Angola deixou há algum tempo a importação de viaturas usadas. O que mudou até agora no ponto de vista do bem estar social dos cidadãos?
Pelo Decreto Presidencial 62/14 foi estabelecido um limite para importação de veículos usados até três anos de idade para Ligeiros e 5 anos para pesados, tendo o Decreto Presidencial 71/15 alterado nos Pesados para 8 anos.
O Decreto Presidencial 161/18 veio alterar para seis anos nos ligeiros e 10 anos nos pesados. Estas alterações tiveram como motivação facilitar o acesso à aquisição de viaturas por parte de particulares e empresas com menos recursos financeiros. Acontece que este impacto não teve o resultado que eventualmente se esperava. Por um lado os recurso a divisas não é fácil e por outro o custo provocado pelo efeito da desvalorização, recurso eventual à compra de divisas no mercado paralelo e custo de manutenção de veículos muito usados, tornam inviável a sua aquisição.

As taxas de juro são elevadas

Os preços actuais de viaturas novas estão aquém do bolso dos funcionários públicos. O que está a ser feito para inverter o actual quadro?
É verdade que o poder de compra é mais limitado. Outra dificuldade é que o acesso ao crédito já foi mais fácil.
A taxa de juros praticada actualmente pelo sistema bancário sobre empréstimos é muito elevada o que impossibilita que o cidadão comum possa utilizar este recurso.Os preços de viaturas são directamente afectados pela desvalorização do kwanza.

O anúncio sobre a retoma da importação de viaturas usadas causou algum desconforto à associação?  
De maneira nenhuma, até porque o seu impacto nas nossas vendas é muito limitado, pelas razões já referidas.
Eventualmente até poderá provocar um aumento na venda de peças.

Os clientes reclamam pela alta de preços das peças sobressalentes, favorecendo o mercado paralelo na aquisição das mesmas. Não pensam criar uma nova política de venda de peças?

Os preços das peças são afectados pela desvalorização do kwanza.
Grande parte das peças do mercado paralelo não são de origem, e muitas delas podem ser falsas, e portanto, de má qualidade. Logo, são de facto mais baratas. Temos com bastante frequência clientes que recorrem às nossas oficinas para corrigir problemas provocados por aplicação de peças de má qualidade feitas fora do nosso circuito.
A qualidade dos nossos serviços será no geral superior, devido à qualidade dos nossos colaboradores, equipamentos e peças utilizadas de alta qualidade.

Os custos
são elevados

Muitos clientes reclamam dos altos preços cobrados para a manutenção das viaturas, levando-os a recorrerem a oficinas particulares. Que comentário faz?  
É possível que os serviços das oficinas representantes das marcas apliquem preços de mão-de-obra um pouco mais caros que as pequenas oficinas. Os custos que temos com a organização dos nossos serviços, gestão e administração e com a formação profissional, são maiores.
Quando é que as representações vão importar carros que vão de encontro aos salários da função pública?  
O mercado actual tem disponível uma enorme variedade de viaturas com preços muito diferenciados. A disponibilidade é muito grande. É claro que o rendimento das famílias caiu por força da crise económica e financeira em que país está mergulgado, pelo que o poder de compra é neste momento inferior.