Depois de uma década como vice-presidente, Filipe Makengo assumiu há cerca de um ano a posição de presidente do Sindicato Nacional dos Empregados Bancários de Angola (SNEBA). Cheio de sonhos e com a motivação em alta, o homem que quer construir uma clínica, um lar e resort para os associados, vive, nos últimos dias sob intensa pressão. Os assaltos à mão armada à saída de bancos tiraram vidas de pessoas, mas trouxeram também um clima de suspeitas sobre possíveis bancários envolvidos no repasse das informações aos criminosos. Ele que ainda só controla 17 mil (75%) do total de 23 mil empregados bancários, tem agora de tirar algum tempo para com os associados, parceiros e instituições mais visadas, limparem a imagem de um sector bancário.

Há ou não participação dos empregados bancários nos assaltos que ocorrem à saída dos bancos?
Não podemos afirmar aqui haver ou não participação directa dos empregados bancários nos vários assaltos que acontecem. O Sindicato não está em condições de afirmar ou reafirmar. Somos, neste momento, 23 mil bancários, no front e no back office, dos quais 75 por cento (17.250) estão sindicalizados no SNEBA. Dizer-se de forma seca e generalista que os bancários estão a pactuar com os assaltantes é grave. Apoiamos as ideias, segundo as quais, é preciso ver-se a exposição das agências bancárias, uma vez que apesar de dentro do banco, a estrutura espelhada ainda assim, permite que os de fora, nalguns casos, consigam ver, normalmente, os movimentos de dentro. Também já lá dentro do banco, há muitas pessoas a levantar e depositar ou mesmo em outras operações. Se simuladas ou não, também é difícil comprovar. Até mesmo quem é atendido em zonas privilegiadas também é visto, o que faz aumentar o risco de todos os intervenientes nesse processo.

E as câmaras e serviços de protecção física?
São também outros elementos que participam na vistória da segurança dos bancos, embora note-se que a parte externa dos bancos, onde ficam os seguranças, estão lá também as kinguilas, os engraxadores etc etc. Há muita gente à entrada dos bancos que, só vermos o trabalhador bancário como dos principais suspeitos é até desvalorizar uma classe que muito investe nas normas ética e de deontológica profissional.

Está a dizer que os bancários não têm sido parte dos crimes?
Ao menos não temos históricos de participação de bancários em assaltos. Ficamos até perplexos com essa envolvente que se coloca. A pergunta é: em troca de que o bancário participaria num assalto de kz 1.500.000 (um milhão e quinhentos mil kwanzas), e onde é baleado um cidadão? Ele ganha em algunsmeses tal valor. E pelo número de participantes nestes actos (4 ou 5) dá a perceber que na divisão em partes talvez cada um fique com kz 300 mil não muito mais do que isso. E o bancário ganha isso ou quase isso no final do mês, um salário que não atrasa. Tem ainda outros benefícios e regalias.

A classe bancária está fragilizada com todo este ambiente?
Fragiliza e muito. É bom entendermos que no sector bancário, tal como uma casa de família, se podemos comparar, também podem haver “filhos” que não se comportam tal como orientam as normas. Talvez existam infiltrados até...mas mesmo nestes casos, só podemos esperar que os órgãos de investigação consigam apurar a verdade dos factos e trazermos com isso ao conhecimento de todos com nome, dados e se possível trajectória bancária. Isso todos auguramos que ocorra.

Pelas redes sociais há imagens de supostos ex-bancários mandantes ou em participação em quadrilhas...
Nós queremos indagar, mas com nomes e dados factuais. É bom reiterar aqui que o sindicato não pode ser acusado de estar a ser reactivo ao invés de proactivo, pois regularmente fazemos formações na área comportamental sobre as boas práticas no sector.

Mas agora é questionada a confiança ou a honestidade dos bancários...
Claramente. Mas a banca não pactua com situações negativas ou comportamentos tendenciosos. Temos noção de que lidamos com matéria sensível, que é o dinheiro das pessoas. Perder a confiança dos clientes ou de quaisquer outros intervenienets do mercado é desprestigiante para a banca e os bancários no geral. Só por isso, estamos muito desejosos que rapidamente se esclareçam todos estes crimes, se neles há efectivamente participação ou não de funcionários do sector.

