O presidente da Comunidade de Empresas Exportadoras e Internacionalizadas de Angola (CEEIA), Agostinho Kapaia, considera fundamental apostar-se nas exportações para garantir a sobrevivência das empresas, na medida em que o país não vai resistir senão exportar outros produtos além do petróleo e diamante. Em entrevista ao Jornal de Economia & Finanças, o empresário admite que “se antes da crise já era difícil exportar, com ela, a situação está ainda pior”.

Foi reeleito o ano passado presidente da Comunidade de Empresas Exportadoras e Internacionalizadas de Angola (CEEIA) para mais um mandato. Que balanço faz?
São três anos à frente da Ceeia, tivemos a oportunidade de fomentar a nível da nossa comunidade a credibilização das empresas além fronteiras, participamos em vários fóruns internacionais e na ocasião mostramos tudo que se faz em Angola e o potencial para exportar. Estivemos em países como África do Sul, Itália, Espanha, Brasil, Dubai, Timor Leste e outros. A nível local, o nosso foco centrou-se na dinamização dos processos e constrangimentos das empresas e tivemos resultados positivos. Elaboramos um projecto que foi remetido à Presidência da República e que mereceu um parecer favorável entre outras propostas que visam melhorar a cadeia de exportações. Com isso, penso que o balanço foi positivo na medida em que fomos reeleitos para mais um mandato.

Uma das prioridades que elencou aquando da sua tomada de posse é a credibilização dos produtos nacionais no mercado internacional, com o propósito de contribuir para a diversificação da economia do país. De que forma pensa alcançar este objectivo?
O processo de diversificação da economia é de facto um probelama global sobre o qual o Executivo elaborou as linhas mestras a fim de dinamizar a economia e nós somos parte integrante deste processo como empresários. E pensamos que não há diversificação sem os privados, mas com a crise surgiram muitos problemas, o que fragilizou toda a cadeia de produção nacional com a falta de matérias-primas e divisas que garante. Se antes da crise já era difícil exportar, com ela, a situação está ainda pior e afectou os membros da Ceeia, mas acreditamos que com a nova política de apoio às exportações, os entraves serão resolvidos. Não se pode falar em diversificação, caso não haja apoio à produção local.

Que sectores da economia nacional já exportam para o exterior do país e que recomendações têm recebido dos compradores?
Tem sido um desafio muito grande exportar a partir de Angola e aqueles que o fazem são heróis, porque existem muitas dificuldades e o processo é muito burocático. Temos estudos feitos a nível da nossa comunidade em que os processos têm levado 30 a 90 dias para se ter autorização de exportar e desta forma não é possível ser competitivo. Às vezes, o fornecedor do Ghana ou Senegal já está à espera para receber a produção há muito tempo e o empresário local ainda está na luta de conseguir a licença ou o certificado de exportação.

Diante disso, o quê que a Ceeia defende para se ultrapassarem estes constragimentos?
Há três anos que temos vindo a propor a criação de um “Guiché Único de Exportação”, uma plataforma integrada num único espaço, visando simplificar toda a cadeia e reduzir o tempo de espera onde se inclui todos os intervenientes do processo de exportação, que junta o Ministério do Comércio, fiscalização e AGT. É fundamental apostarmos nas exportações para garantir a nossa sobrevivência, porque o país não sobreviverá se não exportar outros produtos além do petróleo e diamantes. Temos outros recursos minerais como ouro e ferro e um clima que favorece a agricultura que podem alavancar a indústria. Uma das nossas propostas é ainda permitir que os exportadores devem receber benefícios, sobretudo na isenção de impostos.

Ainda assim continuam a exportar...
Com certeza, não com a mesma pujança na medida em que algumas empresas deixaram de o fazer por causa do acesso às divisas e financiamento para potenciar a sua produção. Temos empresas a exportar para os países da região da SADC, Europa e Ásia produtos como a madeira, bebida, peixe e marisco, pedras ornamentais e fruta, mas os empresários precisam de incentivos para produzirem com custos competitivos de modo a aumentarem a sua capacidade para abastecer o mercado interno e exportar o excedente. Os custos de exportação ainda são muito altos que vão desde as lincenças às análises laboratoriais e a morosidade nos portos. A China, por exemplo, tem uma tem uma política atractiva de promover os seus produtos até à fase de exportação.  

O que deve ser feito para melhorar a qualidade dos produtos nacionais?
A produção local tem qualidade, pois embora precisamos de melhorar em alguns aspectos. Temos produtos que só existem em Angola como as pedras do Lubango, Namibe e Cunene que têm características específicas e que são mais caros lá fora.

É difícil uma empresa constar da lista de membro da Ceeia e começar a exportar ou é um processo burocrático?
Não é difícil basta que o empresário já exporta ou tenha a pretensão de o fazer, porque é vantajoso fazer parte da nossa comunidade. A empresa terá acesso a muitas informações e estudos de mercados internacionais em função das parcerias que temos com as congéneres como a Aicep em Portugal, a Confederação Empresarial da CPLP, entre outras instituições. Hoje, temos 30 membros dos quais 15 estão ligadas apenas à internacionalização, incluindo os bancos comerciais.

Que estratégia a associação tem preconizado de modo a garantir as fontes de financiamento para as empresas, necessidade de seguro à exportação, acesso às divisas e incentivos aos empresários exportadores no actual momento difícil da economia?
Devo confesssar que é uma situação muito difícil, mas acreditamos que existem muitas oportunidades diante desta crise. E agradá-nos o facto de o Presidente da República ter criado uma comissão para trabalhar nos vários procedimentos ligados ao processo de exportações, pois é um sinal positivo. Vamos encontrar uma saída de modo a concretizar tais objectivos.

