A música reggae em Angola necessita de apoios para que os seus fazedores possam mostrar com maior regularidade a produção feita no país. O reggae sempre foi um estilo que se debateu em libertar as mentes oprimidas e fazer com que os povos tivessem autonomia. Em Angola, a música tem adeptos fiéis que vêem no estilo grande potencial para conquistar mais mercado. O JE conversou com o promotor e investigador musical de reggae, Tomás de Melo que abordou a cultura e o estado reggae em Angola.

Como avalia a música reggae feita em Angola?
Bem, muita gente em Angola gosta da música reggae e nos espectáculos o povo vibra com as notas melódicas que caracterizam o estilo. O problema reside no facto de haver poucas oportunidades aos músicos de reggae, pois não são convidados pelos promotores de shows. Há, ainda, muita discriminação pela sociedade à volta dos fazedores e amantes da música e são associados ao consumo da cannabis sativa, vulgarmente conhecida como “liamba”, como sendo indivíduos de má conduta e, por isso, postos à margem da sociedade. Nota que a música reggae foi o único estilo que muito contribuiu para a liberdade do continente africano e incentivaram os africanos a lutar pela sua liberdade e independência.

E como está a divulgação das músicas reggae a nível das rádios?
Nos anos 80, nomes como Nguxi dos Santos, Dias Júnior, Tony Sofrimento, entre outros, batiam-se incansavelmente para que a música e cultura fossem divulgadas. Nos dias que correm, há muitos programas de rádio que divulgam a cultura e a música reggae, como são os casos da Rádio Ecclésia (Raízes Reggae), Rádio Escola (Angola Road Nation) e FMX, onde se tratam todas as facetas atingidas pelo movimento rastafari desde o desenvolvimento da música a saída dos escravos de África para América, Caribe e outras partes do mundo e a fusão do rock studing e o reggae.

Tem havido espectáculos de reggae no país com alguma regularidade?
Quanto aos espectáculos tenho de ser realista. Os realizados são de carácter intimista, ou seja, não ocorrem em salas como o cine Atlântico. Nós, com o apoio da Associação do Movimento da Ordem Rastafari de Angola (AMORA) e o Núcleo dos Amigos do Reggae (NARA) realizamos o primeiro Festival Internacional de Reggae em 2004, no cine Karl Marx, mas até agora não conseguimos realizar outro por falta de apoio dos empresários culturais que não apostam no estilo. Temos algumas bandas musicais que têm feito alguns espectáculos como Luanda Dread Band, Os Powers, Os Contrastes e MPTY Heard, além de grupos em Cabinda e Benguela que, de forma tímida, têm realizado alguns eventos, mas o essencial que tem passado é sempre na expectativa de ajudar a libertar mentes e almas do mundo da opressão.

E essas bandas vivem da música reggae?
Em Angola não se vive da música reggae. Algumas bandas têm discos no mercado e vão trabalhando nas músicas ou em novas roupagens. Os elementos das bandas têm outras ocupações para poder sustentar as suas famílias. O reggae surge como um chamamento para causas divinas em despertar almas, e as bandas tocam por amor à arte e o que ela representa.

Como promotor, há espectáculos internacionais em que participam grupos angolanos?
O reggae tem ficado somente pelo nosso mercado nacional. Infelizmente, não temos muitos festivais, mesmo a nível do continente e a falta de oportunidades aliada aos promotores de espectáculos que preferem o que está “a bater” no momento por questões comerciais faz com que esqueçam-se da diversidade que faz melhor mosaico cultural de Angola. Há bandas como os Impactus 4 que tocam reggae e não são marginais, o Eduardo Paím, o Legalize, entre outros. Precisamos de um estúdio vocacionado exclusivamente à produção nacional da música reggae e, nos próximos tempos, pensarmos em criar uma banda de estúdio para contribuir para a promoção e divulgação de músicos reggae.

O que leva as pessoas a olharem de forma discriminatória para os rastas?
Eu acredito que tudo passa pela educação. Muitas delas foram ensinadas a comportarem-se e julgam as pessoas pela aparência, porque muitos olham-no como consumidor de “liamba” ou “drogados” que não vivem sem o consumo da mesma. Isso tudo é mentira. A nível do movimento rastafari, ninguém é obrigado a consumir a “liamba” para fazer parte da comunidade. Consome-se por uma questão espiritual. Os media também tiveram meia culpa na educação das pessoas, porque criaram a imagem que o rasta não vive sem a canadis sativa e a música passou também a ser marginalizada e foram formatados a discriminar sem sequer entender o que discriminam propriamente.

E de que forma o movimento rastafari pode ajudar as comunidades?
Além da música, sabe que o rasta também é um indivíduo ligado às artes plásticas. O artesanato é o que mais se evidencia na comunidade. O rasta fabrica quase tudo em termos de indumentária nas cores, verde, amarela e vermelha que representam a lealdade que o rastafari sente em relação ao estado da Etiópia que durante o reinado do imperador Haile Selaisse que inspirou grandes nomes importantes como Malcolm X, Martin Luther King e Nelson Mandela. A base da influência de Salaisse era o grito da insatisfação do oprimido e nas comunidades os jovens podem aprender esta arte. Desta forma, evitar-se-ia o caminho para a delinquência.

E neste contexto, como o movimento rastafari lida com as dificuldades em promover e fomentar a música reggae?
Nós, particularmente, fazemos a divulgação da música reggae através das rádios e algumas actividades que a Nara ou a Amora vai fazendo para que o movimento rastafari esteja sempre ligado aos seus objectivos que é levar o conhecimento da cultura rasta há mais almas e cultivar nas pessoas o amor ao próximo através da música. Temos mantido contactos com outros movimentos rasta a nível de África e no mundo. Por exemplo, temos estabelecido contactos com a família Marley, como é o caso do Ziggi Marley e Ky-Mani Marley em que aprofundamos conhecimentos sobre a cultura rasta e como o movimento rastafari tem crescido ao longo dos tempos. Portanto, estamos bem encaminhados no mundo comparativamente a Angola onde se sente ainda muita discriminação do movimento rastafari. Temos um espaço “Sinezia” no bairro Palanca, rua do sanatório onde realizamos alguns shows e no espaço da Rádio Escola, onde, também, realizamos várias actividades. Já no próximo mês de Maio, pensamos agendar alguns espectáculos nestes espaços relacionados ao Bob Marley e ao continente africano. Para tal, convidamos outros músicos que não sejam propriamente da comunidade rasta.