Asubida do preço do saco de farinha de trigo no mercado, que está afinal dependente de uma série de factores exógenos à actividade industrial, como a subida também do preço da matéria-prima nos mercados internacionais e das variações cambiais da economia angolana, levou o Jornal de Economia & Finanças, a entrevistar o presidente da Comissão Executiva da Grandes Moagens de Angola (GMA), César Rasgado, com quem abordamos as permanentes oscilações no preço e a tendência, nos últimos tempos, subida de preço da farinha de trigo e da produção interna.

Um ano e quatro meses depois da inauguração, a Grande Moagens de Angola, fez um balanço da sua actividade produtiva, anunciando uma produção total superior a 250 mil toneladas de farinha. Esse balanço pode ser considerado positivo?
Podemos considerar um balanço bastante positivo e é com orgulho que assumimos a realidade deste projecto industrial. Estamos, na verdade, a cumprir o importante desígnio de abastecer o mercado com um bem essencial à cadeia alimentar das populações.

Há certamente alguns constrangimentos a ressaltar ou não?
Certamente os constrangimentos que são transversais à economia, são conhecidos por todos nós, como a desvalorização cambial, a dificuldade na obtenção de divisas para a importação de matéria-prima, ingredientes, peças de substituição e os elevados custos das operações financeiras, têm dificultado a nossa produção. O resultado é que a capacidade da GMA está subaproveitada, tendo produzido apenas 70 por cento do que poderia ter produzido. Isto é, em condições normais teria alcançado as 360 mil toneladas de farinha, o equivalente a mais de sete milhões de sacos de 50 quilos.

Apesar da produção significativa que avança, ainda assim continuamos a verificar subida do preço do saco trigo de trigo no mercado?
O preço do saco de farinha de trigo está dependente de uma série de factores exógenos à nossa actividade industrial, como a subida também do preço da matéria-prima nos mercados internacionais e das variações cambiais. Isso implica que haja permanentes oscilações no preço e a tendência, nos últimos tempos, tem sido, infelizmente, de subida de preço. Importa sublinhar que nós e as restantes moageiras vamos actuar no sentido de estabilizar os preços a médio-longo prazo para salvar essa situação que se vive actualmente.

Que políticas de comercialização são adoptadas pela GMA, visto ser difícil adquirir o vosso produto?
Os nossos clientes são maioritariamente grandes distribuidores grossistas com capacidade logística e financeira, que acreditaram no projecto e com quem trabalhamos. Desde a altura da inauguração da fábrica, estabelecemos contratos de fornecimento, que garantem o escoamento de todo o produto dentro do prazo expectável. O armazém tem apenas capacidade para cinco dias de armazenamento e dentro da cadeia de distribuição, privilegiamos aqueles que nos garantem capacidade logística de escoamento, quer a montante quer a jusante.

Ou seja, a venda não é feita de forma directa aos pequenos compradores?
Melhor, nós respeitamos uma cadeia de distribuição. Não comercializando directamente a consumidores finais, salvo grandes indústrias que utilizem farinha de trigo no seu processo produtivo, cabendo essa parte aos grossistas e retalhistas que, por sua vez, adquirem dos grossistas. Face à dimensão da nossa operação, estamos 100 por cento orientados para o mercado formal (distribuidores) apenas.

A vossa produção é suficiente para proteger a indústria local?
A nossa produção, em condições normais, é suficiente para garantir entre 50 e 60 por cento do que é consumido a nível nacional. Perante esta capacidade, o importante é que haja medidas que promovam a produção local, para que seja toda absorvida aqui internamente e consumida. Apenas a diferença seja importada por operadores com capacidade financeira, logística, de rede de distribuição identificada e com a situação fiscal regularizada.

