As crises representam sempre novas oportunidades. Daí que o nosso entrevistado, funcionário bancário há 24 anos, não tem dúvidas de que o cenário internacional deixou mais forte o sistema financeiro e, no caso angolano, a banca tem todas as condições para continuar a servir de impulsionador do desenvolvimento económico.

Qual a avaliação que faz do momento do mercado financeiro angolano?
O sistema financeiro em Angola tem vindo a evoluir muito rapidamente e de forma muito positiva, modernizando-se e adaptando-se a um ritmo de crescimento económico significativo. A presença de um número maior de instituições a operar obriga a todos a serem cada vez melhores na sua prestação de serviço e mais rigorosos na sua actuação. Da mesma forma pode-se caracterizar a regulação do sistema, uma das principais preocupações neste sector, pois a entidade reguladora, o BNA, tem sido cada vez mais exigente, o que contribui para a consolidação do sistema e o reconhecimento internacional de Angola. O sistema financeiro tem sido dos sectores da economia que mais rapidamente tem evoluído. A evolução do sistema financeiro levará inevitavelmente à criação do mercado de capitais e à tão aguardada bolsa de valores de Luanda.

A banca deverá ser ainda para os próximos tempos o principal motor da economia?
A banca será sempre um motor de desenvolvimento do país e um dos pilares fundamentais do crescimento da economia. A banca funciona como o alimentador do motor da economia, financiando as empresas e os particulares, potenciando o investimento e o consumo, que em conjunto fermentam o crescimento económico. A intermediação financeira tem sempre um papel importante na economia, uma vez que permite a canalização de recursos financeiros, incentiva o investimento e potencia o poder aquisitivo. As economias mundiais têm na banca um veículo de desenvolvimento indispensável. Veja-se que durante a mais recente crise financeira, uma das principais preocupações dos governos nos países em grave crise foi segurar os danos que poderiam ser causados ao sistema financeiro, pois o efeito epidémico poderia ser fatal. Em Angola, o sistema financeiro torna-se ainda mais vital pois trata-se de um sector que tem evoluído significativamente e é parceiro na implementação de políticas que actuem sobre a economia, como é o exemplo do programa “Angola Investe”, onde os bancos se tornam aliados dos fundos públicos para financiar novos projectos de investimento.

Que enquadramento devem buscar os outros segmentos?
Todos os sectores de actividade estão em efervescência dinâmica, pois o estádio de desenvolvimento do país permite imensas oportunidades para desenvolver negócios e criar riqueza sustentada. Investimento é a palavra-chave para todos os sectores. Angola tem condições naturais excepcionais que permitem que sectores como a exploração de recursos minerais, hídricos, florestais agro-pecuária e pesca sejam fortemente atractivos. Hoje há também sectores da economia como a construção, a saúde, a educação e outros serviços terciários que estão a gerar contínuas oportunidades de negócio.

A possível entrada de três novos bancos, dois dos quais com matriz e capitais estrangeiros, provocará significativas alterações na praça financeira?
Na minha opinião, a entrada de novos bancos e para mais de matriz internacional apenas fará com que as instituições já instaladas sejam mais exigentes consigo próprias e proactivas com o mercado. Não espero que traga mudanças profundas, mas a entrada de novos “players” exige sempre atenção aos já instalados. A entrada de bancos com o nível de experiência internacional acaba por confirmar a atractividade do mercado angolano e incrementar o reconhecimento internacional.

Como devem ser interpretados os sucessivos acordos de investimento externo captados pela Anip?
De forma muito positiva e com grande expectativa. A captação de investimento externo é uma das bases fundamentais das políticas relacionadas com o investimento produtivo de um país. O investimento externo traz capacidade inexistente no país, formação para os quadros angolanos, emprego, desenvolvimento no local de instalação e aumento da produção interna, entre outras vantagens. Os benefícios alargam-se a toda a cadeia de fornecedores e clientes que suportam o investimento. Alguns destes investimentos prevêem até dotar o país de capacidade exportadora. Por outro lado, o investimento externo privado permite reduzir a dependência estatal da economia e das importações, como é lógico.

