O director-geral do Instituto Nacional de Recursos Hídricos (INRH), Manuel Quintino, aponta que a solução para o problema da seca, passa pela implementação de medidas estruturantes, como a construção de furos da água, barragens e chimpacas.

Quais são os grandes desafios (ou projectos estruturantes) que devem ser tidos em conta para se debelar a situação preocupante da seca no Sul do país?
Neste momento em que se vive uma seca compósita, um período de seca bastante prolongado, é necessário fazer-se a gestão prudente e parcimoniosa de dois principais recursos: água para os seres vivos (pessoas e animais) e pastos (capim) para o gado. O outro grande desafio é a mobilização de recursos financeiros para o fomento da construção das obras estruturantes.

A construção de barragens ou chimpacas, bem como os furos de água poderá minimizar a situação. Quanto é que deve ser investido para a retenção de água?
Para a construção das três obras estruturantes, nomeadamente a construção do transvaze do Cafú, bem como a construção da barragem do Calucuve e do Ndúe, será necessário um valor em kwanzas equivalente a 600 milhões de dólares. No que diz respeito à reabilitação ou construção de chimpacas e de furos de água, o Governo angolano já disponibilizou um valor considerável em kwanzas.

Prevê-se a construção de uma barragem. Quanto é que está orçada e qual será a sua capacidade?
No quadro da construção das primeiras obras estruturantes de combate à seca está prevista a construção de um transvaze que incluirá uma estação de bombagem, tubagem pressurizada, canais adutores e chimpacas em cada cinco quilómetros ao longo dos canais adutores, assim como a construção de duas barragens, nomeadamente, a barragem do Calucuve com uma capacidade de armazenamento de 100 milhões de metros cúbicos (m3) e a barragem do Ndúe, com uma capacidade de armazenamento de 145 milhões de m3. Estas barragens estarão associadas a três subsistemas para o abastecimento de água para as populações, para o abeberamento do gado e para a agricultura irrigada. Cada uma das obras orçará aproximadamente um valor em kwanzas equivalente a 200 milhões de dólares.

Qual será o tempo útil para abastecer à região?
Em termos de vida útil, as barragens duram no mínimo 100 anos. Geralmente as barragens são projectadas tendo em consideração o volume morto (volume para acomodar os sedimentos) e o volume útil (o volume de água que será utilizado para as mais variadas necessidades). No que diz respeito ao volume morto é necessário ter-se um Plano de Varreduras (um plano de limpeza) que contemple a limpeza dos sedimentos, para que a capacidade de retenção da albufeira (do reservatório) não sofra grandes variações da sua capacidade de armazenamento de água.

Qual é o papel do Instituto Nacional de Recursos Hídricos que dirige para contribuir para a resolução deste fenómeno?
O Instituto Nacional de Recursos Hídricos (INRH) é um órgão dependente do Ministério da Energia e Águas (MINEA). A grande incumbência do INRH é a execução da Política Nacional de Recursos Hídricos.

Alguns especialistas dizem que a bacia do Cunene é extensa e está a ser pouco aproveitada. Além dos projectos já anunciados, quais outras infra-estruturas devem ser construídas para se vencer esta crise?
Eu não diria que a bacia do rio Cunene está a ser pouco aproveitada. O aproveitamento da bacia do rio Cunene está a ser feito de forma faseada, obedecendo-se aquilo que está estipulado no Plano Geral de Desenvolvimento da Bacia. Em termos de construção de outras infra-estruturas, está em carteira a conclusão da Barragem do Calueque, bem como a construção de um perímetro irrigado em Calueque. No plano de acção do sector da Energia e Águas para o período 2018 - 2022 está agendada a construção das barragens de Jamba-ia-Mina e de Jamba-ia-Oma. Já que falamos da bacia do rio Cunene, no seu todo, está prevista também a construção no rio Caculuvar, um tributário do rio Cunene, a construção da barragem da Embala do Rei, no município dos Gambos, província da Huíla e a construção da barragem da Cova do Leão, no município da Cahama,
na província do Cunene.

Há probabilidade de se aproveitar ao máximo o caudal do rio Cunene para ajudar neste processo?
Sim. O rio Cunene deve ser aproveitado neste processo, mas devemos ter uma certa cautela, uma vez que estamos perante um rio transfronteiriço/ um rio internacional. Não nos esqueçamos que o rio Cunene é partilhado com a Namíbia e que existe um acordo assinado em 1969 pelas antigas potências coloniais, Portugal e a África do Sul. O referido acordo foi endossado por Angola e pela Namíbia, através de um outro assinado na cidade
do Lubango (Huíla), em 1990.

Que estudos foram feitos pelos especialistas ligados ao sector que dirige?
No caso das Bacias Hidrográficas do Cunene e do Cuvelai foram desenvolvidos estudos de viabilidade técnica, económica e ambiental, dos quais três dos estudos conformam as Obras Estruturantes, cuja autorização de construção foi dada pelo
Chefe do Executivo angolano.

A situação da seca já está a se fazer sentir no Leste do país, com realce para a província do Moxico. Que mecanismos devem ser accionados para que este fenómeno não se alastre para outras regiões?
É verdade. Na província do Moxico, mais concretamente no município dos Bundas, verifica-se neste momento um evento de seca. As autoridades da província do Moxico preparam-se, para numa primeira fase, prestar assistência alimentar às populações, uma vez estar-se perante uma situação de emergência. Mas, para se debelar a situação é necessário que se comece a pensar em soluções de longo prazo, soluções estruturantes. Isto passará necessariamente no melhor aproveitamento do imenso potencial de Recursos Hídricos naquela região do país. Devemos implementar as medidas e acções do Plano Nacional da Água.

Que experiências externas em termos de prevenção Angola se pode apoiar para o combate a este fenómeno?
Existem boas experiências em várias regiões do mundo. O fundamental é que as referidas experiências sejam trazidas para Angola não no estilo do “Copy and Paste”. A replicação das experiências deve ter sempre em conta os condicionalismos locais, a realidade local.

Que medidas práticas devem ser tomadas para se reduzir os efeitos da seca no sul de Angola?
O Plano Nacional da Água (PNA) dentro das suas Medidas e Acções prevê o reforço do abastecimento de águas para as populações, a construção de transvazes (Transferência de Caudais), a construção de barragens de retenção de água para os mais variados fins, o aproveitamento
das águas subterrâneas.