Ao nosso espaço de Grande Entrevista para esta semana, fomos à procura do economista e pesquisador do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, Precioso Domingos. Numa conversa a dois, procuramos por um local que nos permitisse fugir do sol ardente que, ultimamente, sufoca Luanda. Estamos num período quente e de chuvas, depois de uma seca que, sobretudo no sul do país, gerou prejuízos enormes. Um lugar aconchegante, se impunha. E assim foi. Ele mostrava-se descontraído e bem disposto para responder as questões ligadas à nossa economia e as suas possíveis saídas. E logo-logo fizemos a primeira pergunta, até porque, devido à sua agenda académica pressionante, era importante ganhar tempo...
Aquando da entrega da proposta do OGE, o ministro de Estado, Manuel Nunes Júnior, deixou claro que um dos principais objectivos é o relançamento da economia e até citou os sectores da agricultura e da indústria transformadora como estando entre as prioridades.

Acha terem sido bem definidas as áreas para a saída da crise?
Sejamos honestos para com o país: não existe nenhum relançamento da economia e não existem condições criadas sequer para isso. O país está sob algumas reformas estruturais com o apoio do Fundo Monetário Internacional e a evidência empírica demonst0ra que sob este tipo de programas as economias não crescem, tal como vem demonstrando a própria economia angolana.

Mas Angola pode ser uma excepção...
...Angola até poderia ser uma excepção à essa regra ou evidência por causa do petróleo mas, infelizmente, a produção anual de petróleo prevista para 2020 (524,5 milhões de barris) será menor em relação a já de per si baixa produção anual para 2019 (646,2 milhões de barris).

Não percebemos o ponto de vista. Explique-se melhor?
Tem-se vendido uma falsa ideia de que o sector não petrolífero é rebusto ao ponto de retirar Angola da recessão. Essa ideia me preocupa porque uma eventual surpresa positiva do sector petrolífero pode atrapalhar as reformas em curso, pois, alguém quererá atribuir o mérito alheio (do petróleo) a reformas que ainda não estão a meio sequer.

Tem de ser optimista. Não acredita nas reformas?
Não é o caso. Entretanto, espero que dessa vez o Governo leve as reformas até ao fim independentemente do aumento do preço e da produção petrolífera. Que o petróleo deixe de ser um mal para a economia angolana.Relativamente à proposta de despesas no Orçamento Geral do Estado (OGE) sobre o “Fomento da produção agrícola” avança uma despesa de 33.052.787.271,00, o que corresponde a 0,21 % do orçamento, enquanto “Fomento da produção da Indústria transformadora” terá 28.045.176.339,00 correspondente a 0,18%, podemos incluir as de “Apoio à produção, substituição das importações e diversificação das exportações” com 2.195.480.275,00 que é equivalente a 0,01%.

O que lhe oferece comentar? Correspondem às expectativas?
Nem tudo é uma questão de mais dinheiro ou menos dinheiro. A questão que se coloca é saber se podemos fomentar a produção com o Estado a querer fazer o papel do privado e o papel do Estado abandonado, sendo que as empresas e as famílias acabam pagando caro por essa atitude suicida do Estado. Uma medida imediata e necessária para o Governo ter alguma eficácia no seu papel de viabilizar a produção em Angola é cancelar imediatamente a sua pretensão de construir um sistema de metro de superfície para Luanda e evitar jogar para o lixo 3,5 mil milhões de dólares.

Sinceramente, vê algum erro nesta pretensão? Por quê? Não percebemos...
Foram erros como esses que hoje nos estão a custar muito caro! Angola não precisa de transporte rápido e colectivo para passageiros para alavancar a sua economia.

