A promoção pelo desenvolvimento e sucesso empresarial, bem como a valorização da produção nacional é um dos objectivos fundamentais da Associação Agro-pecuária, Comercial e Industrial da Huíla (AAPCIL). Em entrevista ao Jornal de Economia & Finanças, o seu presidente cessante, António de Lemos, fez o balanço das actividades desenvolvidas durante os últimos 14 anos, que considerou de positivo.

O que é a Associação Agro-pecuária, Comercial e Industrial da Huíla (AAPCIL)?
A Associação Agro-pecuária, Comercial e Industrial da Huíla (AAPCIL), foi fundada aos 29 de Março de 1991. Ela caracteriza-se como uma associação multissectorial de âmbito regional, fruto do querer de alguns empresários que conscientes da importância da empresa nacional e no desenvolvimento económico da região decidiram dar corpo a um organismo que representasse os seus superiores interesses e tivesse como objectivo fundamental a luta pelo desenvolvimento e sucesso empresarial.

Catorze anos depois, a dirigir os destinos da AAPCIL, qual é o balanço que lhe oferece fazer?
Penso que a nossa função à frente da AAPCIL foi positiva. Foram catorze anos difíceis, porque não podemos nos esquecer que quando assumimos a liderança da associação praticamente já não existia e não tinha credibilidade em função do contexto vivido no país. Por isso, durante esses 14 anos, trabalhou-se para recuperá-la, credibilizá-la e transformar uma das maiores associações empresariais do país, ou pelo menos aquela que é mais actuante que dispõe sócios efectivos com o pagamento de quotas regulares. Foi um
trabalho bastante positivo.

Quantos membros estão filiados na AAPCIL?
A AAPCIL tem um universo de 600 associados, embora apenas mais de 200 pagam as suas quotas. Temos membros associados localizados nos municípios ainda com grandes problemas de funcionamento. Grande parte dos membros, embora se revejam na associação, as suas dificuldades muitas vezes não lhes permite pagar o compromisso das suas quotas. Mas para nós, o importante é que o nosso propósito de apoiar a classe é positivo e efectivo.

Há membros localizados em todos municípios da província da Huíla?
Temos núcleos da AAPCIL em quase todos municípios da província da Huíla, com excepção dos municípios da Chibia, Chicomba e Chipindo. Os restantes 11 municípios têm a representatividade. O trabalho que é desenvolvido é bastante positivo. Em todos municípios e periodicamente são realizadas feiras, para promover e divulgar o potencial de cada localidade de municípios. O trabalho que é desenvolvido está de facto virado para o desenvolvimento dos municípios. Temos um apoio satisfatório de grande parte dos administradores municipais e acima de tudo, criamos credibilidade dos agentes económicos que ali funcionam.

Durante este período os objectivos traçados foram cumpridos?
Não. Naturalmente que não, porque o âmbito da AAPCIL é muito grande e em 14 anos é impossível cumprir tudo aquilo que foi traçado. De qualquer maneira, devo dizer que grande parte dos objectivos foi cumprido. Criamos mecanismos que permitiram com que a maior parte das empresas da Huíla fossem associadas. A Associação nessa altura representa mais de 90 por cento das empresas que actuam em diversas áreas na Huíla. Estamos satisfeitos, porque isso prova ter havido um trabalho positivo. É com orgulho que digo que quando estou em fase de cessar o mandato, continuamos a receber pedidos de empresários a manifestarem o interesse de integrar na associação.
Isso é motivo de regozijo.

Promover a produção nacional é um dos objectivos da AAPCIL, com a realização, anualmente da Expo-Huíla. Os resultados são positivos?
A Expo-Huíla é a maior feira de negócios do Sul de Angola, e é realizada todos meses do mês de Agosto, por altura dos festejos da Nossa Senhora do Monte e é dedicada à produção nacional. Quando começamos a realizar a Expo-Huíla, desde a minha direcção, o certame tinha meia dúzia de stands. Fizemos, desenvolvemos e alargamos o local até onde era possível, conseguimos fazer um espaço para 150 pavilhões. Hoje já não conseguimos alargar o espaço, por falta de verbas e a autorização do Governo provincial. Continuamos a manifestar essa dificuldade para fazermos futuras expos com maior grandiosidade, mas sabemos que também há uma preocupação do Governo. Saio de facto com a cessação de que não fiz tudo, porque gostaria que a Expo-Huíla tivesse atingido uma dimensão ainda maior em relação a que atingiu. Acredito que as futuras e novas direcções da AAPCIL continuarão a ter como preocupação, o alargamento da Expo-Huíla, para que possamos mantê-la como a segunda-feira de exposições empresariais do país, depois da Filda de Luanda.

