Os empresários angolanos acreditam em um novo rumo da económia, com indicações de que ela pode tornar-se robusta, já com a inclusão de todos os seus actores. Numa entrevista recente à TPA (Televisão Pública de Angola), Carlos Cunha, coordenador nacional do Grupo Técnico de empresários, viajou pelo passado do empresariado angolano e fez uma incursão ao futuro, afirmando que “o país tem tudo para dar certo, se haver apoio à classe”.

Quais são as grandes preocupações da classe empresarial apresentadas ao Presidente João Lourenço?
Tivemos uma audiência com o Presidente, bastante produtiva. Levamos uma agenda bem preenchida sobre o que queríamos e o Presidente fez questão de convidar vários membros do Executivo. Perguntou se dispúnhamos de tempo, para se dar sequência ao trabalho com o ministro da Economia. Assim foi estabelecido um calendário com 11 órgãos do Executivo, com os quais fizemos 14 reuniões de especialidade e chegamos a acordo em 88 temas, para discussão.

O que pensam os empresários?
Penso que é transversal e é um assunto muito abordado por todas associações, o excesso de burocracia em todos os sectores. Sente-se que a burocracia está muito pesada para a classe empresarial.

Onde mais se sente isso?
Na obtenção de registos de propriedade, de licenças e alvará. É um gigantesco esforço, ter um pouco de terra para trabalhar.

O Presidente disse que o Governo vai fazer tudo, para que as empresas tenham acesso ao crédito?
O Presidente não é de grandes promessas, ele é uma pessoa muito cumpridora. Reflecte muito, antes de emitir uma opinião. Quem o conhece e está habituado à sua forma de estar, sabe que ele é uma boa pessoa e não toma decisões por emoção. É a sua forma de estar. Trocamos algumas impressões e a sensação que tive, é de que ele é um homem para acções rápidas. O Grupo Técnico foi convidado a estar no Conselho de Ministros, pela primeira vez - não há história de um empresário ter ido ao Conselho de Ministros -, onde apresentamos as nossas preocupações. Apresentamos 88 preocupações.

O que disseram aos ministros?
Que queremos menos burocracia, que se conceba um sistema financeiro mais virado para as empresas, já que temos vivido, até agora, um sistema financeiro completamente alavancado para o Estado, porque a banca gasta mais dinheiro a comprar títulos do banco central, que financiar a economia. E cria-se a questão dos multibancos. É o próprio Estado a comprar títulos do banco central ou o banco que não incentiva o investimento.

Os investidores andam de joelhos dobrados nos bancos, para obter o crédito?
O próprio Estado se financia dentro do sistema financeiro, que reduz a situação circuncidaria que devia ser direccionada às empresas. Hoje, o Estado está a retirar-se dessa situação progressivamente e já se começa a ver bancos a procura de empresas, para poderem viabilizar liquidez.

Nos últimos 10 anos, o crédito concedido continua malparado. É natural que os bancos tenham alguma resistência?
Nem todo crédito está malparado. Temos que ter pressupostos que aumentem a segurança nos créditos. O problema
agora é esse.

Qual é a vossa sugestão?
A nossa sugestão está na forja. Acho que vai começar a acontecer. O Ministério da Economia, quanto a nós, está a fazer um bom trabalho. Neste momento, fez um levantamento no mercado e localizou empresas de consultoria nacionais a um custo completamente razoável.

O que isso representa?
Isto mostra que secomeça a fazer a facilitação de créditos, embora acho que há 144 projectos, dependentes do Angola Investe, que estão no malparado. Antes do Estado começar a fazer financiamento, o que se vai tentar é validar os projectos em que, por esta ou outra razão, não arrancaram. Por essa razão, o Estado tem que começar por ai. Nós não somos muitos e a ideia aqui não é pôr carimbo na testa das pessoas, mas é tentar saber, porque que essas entidades que beneficiaram nesse crédito não conseguiram viabilizar os seus negócios.


Dessa forma viabiliza-se os projectos?
O que se vai fazer é a validação dos projectos, validar a capacidade dos projectos das empresas e os esforços que elas fizeram, para beneficiarem do crédito. A partir do momento em que esse trabalho for implementação, muita coisa vai ser viabilizada.

Esse validar implica também perdoar?
Não! Ninguém aqui falou de perdoar. O que tem de ser feito, é uma avaliação real da estrutura financeira. O senhor recebeu um milhão de dólares. O que fez com o dinheiro? Roubou, plantou, comprou um tractor... O que o senhor fez? Eles vão fazer uma validação desse crédito e depois, em função disso, vão fazer uma triagem dos cento e quarenta. Talvez são projectos para esquecer, ou para obter junto do Tribunal ou coisa do genéro. Se calhar, haverá 40 ou 50 e com um bocadinho mais viabilizam-se. se calhar, há outros que carecem de estudo. Isto chama-se gerir um país. Uma coisa que nós continuamos a criticar, é que a solução de uma Nação não se faz rotulando as pessoas.

Sente que isso está a acontecer?
O esforço é esse. Houve agora uma mudança do titular da pasta, provavelmente haverá um reajustamento. Mas, não creio que possa se fugir muito disto, porque faz parte dos novos acordos. Nós, associações, não somos governantes e não podemos ter essas pretensões. Nós somos apenas órgãos.

São um parceiro muito importante?
Somos importantes. Aliás, este vem nos atribuir mais responsabilidades, enquanto empresários que precisam de um bom ambiente de negócios. Quanto melhor nos entendermos, quanto melhor nos ouvirmos, melhor progresso haverá. Se no passado não éramos ouvidos, éramos sim! Só que uma coisa é ouvir e a outra é transformar em questão o que se ouve.

O que mudou?
Mudou a liderança e a forma de estar.

Muda a forma de ouvir?
Com certeza! Há mais abertura, há mais democracia no discurso. As intervenções que foram feitas pelos empresários, demonstraram isso.

Negócio com o Estado

Entre os nacionais, os empresários têm tido intervenções um bocado alérgicas ao discurso político?
São poucos, os empresários que, ao longo desses anos, mantiveram coragem e responsabilidade. São poucos. Uma parte considerável faz negócios com o Estado. Eu não faço parte do meio, o meio não faz parte da minha responsabilidade. Quer no passado, quer hoje, tive sempre o mesmo discurso. Hoje prefiro não fazer isso publicamente, porque nós já temos fóruns próprios para emitir a nossa opinião.

O IVA (Imposto sobre o valor Acrescentado) é vossa sugestão?
O IVA não é nossa sugestão, é iniciativa do Governo. Faz parte do acordo do Governo com o FMI (Fundo Monetário Internacional). Nós estamos a trabalhar num nível e o IVA não foi implementado no dia 1 de Julho. Por quê? Porque intervimos em fórum próprio.

Qual foi a vossa participação?
Apresentamos sessenta e nove operações sobre a legislação que será implementada e hoje alteramos a data. Vimos a forma de implementação, produzimos taxas e a pasta para quem estivesse no sistema integrado. Entramos num novo mundo e já estivemos aqui a discutir. Alteramos muita coisa e todas essas alterações só foram possíveis, porque usamos técnicas competentes das associações e empresas, baseados na colectividade. O Governo apresentou os seus constrangimentos. Tem esse imposto em negociação a nível nacional e há um programa monitorado pelo FMI.

Como o IVA é o imposto mais justo do mundo?
Mais justo, porque não tem efeito cascata. O valor de imposto acrescentado, é contrário ao Imposto de Consumo.