Duvida mesmo disso...
Sim e porque a forma em como muito dos crimes são realizados; bem como a perícia do manuseio das armas de fogo, fazem-nos mesmo crer que não se trata de trabalhadores bancários. Há, no meio desta crise social e económica, muita mão-de-obra desocupada.

O senhor é do tempo em que o bancário era um cidadão de respeito. O que se está a perder nesse percurso de inovação, rejuvenescimento e maior exigência técnica e tecnológica?
O que mudou é o não saber esperar. Há uma geração que quer chegar já, ter já, agora. Antigamente, só depois de três anos é que se passava a trabalhador quadro-efectivo e disso resultava muitos e vários benefícios. Hoje por hoje ninguém quer esperar. Todos querem ter carro top de gama. Ninguém quer andar na boleia do outro. Não se pode atingir o pico da montanha em poucos anos de escalada.

Logo, esse comportamento abre portas à “mixa”?
Dá lugar a práticas fora do normal, pouco claras. O espírito da opulência, da luxúria toma conta do bancário. A “mixa” é a gasosa na banca e é um práticas que devemos combater. Não é prática bancária. É anti-ético. Quem lida com dinheiro dos outros deve ser uma pessoa digna, responsável e confiável. Não pode fazer usufruto dos recursos dos outros. os recursos confiados à banca são para ajudar o desenvolvimento económico do país e não a gula ou ambições de insaciáveis, que querem riqueza num abrir e fechar de olhos.

Como é que o bancário é preparado para lidar com tanto dinheiro à vista tendo necessidades imediatas todos os dias por resolver com dinheiro?
Repito que o dinheiro é alheio e a nós bancários só nos é recomendado receber, registar e depositar nos cofres apropriados. O dinheiro não pode ser tentação para o bancário. Quem concorre para o sector, sabe que a matéria-prima ou o meio de trabalho com que vai lidar, permanentemente, é o dinheiro. Há um código a observar. O princípio que norteia o trabalho bancário é o do não usufruto de bens alheios. Dinheiro que contamos todos os dias não é nosso.

O rejuvenescer da banca é visto como sendo um problema?
Não. De modo nenhum. As gerações são mutáveis e deve-se rejunescer a banca como qualquer outo sector do país. A verdade é que onde há um velho deve haver um novo e vice-versa. O problema apenas reside na cosnciência e no comportamento.

Tudo isso só concorre com a ideia de possível envolvimento dos bancários nos assaltos aos bancos e às pessoas...
Não é a nossa posição. Apenas assumimos que vamos continuar a dialogar com as entidades patronais para que os bancos possam dar maior atenção à condição social, técnica e profissional dos seus trabalhadores. Afinal o ser bancário é um privilégio. Há quem minimize, mas a verdade é que a banca é um sector de elite, top, com os melhores benefícios e regalias salariais e outros.

Então vamos blindar as agências e torná-las menos visíveis para os que estejam de fora do balcão?
Rsrsrsrsrsrs...Temos é de continuar a melhorar o ambiente de segurança dentro e fora dos bancos, para que os clientes se sintam seguros e continuem a depositar as suas poupanças nestes pontos espalhados pelo país. Não se pode permitir que casos pontuais manchem todo um bom serviço que se vem fazendo, seja pelos bancos, seja palas autoridades do Governo que modernizam e investem na qualidade e melhoria da prestação do serviço bancário aos cidadãos.

O que se ganha na banca afasta ou aproxima o bancário do crime e outras práticas lesivas?
Na banca ganha-se bem. O bancário tem facilidades enormes. Comparativamente a outros sectores. é incomparável o que um e outro ganha, refiro-me em concreto numa avaliação entre a banca e a função pública.

Despedimentos por (in)justa causa podem ser também móbil para crimes ou retaliações?
Podem, mas não devem. Há no Sindicato Nacional de Empregados Bancários de Angola (SNEBA) dois advogados em tempo permanente que nos auxiliam em matérias de direito do trabalho, para verificarem a conformidade ou não dos despedimentos que ocorrem. Quando injustos nós recorremos e nalguns casos somos felizes, quando justos, só temos de olhar para as causas e acompanhar a continuidade do processo.