Tem havido apoios financeiros com a realização da maior bolsa de valores da região Sul?
Realizamos certamente todos os anos com valores exclusivamente da nossa associação. Nunca pedimos dinheiro, porque estamos conscientes de que essa actividade é exclusivamente da nossa direcção. Vamos continuar a realizar a Expo-Huíla a custa da associação com o apoio da classe empresarial.

Não há possibilidades de se recandidatar à frente dos destinos da associação?
Não posso voltar a me candidatar. Tudo tem o seu limite. Atingi o meu limite e acredito que para fazer seguir os destinos da AAPCIL, é preciso ter mais juventude, disponibilidade e saúde. Eu sinto que já não tenho a mesma disponibilidade, saúde e juventude quando tomei a direcção. Estou consciente de que cumpri com o meu papel, embora devia ter feito muito mais. A direcção praticamente vai manter-se e será constituída por pessoas muito experientes e o nosso candidato é consciente de que não é fácil dirigir a associação, mas também está convencido de que tem todos argumentos de fazer um bom trabalho.

A Expo-Huíla é um dos ganhos que fez com que o evento se tornou como internacional…

A Expo-Huíla transformou-se num evento muito grande. As vezes nos interrogamos como foi possível, uma vez que iniciou-se a trabalhar com pessoas que na altura tinham pouca experiência daquele tipo de evento, aliado a falta de dinheiro. Fomos teimosos, perseverantes e tivemos muito apoio da classe empresarial. Transformamos uma pequena exposição de sacos de açúcar e de arroz importados. Hoje já é o segundo maior evento que é realizado no país. Como disse a pouco, o ganho orgulha-me, a classe empresarial e a toda geração que participou. A Expo-Huíla tem sido o ponto de encontro de muitos empresários internacionais e a opinião de todos é de ser um certame muito bem organizado. Nunca tiramos dividendos com a realização de evento Fizemo-lo sempre com amor, carinho e dedicação.

Em função da exiguidade de espaço é possível termos uma Expo-Huíla fora do perímetro do complexo da Nossa Senhora do Monte?
Naturalmente que no futuro pode acontecer. Continuamos a fazer esforços para que o evento não saia da Nossa Senhora do Monte, porque há uma interligação entre as festas da Nossa Senhora do Monte e o complexo e a realização da Expo-Huíla. É natural que nos primeiros dias sem o evento naquele local, poderá haver muitas reclamações, as pessoas vão sentir a falta por ser uma das grandes realizações das festas da Nossa Senhora do Monte.

Ainda há possibilidade de aumentar o espaço actual?
Sim. Há espaço no perímetro, mesmo por detrás dos actuais pavilhões. O problema é que os espaços estão mal ocupados. São situações que a nova direcção poderá trabalhar para se encontrar uma saída e continuar a dar o cunho da Expo-Huíla, às festas da Nossa Senhora do Monte.

Com a realização da Expo-Huíla, quantos milhões são arrecadados anualmente?
Não há milhões. Arrecadamos sempre algum dinheiro que nunca chega e conseguimos pagar todo investimento que se fez. Todos os anos pintamos, construímos instalações sanitárias com dignidade, armazéns, ATM, bares, restaurantes para o evento. Fazemos sempre investimentos para que o evento tenha sempre o aval positivo dos expositores e visitantes. Do que retiramos do aluguer dos stands, chega sempre, mas não permite viver nos meses subsequentes. A Expo-Huíla vive a base dos ganhos que são retirados com a realização da maior bolsa de valores da região Sul e quotas. Por isso mesmo tenho orgulho de dirigir a classe empresarial da Huíla.

A promoção da produção nacional é um dos objectivos da Expo-Huíla. Sente-se que essa acção foi atingida?
Está visível na realização da Expo Huíla. Desde o princípio da nossa actividade sempre fizemos de aproveitar ou fazer do evento, para divulgar o que se fazia na província e no país. Conseguimos. Hoje o evento é um foco de divulgação de tudo que se faz na província e região Sul. Todas empresas estão representadas na Huíla, tanto na indústria, comércio, prestação de serviços, hotelaria e turismo, entre outras. Por isso, desde o princípio cumprimos com a nossa intenção. Vamos continuar a trabalhar e com mais espaço vai-se continuar a transformar no futuro o evento como de exposição de produtos nacionais. A intenção que se tem é de fazer do certame de apresentar e promover toda produção nacional.

Durante o período à frente da associação, qual é a avaliação que faz do crescimento económico da província da Huíla?
O crescimento é de facto positivo. Tivemos fases extremamente positivas, fizemos um trabalho de realce a nível da classe empresarial, pena foi que nunca fomos acompanhados. Sempre reclamos apoio aos empresários e produção nacional, mas nunca tivemos declaradamente esse apoio. Já houve fases em que pensamos que o nosso espaço fosse ocupado pelas empresas estrangeiras e o desenvolvimento do país continuava a ser em torno do petróleo e o resultado está a vista.