Quais são os grandes constrangimentos que verificam ao longo da vossa cadeia de produção?
Por exemplo, devido a incertezas da rede de abastecimento de energia e água, a fábrica está equipada com geradores para abastecimento de energia, em caso de interrupção de fornecimento da rede pública. A utilização de geradores tem um custo adicional, naturalmente. O mesmo com o abastecimento de água, pois tivemos de criar reservatórios adicionais de água que nos dá autonomia para vários dias em caso de corte de abastecimento da rede pública. De qualquer forma, estamos equipados para funcionar no contexto da economia angolana e para entregar valor acrescentado ao país, contribuindo desta forma para a criação de riqueza nacional, emprego e reduzindo as importações.

Como têm contornado essa situação?
Os constrangimentos são transversais à economia, e como referi, estão ao nível da desvalorização cambial e a dificuldade na obtenção de divisas para a importação de matéria-prima, ingredientes e peças de substituição. De qualquer forma, o que importa salientar é que os nossos objectivos de negócio estão alinhados com as necessidades do mercado angolano e com os desafios da economia do país.

Uma produção de sete milhões de sacos de 50 quilos não é suficiente para abastecer o mercado e ainda assim ambicionam elevar a produção?
O objectivo é aproximar o país o mais possível da autossuficiência na produção de farinha de trigo. A montante, isto vai proporcionar uma significativa poupança de divisas ao país.E a jusante, vamos dinamizar muito mais a economia, a criação de empregos directos e indirectos e o surgimento de outras indústrias que utilizem a farinha de trigo como matéria-prima.

Relativamente à produção de farelo, muitos avicultores e criadores de gado queixam-se da falta de ração para os seus animais. Já pensaram em virar o vosso negócio também nesta direcção?
Na mesma óptica da farinha de trigo, a produção local de farelo de trigo pode possibilitar o surgimento de indústrias de ração animal, que utilizem o farelo de trigo como parte da sua matéria-prima, a qual já fornecemos em quantidade e qualidade para muitos.

Qual será a vossa estratégia para continuar a manter os níveis de produção?
A nossa estratégia está focada na manutenção da qualidade do produto. A alta criticidade na qualidade do produto final exigiu que dimensionássemos a fábrica para esse nível de exigência. Em suma, a GMA pretende produzir o suficiente para suprir entre 50 e 60 por cento das necessidades totais de consumo da população angolana. É este o objectivo que perseguimos diariamente, mas para o qual consideramos necessário o apoio institucional adequado para evitar o desvirtuamento do mercado.

A GMA é sem dúvida, o pilar para se recuperar a produção de trigo que houve no passado. Que projectos têm em carteira, além dos já existentes?
A GMA e as outras moageiras são o pilar para se recuperar a produção de trigo que houve no passado. Estamos disponíveis para trabalhar em conjunto com os produtores desse cereal. Gostariámos de ser responsáveis de grande parte dessa produção, desde que em condições de competitividade justa.

Quantos empregos foram criados ao longo deste período?
Na sua fase inicial, criamos mais de 150 postos de trabalho directos e outros tantos indirectos. Estes empregos têm um significativo impacto social, quando alargado o número às famílias e respectivos agregados. Para além dos mais de 150 postos de trabalhos directos, largas centenas de empregos adicionais estão indirectamente ligados à nós, tendo em conta a cadeia de fornecedores associada e a integração vertical resultante disso.

Como é que asseguram a transferência de conhecimentos técnicos e tecnológicos?
É um trabalho que estamos a fazer desde muito antes da inauguração, através de acções de formação e capacitação dos quadros nacionais, que na sua maioria tiveram pela primeira vez contacto com uma indústria dessa dimensão e com tecnologia de ponta, de referência a nível mundial. Neste particular estamos bem servidos.

Onde adquirem a matéria-prima, uma vez que não somos produtores deste cereal?
A nossa matéria-prima continuará a ser proveniente de diversos países, que têm uma grande tradição na produção de trigo como a França, Alemanha, Canadá, EUA, Cazaquistão e Austrália, e alguns outros onde adquirimos o trigo para a produção de farinha.

Qual é o vosso investimento anual na produção de trigo?
Estamos focados inteiramente na produção de farinha de trigo e este esforço resulta sempre de um investimento de usd 100 milhões anos.