O que precisa então? A questão da mobilidade em Luanda, e não só, carece de solução?
Angola precisa de um sistema de transporte rápido, se possível rapidíssimo para transportar mercadorias. O problema de Luanda são as estradas que são inoperantes, não é o excesso de veículos. Nem que o dinheiro fosse utilizado para asfaltar as diversas vias secundárias e terciárias que Luanda possui, haveria melhor aproveitamento e consequências positivas para a economia. Os 3,5 mil milhões de dólares são 53 vezes superior ao valor que o Orçamento canaliza para o fomento da produção agrícola, são 62 vezes superior ao valor previsto para o fomento da produção da indústria transformadora e 797 vezes superior ao valor destinado ao apoio à produção, substituição das importações e diversificação das exportações.Sabemos que está apressado por ter outros compromissos, mas responda mais estas questões, por favor. O PR tranquilizou, agora na Itália, os contribuintes angolanos, dizendo que estamos apenas a viver um período de “turbulência” passageira, como acontece nos aviões, onde, nestes momentos, os passageiros têm de apertar o cinto…

Que saída vê para esta crise que está a provocar muitas consequências na situação de vida das famílias e das empresas?
Sim, é verdade. O erro da equipa de bordo foi não ter informado e prevenido os passageiros (sobretudo à população) sobre a ocorrência desta fortíssima e longa turbulência, pois, não era do desconhecimento do piloto e do restante pessoal que compõe a tripulação do avião. Ao se fazer o anúncio durante a turbulência que se espera longa e muito difícil, muitos passageiros podem ser levados a pensar que a excessiva instabilidade da aeronave esteja mais associada à reduzida habilidade da tripulação para fazer face às fortes turbulências e questionarem se irão ou não conseguir escapar disso.

Pode ser mais claro...
... muito bem. A isso, os economistas chamam de incerteza e falta de confiança na economia. Diante da incerteza, os investidores não investem, uns vão investir noutras paragens, outros ficam à espera até que a situação se clarifique. É nesse contexto que se pode falar em ‘‘relançamento da economia’’?
Evidentemente que o que está aqui em discussão é a reforma cambial, mais precisamente a liberalização desse mercado. Podemos discutir a forma como vem sendo conduzida essa reforma, mal, mas nunca a sua implementação. Ao ponto a que chegou a economia angolana, a desvalorização do kwanza não é uma escolha, é uma obrigatoriedade. Pensar de forma contrária é ser homem bomba. Estamos diante dum cancro que pode garantir a morte do paciente dentro de pouco tempo, mas que as chances desse paciente se curar e viver por longos e felizes anos é bem maior caso ele aceite submeter-se a quimioterapia.

Risos. Estão aí os acordos. Têm sempre um bom fim, entre os quais com o Fundo Monetário Internacional (FMI)?
Ao ter assinado o acordo com o FMI, o Governo permitiu que a economia angolana sofresse esse tratamento difícil, porém, o caminho mais sensato.
Este cancro surgiu porque no passado os gestores da economia, que no geral continuam a ser os mesmos, decidiram usar os dólares do petróleo para comprar felicidade (juros bonificados e crédito fácil dirigido a pessoas de conveniência, taxa de câmbio artificial – 100 dólares chegou a valer 8 mil kwanzas ou menos, subsídios em quase tudo: aos combustíveis/água/energia, etc, etc.). Esse tipo de felicidade é de curto prazo e termina quando a fonte não sustentável de geração de divisas perde essa capacidade, é aí que o cancro atinge a sua maturação.

Mas, o país ainda continua focado nos seus objectivos. Dito por outras palavras “tem rumo”?
O país tinha tudo para garantir uma felicidade de longuíssimo prazo às famílias e empresas, mas optou por desperdiçar essas oportunidas, preferiu apenas ir fazendo make-up num rosto não lavado.
Risos. Onde está a maka?
Está no facto de que apenas alguns empurraram o país para onde ele se encontra hoje, mas que as consequências negativas acabam incidindo mais sobre todos, principalmente, para os mais pobres, os indigentes. É aqui onde quem de direito deveria pedir desculpas ao povo pelo passado e isso servir de pressão para melhores acções no presente e futuro.

Pedir desculpas?! Mas deixa para lá. Esse indicador tem o seu significado...
...esse indicador não diz nada de especial e facilmente pode ser manipulado. Hoje, ele é mantido à custa da deterioração da qualidade de vida das famílias e as grandes dificuldades impostas às empresas que importam seja matérias-primas ou bens acabados. Nesse exacto momento, o Governo ou o BNA podem dizer que temos reservas para 8 meses de importação, por exemplo, mas a questão que não se cala é: para quantos meses de importação os actuais níveis de reservas dariam se mantivéssemos o valor das importações de 2011 ou de 2012, por exemplo? Se calhar 1 a 2 meses apenas. A desvalorização do kwanza serve também para melhorar esse rácio ou indicador.