O parque industrial satisfaz actualmente?
Poderia ser muito melhor se tivéssemos o apoio necessário. Tudo que está a ser feito na província da Huíla está feito com o dinamismo de empresários nacionais que tiveram extremas dificuldades que ainda sentem hoje, pois muita coisa que se produz ainda fica no campo, nas fábricas, porque a importação de produtos estrangeiros dificulta a produção nacional. Não há motivação para se produzir porque o escoamento depois fica muito difícil. Não falo apenas do escoamento da indústria, mas sim da agricultura, pecuária e de tudo que é a produção nacional. Infelizmente continuamos a sentir essa dificuldade.

Como proceder para mudar o rumo dos acontecimentos?
Precisamos continuar a produzir e muito e apoiar essa produção. Temos muitas condições para continuar a produzir. É preciso ter condições para poder escoar os produtos. Produzir, para depois ficarmos com o produto em casa é complicado. Sentimos que as medidas tomadas pelo Governo precisam de mais intervenção do sector privado. A produção do milho está sujeita a ficar no campo, porque a família do milho é muito mais barata a vinda do estrangeiro. É preciso ver que enquanto se agravou e que foi muito bom a taxa de importação do milho, desagravou-se a taxa de importação de farinha de milho. Não percebemos. Penso que é preciso rever algumas medidas que foram tomadas, para de facto se continue a apostar na diversificação da economia angolana. Não podemos continuar a viver exclusivamente do petróleo. Para que isso aconteça, é preciso que se motive a produção nacional.

Nessa altura em que o preço do barril do petróleo baixou, até o camponês também está preocupado. Como é que os camponeses devem reagir diante dessa situação?
Há que motivar as pessoas a produzir. Há muito tempo deveríamos motivar a produção nacional, aliás, tem sido preocupação do Governo neste sentido, até de criar condições para o escoamento do produto e de apoiar as empresas nacionais. Por isso, mesmo contínuo a acreditar. É preciso termos consciência de que precisamos de ter empresários fortes para que o país continue a crescer. De outra maneira venha quem vier, sem empresas nacionais não se faz desenvolvimento. Não podemos continuar a depender de bens alimentares feitos por empresas estrangeiras. Não podemos de maneira nenhuma, porque no dia em que essas empresas nos abandonarem vamos ter dificuldades porque não deixamos de depender de empresas estrangeiras.

Ainda se assiste a produção do campo a se deteriorar?
O Governo tem de pensar a resolver os principais problemas nos sectores da saúde, educação, energia e água e na criação de condições para o desenvolvimento económico. É preciso motivar as empresas a comercializar e a escoar de maneira sólida a produção.

Qual é a avaliação que faz da implementação do programa de combate à fome e à pobreza?
A avaliação é positiva. A acção está a resultar e a reflectir-se na qualidade de vida das populações. Sem dúvida nenhuma que a qualidade de vida da população está a mudar. Muitos serviços essenciais à população estão mais próximos junto às populações e comunidades. O programa de combate à pobreza está muito bem elaborado e tem pernas para andar. É preciso também colocar as empresas privadas para esta luta que deve ser de todos.

Como é que as empresas privadas devem entrar nesse programa?
Com motivação na realização de acções, conjuntas de apoio. Quando falo de apoio, não me refiro apenas de dinheiro, mas sim apoio moral e motivá-los a participar de forma activa nas acções de reconstrução de estradas ou vias terciárias. Não podemos continuar a trabalhar quando sentimos uma concorrência totalmente desleal feita por pessoas com dinheiros mais fáceis de adquirir, que não pagam impostos e outras obrigações com o Estado. Enquanto houver esse tipo de concorrência as empresas nacionais não vão ter sucesso.

Já há rede viária que satisfaz no escoamento dos produtos do campo na província?
Fez-se muito trabalho, mas há ainda municípios que continuam fechados. Quero referir-me ao do Chicomba, que é um celeiro desta província, mas tem uma estrada onde não se consegue circular. É preciso recuperar a ligação com os municípios, para facilitar o escoamento da produção. Precisamos de vias.

A Huíla é uma província potencialmente agro-pecuária. Os níveis de produção de cereais satisfazem?
É preciso a realização de programas de controlo de quantidades e qualidades dos produtos do campo, para se planear melhor a distribuição. As medidas permitem o aumento dos rendimentos familiares. Os municípios do Norte da Huíla, como Chicomba, Caconda e Caluquembe são potencialmente ricos em milho, massango, massambala, feijão, batata, o que torna imperioso o controlo destes produtos. É importante motivar os empresários e camponeses par a produção de bens, mas também, para a filiação na AAPCIL.