Temos condições para que a concorrência interna se faça num quadro de vantagens comparativas e competitivas?
A economia angola está em franco desenvolvimento. Por isso, o seu crescimento tem de ser conduzido e sustentado. Alguns sectores, como por exemplo as “utilities”, terão de evoluir a longo prazo para que se possa referir que há um quadro de competitividade aberto. No entanto, tendo em consideração a maturidade do país, que ainda há cerca de 12 anos saiu de uma guerra civil, e da sua economia, que se ressentiu de 30 anos de letargia e destruição, penso que temos um quadro de desenvolvimento que permite uma concorrência competitiva.

Está a concordar que a nova pauta aduaneira não inibe os investimentos nem aos investidores?
Concordo. O investimento deve ser promovido para dotar Angola de um tecido industrial e empresarial com capacidade para produzir internamente para suprir as suas necessidades e até almejar o patamar da exportação, onde algumas empresas já se encontram. A pauta aduaneira visa proteger a produção interna e sobrecarregar a importação de bens que já são produzidos localmente. É óbvio, e  das opiniões que tenho recolhido, que a pauta pode não ser perfeita e eventualmente precisar de autorizações especiais em alguns items, o que também está contemplado por lei. Mas a essência está lá inscrita: tornar a importação mais onerosa para que se fomente a produção local.

A actividade da Comissão de Mercado de Capitais de abordar sobre as boas práticas é uma resposta aos medos dos empresários?
A apresentação do guia de boas práticas de governação deve ser entendida como o lançamento de uma base pedagógica. É também um sinal da vontade que existe de aumentar o nível de exigência na governação das empresas, sinal que deve também ser lido pelos empresários como incentivo para as suas organizações serem mais rigorosas na sua gestão e  mais transparentes com o mercado. Um dos primeiros passos a dar é fomentar a prática da boa governação nas empresas públicas por forma a torná-las mais credíveis e sólidas do ponto de vista da gestão. A adopção de boas práticas de governação tem também um efeito positivo no reconhecimento internacional, pois num ambiente de cada vez maior abertura da economia nacional é importante assegurar que estamos alinhados com as melhores práticas internacionais de gestão.

Qual será a melhor estratégia para o surgimento da bolsa de valores em Angola?
O mercado de capitais é essencial para a fase de crescimento da economia em que o país se encontra. A bolsa de valores de Luanda será um canal alternativo de captação de recursos financeiros, que por sua vez permitirá canalizar fundos para o investimento. Para isso terá de haver liquidez na BVL, para que possa tornar-se atractiva como investimento. Um primeiro passo poderia passar pela dispersão mesmo que minoritária do capital de grandes empresas estatais, como a Endiama ou a Sonangol. Este passo seria importante por um lado para garantir a projecção e a afirmação nacional e mesmo internacional à BVL e por outro para garantir a organização destas empresas em modelos de rigor e transparência, condições fundamentais para que quem investe no mercado de capitais se sinta confortável. Quem investe tem de sentir confiança. E a confiança vem com o rigor da gestão e com a transparência, para além dos indicadores económico-financeiros. A credibilidade do mercado é importante para o seu desenvolvimento. Acresce ainda que a aposta no mercado de capitais por parte de empresas privadas poderia merecer incentivos, de carácter temporário, por exemplo de ordem fiscal. Parece-me também que a BVL não deve concentrar os seus esforços numa bolsa de valores de dívida pública, como se ouviu dizer, pois este mercado já existe, com emissões e negociações.

O que é desaconselhável neste momento, atendendo à situação dos mercados internacionais?
Desaconselhável, em qualquer circunstância, é lançar a BVL sem assegurar que haverá um mínimo de liquidez suficientemente motivador para garantir um início sustentado ao mercado. De igual modo, no capítulo da formação, haverá trabalho a fazer para dotar as entidades, quer as reguladoras quer as utilizadoras, de capacidade para actuar no mercado de forma consciente e conhecedora.

