Muito não disse nesta curta entrevista, mas, do pouco que falou, o economista e gestor Arnaldo Lago de Carvalho, podem-se perceber algumas vias que a economia angolana deve trilhar, para que o petróleo seja esquecido de uma vez, enquanto ainda “jorra”. Lago de Carvalho disse que a recuperação da produção petrolífera depende dos programas de exploração das operadoras, mas acrescenta que “o declínio da produção vai continuar, até termos novas descobertas”. Ao Economia & Finanças, o gestor sublinhou que “quando o petróleo estava a 120 dólares, não fomos disciplinados o suficiente para encaminhar recursos para as actividades privadas geradoras de riqueza (...) e hoje, com muito menos recursos, estamos a tentar fazer aquilo que não fizemos antes”. Agora, se vamos conseguir ou não, Arnaldo Lago de Carvalho conclui que “não podemos continuar a decidir projectos por impulso”.

O gráfico de produção de petróleo angolano mostra uma queda contínua para os próximos 15 anos. Que perspectivas para Angola, sendo esse recurso a esperança de todos?
A recuperação da produção depende dos programas de exploração das operadoras. Entre o início de novas explorações e o arranque de novas produções há um período de 6 a 7 anos. O declínio da produção vai continuar, até termos novas descobertas .

Que alternativas podem ser aconselhadas hoje, para o país inverter esse quadro, tendo em atenção que grande parte das concessões ainda por explorar não auferem confiança, melhor, não têm petróleo para as necessidades da actual tecnologia de produção?
Temos algumas descobertas marginais que podem ser ligadas a instalações já em produção. Desconheço qual o potencial dessas descobertas, mas poderão evitar a queda acentuada da produção. A nova legislação que regula a ligação dessas novas descobertas a campos existentes é um grande avanço do regime de exploração em Angola. Se é ou não suficiente, só o futuro dirá.
Com o descendente à vista, o que pode ocorrer se Angola não encontrar outros recursos naturais ou outras fontes que devem sustentar o OGE?
Temos que nos ir adaptando a viver menos dos recursos petrolíferos e mais da capacidade da economia de criar riqueza. O nosso país é, mesmo assim, um dos mais beneficiados e, por isso, temos só que aprender a gerir melhor os nossos recursos.

Em vista temos o aumento necessário dos preços dos combustíveis, por força dos acordos para um mercado regional comum. Tem alguma perspectiva de como vai reagir o mercado angolano?
O mercado vai ter que se adaptar ao preço real dos combustíveis. Face as limitações orçamentais, não é possível continuar a subsidiar os combustíveis que, aliás, não beneficiam as camadas mais necessitadas da população. Isso vai implicar ajustamento de preços de outros bens e serviços, mas, ao mesmo tempo, vai reduzir o consumo e o contrabando de combustíveis, o que em si é bom, porque pode reduzir as importações desses mesmos combustíveis.


Professor, porque continuar a subvencionar os combustíveis? Que sectores gostaria de ver protegidos?
As subvenções aos combustíveis devem ir desaparecendo. Se tivéssemos feito o que está legislado, já podíamos estar sem subsídios. Alguns sectores de actividade precisam de apoio, mas há muitas formas de o fazer. A agricultura não devia pagar impostos e isso equivaleria a um preço bonificado dos combustíveis para a agricultura e seria muito mais fácil de implementar e controlar. As pescas será um outro sector, mas aí será preciso ver como melhor fazer com menor custo e maior controlo. A indústria que precise de geradores para funcionar, devia também ser bonificada com um crédito no cálculo de rendimento tributável, o que podia incentivar o arranque ou manutenção de novas indústrias.

O que o país devia ter feito até aqui com o petróleo e não fez?
Quando o petróleo estava a 120 dólares, não fomos disciplinados o suficiente para encaminhar recursos para as actividades privadas geradoras de riqueza. Fomos endividar-nos ainda mais, matamos muitas das pequenas empresas nascentes, que não puderam concorrer com as empresas estrangeiras a quem foram dadas todas as condições e com isso matamos a nossa capacidade de criar uma economia nacional que pudesse substituir os petróleos. Hoje, com muito menos recursos, estamos a tentar fazer aquilo que não fizemos antes.

Se o petróleo secar em 2033, que história vamos contar e que justificativos teremos, se não forem encontrados outros mecanismos para sustentar as gerações vindouras?
Até 2033 temos tempo para fazer muito trabalho e conseguir ter um país que pode viver sem petróleo. Se vamos conseguir ou não, depende de nós. Não podemos continuar a decidir projectos por impulso e que não mostram qualquer rentabilidade, o que é o mesmo que dizer projectos que não criam riqueza. Temos que parar os projectos em curso que são insustentáveis (a nova marginal da Corimba é um deles) e dedicar os fundos que temos no país para bons projectos.