Natural de Coimbra, Portugal, Susana Morais estudou e especializou-se em contabilidade e auditoria no Instituto Superior de Contabilidade e Auditoria de Coimbra e trabalha há cerca de cinco anos na Focus Education, dirigindo em Angola esta empresa internacional, subsidiária do grupo Mitrelli para a área da educação e formação profissional. Nessa entrevista, revela que fruto da parceria que a sua empresa mantém com os Ministérios da Educação e da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social (MAPTSS), permitiu a reintegração na sociedade de cerca de 4 mil jovens.

Como avalia o sistema da reforma educativa e a formação técnico-profissional em Angola?
Essa reforma é absolutamente necessária, uma vez que o futuro de qualquer país depende do desenvolvimento de quadros profissionais qualificados. A reforma, iniciada em 2001, foi bastante abrangente e implicou a criação das condições necessárias ao funcionamento das escolas e formação de capital humano, mas cingiu-se apenas ao ensino técnico-profissional na qual os resultados têm sido muito positivos.

Como foi feita esta reforma? Pode dar-nos alguns pormenores?
Trata-se, como referi, de uma reforma bastante abrangente de todo o sistema de ensino técnico-profissional em Angola. O projecto é do Ministério da Educação, em parceria com a Focus Education, e incluiu a recuperação ou a criação de infra-estruturas, a elaboração de novos currículos e a formação dos professores e dos gestores escolares. Foi criada uma rede nacional de escolas técnico-profissionais, 52 das quais foram montadas por nós. As escolas estão equipadas com tudo o que é necessário a um ensino técnico-profissional de qualidade, incluindo os laboratórios. Para tal, elaborou-se os currículos e foi dada formação aos professores. O projecto da Reforma do Ensino Técnico Profissional (RETEP) está a proceder à elaboração de um diagnóstico a nível nacional de todos os laboratórios existentes, a fim de identificar as necessidades de intervenção e actualizar e melhorar os laboratórios. Marcamos também presença nas novas centralidades do Kuito e do Uíge, onde estamos a equipar as escolas da pré-primária e do ensino primário e secundário e a trabalhar na formação de pessoal.

Em relação aos outros países, que experiência se pode colher neste domínio?
O que lhe posso dizer sobre isso é que o ensino técnico-profissional tem sido absolutamente fundamental para garantir o desenvolvimento em muitos países. De uma forma geral, países desenvolvidos contam com um ensino técnico-profissional muito forte. Angola não poderia ser uma excepção neste sector.
Não é possível realizar projectos, sejam de que natureza forem, sem se apostar na formação de quadros, mas permita-me, já agora, que fale também de outro projecto emblemático desenvolvido com o MAPTSS, nesse caso os CLESE (Centros de Locais de Empreendedorismo e Serviços de Emprego).

Acaba por ser um projecto inovador, já que proporciona a formação abrangente a estudantes, dotando-os de ferramentas necessárias à transformação das suas ideias em pequenas empresas...
Exactamente. Os Clese foram criados pelo Governo angolano. Estão implantados em dez províncias, com o objectivo de apoiar os cidadãos na superação dos desafios que enfrentam ao procurar emprego. Os centros de empreendedorismo proporcionam formação e apoiam os futuros empresários no processo de criação e operação de pequenos negócios viáveis, pequenas empresas que apoiem e fortaleçam a comunidade e fomentem o crescimento. De uma forma geral, a formação nos Clese é dividida em diferentes módulos, como por exemplo empreendedorismo e criação de negócios, marketing e vendas, e inclui a aprendizagem de ferramentas de gestão, elaboração de planos de negócio, gestão financeira, etc.

Quais os outros projectos em andamento?
Temos vários projectos em curso. Em primeiro lugar, se me permite, gostaria de destacar as “Cidadelas Jovens de Sucesso”, desenvolvido, neste caso, em parceria com o MAPTSS. É um projecto que já abrange seis províncias do país. Além das Cidadelas em funcionamento, temos, neste momento, duas novas Cidadelas praticamente prontas, uma em Cabinda e outra em Malanje, e duas em projecto e prontas a arrancar na Huíla e no Uíge.

As Cidadelas Jovens de Sucesso são escolas de formação para jovens carenciados e em situação de risco em zonas rurais, mas o conceito vai muito para além da escola?
As Cidadelas são, na realidade, comunidades educativas. O objectivo é fortalecer e capacitar os elementos mais fracos da sociedade num ambiente educativo, comunitário e acolhedor. As Cidadelas proporcionam uma educação de bom nível e formação prática em diversas áreas, incluindo estudos profissionais especializados em agricultura e outras áreas. No final da formação –trata-se de um programa com a duração de três anos– os graduados das cidadelas ficam capacitados para exercerem uma profissão, carpinteiros, serralheiros e electricistas e , naturalmente, técnicos agrícolas.

Soube que estão a introduzir um conceito novo em Angola, que se chama “mandala”. O signfica?
É, na essência, um novo sistema de exploração agrícola, muito simples e eficaz, e que depois pode ser replicado nas comunidades de origem.
Os graduados das Cidadelas podem portanto com maior facilidade ou desenvolver a sua própria actividade, arranjar empregos remunerados, ficando capazes de ter uma vida produtiva e prover o seu sustento e o das suas famílias. Estamos portanto a falar de re-integração na comunidade.

Está previsto o alargamento deste conceito a todo o país?
Há duas Cidadelas em funcionamento, no Cabiri (Luanda), e Sacassange (Moxico). Há outras duas, como já referi, praticamente prontas e a entrar em funcionamento por estes dias, no Dinge (Cabinda) e Caculama (Malanje). E há outras duas em estado avançado na Matala ( Huíla) e Cangola (Uíge). O ideal seria, naturalmente, criar Cidadelas em todas as províncias e multiplicar este conceito por todo o país para alcançar o maior número de crianças e jovens possível.

E os resultados, já podem ser medidos? Pode adiantar-nos números?
Os resultados são animadores. Desde logo pela elevada percentagem de graduação, que ronda os 95 por cento. Depois, falando de números absolutos, posso talvez reportar-me a dados tornados públicos há dias, que apontam para a reintegração na sociedade de cerca de 4.000 jovens até à data, o que, a confirmar-se, seriam realmente boas notícias. Seja como for, a experiência das Cidadelas é muito positiva, trata-se de um modelo de reinserção social que se aplica bem à realidade angolana e, com a criação de novas Cidadelas, os resultados poderão começar a ser analisados com rigor de molde a podermos, com o MAPTSS, ir melhorando ainda mais o conceito e a respectiva aplicação.

Que avaliação faz sobre o processo do concurso público de admissão para novos professores realizado no país e em especial em Luanda?
O sucesso de qualquer sistema de ensino tem por base a existência de bons professores.
Para que os resultados no sector da educação sejam positivos é necessário investir em professores e em escolas, dando aos alunos todas as condições para saírem das escolas com boas bases para o futuro. Respondendo concretamente à sua pergunta, investir em professores é fundamental e, naturalmente, a nossa avaliação só poderia ser positiva.