Como fazer das crises novas oportunidades?
Recorrendo à escrita chinesa, a palavra crise escreve-se com dois caracteres, o primeiro significa perigo, o segundo significa oportunidade. As crises são sempre geradoras de oportunidades e estas duas palavras andam sempre juntas e relacionadas. E as crises devem ser vistas como oportunidades na medida em que nos obrigam a mudar. As crises resultam normalmente de opções erradas no caminho. Logo, deve aprender-se com os erros e fazer melhor a seguir. As crises normalmente obrigam a optimizar recursos e a racionalizar custos, eliminar “gorduras” dispensáveis que normalmente em tempos de abundância são negligenciadas. Reinventar caminhos e soluções, procurar alternativas e respostas. A crise financeira que nos assolou (e ainda continua a sentir-se) fez vir à superfície as fragilidades de um sistema baseado no capital e crescimento económico ilimitado das empresas e da riqueza e acima de tudo pouco regulado e controlado. A crise obrigou-nos a ser mais prudentes, mais conscientes da limitação dos crescimentos ou da sua impossibilidade por vezes. Obrigou também a uma maior regulação do sistema financeiro, um dos pilares da economia e por consequência um dos mais afectados pela crise. Além disso, a história tem-nos provado que das crises nascem projectos de grande sucesso, exactamente porque descobrem a oportunidade de vingar. Há inúmeros exemplos de sucessos que resultam de crise ou de dificuldade mas cito apenas um: durante a II Guerra Mundial uma fábrica da Coca-Cola deixou de receber o xarope secreto para fazer o refrigerante e teve que arranjar alternativas e criou outro refrigerante: a Fanta, com o sucesso que se conhece.
A formação de quadros será determinante para o sucesso de várias iniciativas. Os actuais indicadores nesse sentido são animadores?
O processo de formação de quadros angolanos é vital para o sucesso da dinamização da economia. Não se consegue fazer empresas, promover projectos, ter boas organizações públicas e privadas sem ter recursos humanos capazes e com formação adequada. O Plano Nacional de Formação de Quadros é uma das iniciativas governamentais em curso e muito louvável. A minha grande preocupação vai para o desequilíbrio no investimento nas diversas etapas da formação. Hoje, está a procurar investir-se mais no ensino superior e a desequilibrar os ensinos mais básicos. Isto pode ter como consequência a incompleta preparação dos alunos que chegam ao ensino superior e os resultados dessa impreparação apenas se notam décadas mais tarde. Percebo a necessidade de dotar a sociedade do maior número de quadros superiores mas para ser consolidado tem de haver garantias de que a formação de base foi assegurada.

Há uma sucessiva aposta no surgimento de universidades, mas a qualidade nem sempre responde ao desejado. Quais as melhores soluções?
O aparecimento de novas universidades não é necessariamente prejudicial. O problema é se essas universidades correspondem às necessidades do país. Na minha opinião, continuamos a querer crescer de forma apressada e a pensar que o crescimento é igual a mais, em vez de pensar que tem de ser sinónimo de melhor. Há um pouco a noção de que quanto mais universidades e cursos houver mais formação haverá, o que na minha opinião não corresponderá a um resultado desejado, pelo menos em termos de qualidade. O investimento deve ser dirigido e focalizado, procurando alavancar a formação já existente, porventura promover parcerias com estabelecimentos de ensino superior com reconhecida capacidade internacional e criar condições para a sua instalação em Angola, em contrapartida com o nascimento de novas universidades cuja oferta não difere muito da existente.

O desafio de formalização da economia não passa também pela readaptação dos programas e modelos de ensino nos vários subsistemas?
Sim, a progressiva formalização da economia passa pela formação, pelos valores e pela educação. Aqui a aposta deve ser desde a base educacional. É essencial garantir que a formação de base inclui estas vertentes. Pessoas com melhor formação têm mais acesso a empregos estáveis, têm maior rendimento, consomem de forma mais organizada e responsável, procuram produtos padronizados e garantidos, contribuem para os sistemas de previdência e por aí adiante.

Desde logo, a bancarização e a literacia financeira são dois pilares indispensáveis ao momento do país?
O Executivo e as instituições financeiras adoptaram este tema com empenho e determinação. A taxa de bancarização em Angola tem vindo a crescer sustentadamente e este é um aspecto que importa realçar. O sucesso do “Bankita” e as campanhas de promoção à utilização dos serviços bancários têm tido resultados muito interessantes (a taxa de bancarização estará já acima dos 20 por cento quando há cerca de 3 anos estaria próxima dos 10). De igual modo podem-se considerar os programas de combate à iliteracia financeira. Este é um desafio ainda mais exigente e subsequente ao da bancarização. O tema da inclusão financeira é dos mais importantes no panorama dos países em desenvolvimento e em especial em África. Estes dois movimentos permitirão também promover o aumento da formalização da economia, essencial para a construção de uma economia mais sólida e saudável.