Tendo em conta o novo modelo de venda de divisas para o ano de 2018, o Executivo entende que as empresas devem submeter aos departamentos ministeriais do seu sector às necessidades de divisas de forma trimestral. Acha que essa medida é mais acertada tendo em conta ao cenário de crise que se vive?
Penso ser a medida possível uma vez que não há capacidade para atender toda a demanda, mas deve haver maior supervisão e controlo para permitir que as pessoas que devem receber tenham acesso às divisas e satisfazer as suas necessidades junto dos fornecedores, sobre tudo as que produzem. Defendo que deve haver um pacote especial àquelas ligadas às exportações porque são elas que também trazem divisas para o país.

A Ceeia rubricou em 2016 um acordo com o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), que, entre outros aspectos, visa regular a relação de cooperação institucional, potenciar a produção interna e exportar o excedente. Este acordo está a resultar na prática?
O acordo está em vigor e a resultar temos vários projectos de membros junto do BDA que estão a ser acompanhados e acreditamos que, no médio e longo prazo, os efeitos serão divulgados.

Qual é volume de negócios dos membros da Ceeia no que toca à exportação?
Não consigo quantificar, mas temos vários membros na Ceeia com diferentes tipos de negócio com destaque para a Agrolíder que está a exportar banana, a Vidrul e outras que estão a montar fábricas de mobiliário em função da sua capacidade de produção e muitas delas não ganham muito dinheiro, captam algumas dividas, mas não é ainda o ritmo que pretendemos. Mais do que isso, têm vontade de contribuir para o crescimento do mercado angolano.  

Acredita que o novo Governo está preocupado com o processo de exportação da produção nacional, a fim de diversificar as fontes de divisas?
Acreditamos e temos a certeza que haverá bons resultados. Além disso, o Presidente João Lourenço tocou muito neste aspecto e o quanto é fundamental a aposta em sectores não petrolíferos e penso que é uma preocupação que domina a agenda do Executivo. Aliás, Angola não vai conseguir sobreviver nos próximos 5 a 10 anos só a depender do petróleo, e isso passa em melhorar o ambiente de negócios e investimentos em outros sectores.  

O Plano de Estabilização Macroeconómico (PEM) prevê criar uma Unidade Técnica de Apoio a implementação do Programa de Promoção de Exportações e substituição de Importações.Acredita ser esta a saída para se ultrapassarem os problemas?
É importante a criação desta unidade na medida em que irá pemitir maior diálogo entre os empresários e nós estamos disponíveis para apresentar questões concretas que visam fomentar a capacidade de se produzir mais para exportar.

Soube que também esteve presente na reunião que o Presidente da República, João Lourenço manteve recentemente com as associações empresariais. Que preocupações foram levadas à Cidade Alta e que garantias receberam do Chefe de Estado?
A Ceeia esteve representada neste encontro e levamos uma informação concreta daquilo que pode ser feito para melhorar o processo de exportações em Angola. Houve uma promessa da parte do Presidente da República em trabalhar para que os vários entraves possam ser ultrpassados e resolvidos. Em resposta, está a comissão criada recentemente para atender ao sector na qual também somos parte integrante para dar o nosso contributo.

Queria ser engenheiro

Nome: Agostinho Kapaia
Formação: Economista e Pós-Graduado em Gestão de Empresas.
Ocupação: Empresário, presidente da CEEIA e do Grupo OPAIA e é membro do Comité Central do MPLA desde 2017.
Natural da província do Huambo onde permaneceu até 1988. Veio com dez anos para Luanda, tendo permanecido três anos e aos 13 mudou-se para o Lubango, a fim de fazer os estudos do Ensino Médio. Mais tarde, já em 1997, voltou para Luanda. Continuou a estudar, tendo conluído com sucesso a sua lincenciatura na Universidade Católica de Angola em Economia. Conta que o seu sonho era fazer Informática. “Não fiz, porque cheguei a uma altura em que a Universidade Católica não tinha engenharia à noite”, recorda. Continuou a trabalhar nas tecnologias durante o dia, porque estava a começar a montar a sua empresa. Era economista à noite e durante o dia era engenheiro informático.

Tempos livres
Agostinho Kapaia diz que, apesar das distintas ocupações, ainda tem tempo para estar com a família e amigos porque considera-os como sendo o pilar de uma sociedade. No seu pouco tempo disponível,  aproveitá-o com leituras e a realizar os seus estudos. Mantém a ideia segundo a qual “ninguém caminha só” e que “as combinações entre fé, acção e união é que levam ao sucesso”.

Optimismo
Sobre o que espera da vida, o empresário alemeja realizar os objectivos traçados para os próximos 10 a 20 anos. Acredita que o país tem rumo, está estável e tem muitas oportunidades  e que muitos empresários esperam prosperar com a realização dos seus negócios. Afirma que o Presidente da República, João Lourenço, tem vindo a mostrar vontade de apoiar o sector empresarial. Na quinta edição dos “Prémios Sirius”, Agostinho Kapaia foi distinguido com o prémio “Empreendedorismo”, para o qual estava nomeado juntamente com outros seis empresários de relevo do mercado nacional. Destaca a coragem e visão estratégica dos empreendedores que incansavelmente mantêm incólume os seus negócios.